FUSTIGANTE

terça-feira, dezembro 06, 2005

O Mundo Islâmico e Pêro da Covilhã - Parte III

A grande viagem
Esta viagem de que P. da Covilhã e Afonso de Paiva, foram encarregues (o primeiro para a Índia, o segundo para a Abíssinia) insere-se na fase preparatória de exploração da rota do Cabo, juntamente com as viagens de Bartolomeu Dias no Atlântico Sul. Inserido neste programa metódico e sistemático da Expansão, P. da Covilhã deveria recolher informações sobre as linhas de comércio das especiarias, até então dominados por árabes e italianos, nomeadamente de Veneza.
A partida deu-se em Santarém a 7 de Maio de 1487. A viagem até à ilha de Rodes fez-se sem problemas – a partir daqui o viajante estaria sempre em terreno muçulmano.

1) O Egipto Mameluco
O Egipto dispunha de uma importância estratégica determinante no comércio entre o Oriente, nomeadamente a Índia, e a Europa. Esse comércio, promovido, essencialmente por venezianos e genoveses, estes em menor escala, assentava nas potencialidades da rota do Mar Vermelho. A grande vantagem desta rota sobre a do Golfo Pérsico é o seu menor percurso terrestre. Assim, o delta nilótico ganha uma predominância importante, principalmente Alexandria. Esta cidade passa a ser a porta de chegada dos produtos do Indico. A rota do Cabo descoberta por Bartolomeu Dias em 1488 e o caminho marítimo para a Índia explorado por Vasco da Gama em 1498, levou a rota do Mar Vermelho à decadência, arrastando consigo o vigor de Alexandria e dos comerciantes italianos.
Portanto, quando P. da Covilhã chegou a Alexandria, vindo de Rodes, provavelmente em Agosto de 1487, a cidade mantinha-se ainda um importante foco mercantil. Politicamente, o Egipto era governado pelos mamelucos, cujo poder estava sedeado no Cairo.
Aquando da ocupação cristã da Terra Santa, promovida pela Cruzadas, ocorrem algumas transformações no Egipto. Em 1170, os turcos Seljúcidas dão o título, tal como o poder, do Egipto a um militar curdo, que se salientou na luta contra os cruzados, de nome Salah al-Din ibn Ayyud (Saladino). Ele funda a dinastia Aiubida que governará o Egipto até 1250.
A base do poder Aiubida consiste no seu exército mameluco13, recrutados entre jovens da Ásia. Em plena dinastia Aiubida, os emires (comandantes dos regimentos de mamelucos) ganhavam cada vez maior influencia. No ano de 1250 tomaram, efectivamente, o poder. Depois de derrubarem o último sultão Aiubida – al-Mou’zzam Touran Chah – formaram uma oligarquia militar que governou o Egipto até 1517, quando o país do Nilo foi conquistado pelos otomanos.
Os mamelucos Baritas governaram até 1382. Foram eles que travaram o avanço mongol para ocidente: “D’une manière paradoxale, c’est le Egypte, gouvernée par des semi-barbares importes dês marches d’esclaves de la Mer Noire, qui est maintenant le refuge dés espoirs, le centre de civilisation pour tous les pays árabes”14. Garantiram ilusória e efemeramente um Império que abarcasse todos os árabes – garantiram a sobrevivência da ficção califiana, pois deram asilo aos descendentes do califa abássida após a conquista de Bagdad pelos mongóis.
Os mamelucos Burgitas governaram até 1517. Este período foi menos notável. Novos factores empurravam os mamelucos para o fim: exército obsoleto; pressão otomana; portugueses no Índico e declínio da rota do Mar Vermelho.
Em 1487 “o sultão do Cairo (…) era então Qayt-Bey, Chamado também Melik-el-Achraf (rei muito nobre). Reinava havia vinte annos (…) o Egypto achava-se em relativo socego e prosperidade.”15. Era esta a situação quando P. da Covilhã esteve no Egipto.
Após alguns contratempos (doença e desaparecimento da mercadoria de mel), os dois viajantes saíram do Cairo, provavelmente “...pelo mez de abril a maio do anno de 1488.”16. Estiveram cerca de nove meses no Egipto.
Na companhia de um grupo de mercadores magrebinos partiram do Cairo em direcção ao Mar Vermelho. Embarcaram em Tor para Adém, um percurso que não demoraria menos de dois meses17. A viagem no Mar Vermelho era muito demorada. Por causa dos baixios e dos recifes só se podia viajar de dia. Ainda antes de chegarem ao extremo sudoeste da Península Arábica, fizeram uma pequena escala em Suakim, na actual costa sudanesa – P. da Covilhã nunca estivera tão perto da Abíssinia.

2) Adém
A pequena distância que separa Adém do estreito de Bab-al-Mandab e as suas boas condições naturais, tornaram-no desde a Antiguidade um porto comercial e marítimo bastante importante. O primeiro europeu a ter conhecimento da importância de Adém foi Marco Polo em 1295. No século XIV, Ibn-al-Wardi e Ibn Khaldum referem-se situação estratégica deste porto no comércio Índico – Mar Vermelho – Mediterrâneo.
Entre 1229 e 1454, o Iémen, do qual a cidade de Adém faz parte, foi governado pela dinastia sunita dos Rassulidas, sucessora dos Aiubidas egípcios. Durante este período foi encorajado o comércio com o restante mundo islâmico e também com o extremo Oriente. Os séculos XIII-XIV- inícios XV foram de prosperidade no Iémen, graças, em parte, ao dinamismo da cidade portuária de Adém. Desde 1442 até à conquista otomana de 1517, o período foi de anarquia. Aos Rassoulidas sucedeu uma outra dinastia sunita de menor importância, os Tahiridas.
Em 1488, Adém era um pequeno potentado muçulmano autónomo, com graves conflitos em seu redor. O declínio definitivo aconteceu com o desvio do tráfico no Índico pelos portugueses após 1498.
Em Adém, P. da Covilhã e Afonso de Paiva separaram-se. O primeiro partiu para a Índia, o segundo para a Abissínia.

3) Índia
A conquista muçulmana da Índia começou verdadeiramente a partir de 1175. Todavia, a norte – Sind (na bacia inferior do rio Indo, conquistada em 712), Cabul (no actual Afeganistão) e o Punjab – a conquista islâmica foi bastante anterior. A expansão islâmica foi contínua e gradual até 1340, momento do começo da contracção que durou até 1556, com Akbar, o maior soberano do Império Mohgol. Como apontamento, devemos salientar que este Império Mohgol, fundado por Babur, na Índia (1526/1858) é juntamente com mais dois – o Otomano (1300/1918), na Ásia Menor, e o Sefévida (1501/1736), na Pérsia – consequência da decadência do Império de Genghis Khan e, depois, de Tamerlão. Portanto, estes três Impérios – o Mohgol, o Otomano e o Sefévida (estes entram em ruptura com o restante mundo muçulmano, pois são xiitas) – vão ocupar o espaço, anteriormente ocupado por Tamerlão e, efemeramente, pelos seus sucessores, os Timúridas. Estes três Impérios que marcaram a passagem da Idade Média para a Idade Moderna no mundo islâmico, foram a consequência lógica do processo de construção e expansão da civilização islâmica. Dentro do enorme território muçulmano, só a África ocidental (incluindo Marrocos, que teve um desenvolvimento autónomo sobre os Marinidas e os Sa’adidas) e o sudeste asiático ficaram de fora da alçada destes três Impérios.
A ocupação muçulmana da Índia deveu-se, essencialmente, a contínuas vagas migratórias de povos da Ásia Central: turcos, afegãos, mongóis18, devidamente islamizados. O primeiro passo para a penetração do Islão na Índia profunda foi a fundação do Sultanato de Deli. As campanhas de Muhammad de Ghur (Ghur era um pequeno principado junto a Herat, no Afeganistão) entre 1175 e 1206 e, particularmente, as vitórias nas batalhas de Taraori (1192) e Chandawar (1194), foram indispensáveis para a conjugação desses dois elementos. O Sultanato de Deli tornou-se, debaixo de diversas dinastias, o principal Estado do norte da Índia.
Como consequências desse poder surgiram as incursões muçulmanas ao sul do sub-continente, nomeadamente ao Decão, e a respectiva resistência Hindu ao Islão. Essa resistência foi promovida sobre a forma de Estados coesos – Orissa, Pandya e Vijayanagar – esta última, que em sânscrito significa “Cidade da Vitória” e na designação portuguesa é conhecida como Bisnaga, foi fundada em 1336 e teve um papel notável como travão ao avanço islâmico em direcção ao sul, a partir de 1340. Este Estado Hindu desapareceu na sequência de uma campanha, organizada pelos reinos sucessores do poder Bahamanida, em 1565, na batalha de Talikota.
Pela mesma época, em 1347, surge uma alteração geo-política no mundo muçulmano. Com o sultão Muhammad ibn Tughluq, surgiram problemas internos, dando origem no sul ao reino muçulmano de Bahmani, formado por nobres descontentes e fundado por ‘Ala-ud-Din Bahman Shah. Atingiu o auge do seu poder entre 1466 e 1481. Entre 1490 e 1518 o sultanato de Bahamani dissolveu-se em cinco pequenos Estados: Golconda, Berar, Bijapur, Ahmadnagar e Bidar – os mesmos que em 1565 destruíram o reino de Vijayanagar, como vimos.
Assim, o Estado Hindu de Vijayanagar e o Estado Islâmico de Bahmani, na fronteira norte do primeiro, bem como outros pequenos potentados, marcavam a paisagem geo-política do sul da Índia. As guerras entre estes dois importantes Estados eram frequentes e devastadoras.
A nível cultural e religioso, o islamismo e o hinduísmo entraram quase sempre em choque – hoje ainda visível nos problemas hindu-paquistaneses. Contudo, as influências mutuas marcaram, também, as relações.

É nesta Índia, espartilhada pelos poderes muçulmanos e hindus no sul e com predominância islâmica no norte, que P. da Covilhã vai permanecer alguns meses, preparando a viagem de Vasco da Gama. Visitou três cidades importantes da costa ocidental da Índia: Cannanor, Calicut e Goa.
Cannanor era um porto comercial na costa do Malabar “...por onde se fazia parte do commercio para o rico reino interior de Bijayanagara, chamado pelos nossos de Narsinga19, e onde se encontravam já muitas especiarias...”20. Pouco tempo depois, P. da Covilhã partiu para Calicut.
Calicut era um pequeno Estado hindu. Os seus soberanos tinham o título de samorim. A sua grande prosperidade e riqueza era devida à sua excelente posição geográfica: “...terminus da navegação oriental, e o terminus da navegação occidental.”21. A colónia islâmica tinha uma grande importância no comércio. No início de 1489 partiu para Goa.
Situada mais a norte, Goa apresentava uma realidade diferente. Era uma cidade muçulmana incluída no reino Bahamani22. A sua importância comercial era crucial no comércio do Mar da Arábia. A partir daqui P. da Covilhã abandonou a Índia e viajou em direcção a Ormuz.

4) Ormuz
Esta cidade, situada numa ilha, na entrada do Golfo Pérsico existia “...havia já perto de dois seculos (...) era uma cidade commercial de primeira importancia, capital de um estado independente, onde reinava n’aquele Xawes ou Salgor...”23. Esta era a nova Ormuz, fundada no início do século XIII.
A velha Ormuz situava-se no continente e foi visitada em 1272 e 1293 por Marco Polo, abandonada no século XIII por motivos de segurança deu lugar a uma nova Ormuz, melhor apetrechada. De facto, esta nova Ormuz insular era um verdadeiro empório comercial, tal como Ibn Battuta a descreveu no século XIV. A sua prosperidade advinha do facto de geograficamente estar no cruzamento das principais rotas terrestres e marítimas do comércio oriental – por lá passavam os produtos para a Pérsia e a Síria – daí o interesse de P. da Covilhã em visitá-la. Em 1507, com Afonso de Albuquerque, Ormuz passaria a ser um protectorado português.
Geograficamente, Ormuz pertence à Pérsia (hoje Irão), contudo, manteve sempre alguma autonomia política, fossem as grandes potências próximas Timúridas, Sefévidas ou Portugueses.
De Ormuz, P. da Covilhã, provavelmente, viajou para Sofala, situada no Canal de Moçambique, entre a costa africana e Madagáscar. Na Verdadeira Informação... existem algumas incongruências, pois o Padre Francisco Alvares, refere primeiramente que o viajante partiu de Ormuz para o Egipto24, para pouco depois referir que visitou Sofala25. Na versão de Ramusio, a referência a Sofala é mais concreta26. É, então, indispensável tentar interpretar o complexo panorama da África Oriental.

5) Sofala – a África Oriental muçulmana
A “colonização” islâmica da costa ocidental africana está intimamente ligada com a navegação comercial do oceano Índico. O sistema de ventos provocado pelas monções tornam a navegação do Índico bastante acessível, se compararmos, por exemplo, com o Atlântico. Esses ventos empurram, de Verão, as embarcações na direcção da Arábia e da Índia, no Inverno, em direcção a África. Estes ventos funcionam de forma regular até, pelo menos, à entrada do Canal de Moçambique.
Estas águas eram já sulcadas desde o Egipto helenístico e, depois, pelos sassânidas. No século VII, os árabes começaram a dominar a navegação e o comércio oceânico. Como consequência começaram a instalar-se em povoações ao longo da costa. Essa ocupação, inicialmente temporária, começou a estabilizar-se em cidades ao longo do século IX e X, que cresceram, transformando-se em urbes de relativa grandeza ao longo do século XII e XIII – Zeila, Mogadíscio, Zanzibar, Quíloa...
No decorrer do século XIII, o comércio na costa sul (actual Quénia e Tanzânia) tornou-se mais lucrativo do que no norte (actual Somália). No século XIII e XIV, Quíloa era a mais rica e bela das cidades comerciais muçulmanas da costa oriental africana, isto segundo as palavras do incansável viajante trezentista Ibn Battuta. Este povoamento urbano árabe criou uma rede de ocupação bastante coesa no Sahil27, contribuindo para uma profunda aculturação dos Bantos do interior. Esta sociedade árabe-suaíli permitiu o aceso a produtos do interior do continente, tais como o ouro (do Zimbabué), o marfim e os escravos negros. Estas mercadorias mais abundantes no sul, convenceram os mercadores a navegar nas difíceis águas do Canal de Moçambique. Neste momento surge Sofala, fundada ou conquistada pelos muçulmanos no fim do século XII. À medida que o comércio no sul ia ganhando importância, também Sofala, dada a sua proximidade do Zambeze e das fontes auríferas, se ia tornando uma cidade de aportagem inevitável.
Portanto, foi este rico comércio levado a cabo por cidades-estado mercantis muçulmanas que levaram, entre fins de 1489 e inícios de 1490, P. da Covilhã a Sofala. Esta viagem de reconhecimento – parou certamente em outras povoações árabes mais a norte – deu informações preciosas à armada de Vasco da Gama em 1498 (que não parou em Sofala), e culminou com a conquista portuguesa de Sofala em 1505.

6) Regresso ao Cairo
A viagem até ao Egipto fez-se sem problemas. As surpresas estavam reservadas para mais tarde. Aqui soube da morte de Afonso de Paiva (nunca se saberá se chegou ou não à Abíssinia) e encontrou-se com dois judeus portugueses enviados por João II. Enviou uma carta a João II e recebeu, então, mais duas missões: a primeira era mostrar Ormuz ao rabi Abraham28, a segunda era concluir missão de A. de Paiva, isto é, encontrar o Preste João – o soberano da Abíssinia cristã.

A segunda viagem a Ormuz: foi uma repetição da primeira viagem. Permaneceu lá algum tempo, acabando por se separar do rabi Abraham – seguiu para Portugal por terra até à Síria. P. da Covilhã encetou a sua viagem até à Arábia29.
13 Mamlouk: “possuído”; “escravo branco”. Outro termo para designar escravo é abd: mas, o sentido é bastante diferente – negros destinados ao exército.
14 Histoire Générale des…
15 FICALHO, pp 81
16 FICALHO, pp 84
17 FICALHO, pp 83
18 HEERS, pp 363
19 governador de uma província de Vijayanagar, que tomou o poder entre 1485-1490. Abriu novos portos na costa oeste.
20 FICALHO, pp 87
21 FICALHO, pp 89
22 FICALHO refere o estado de instabilidade interna do reino de “Deckan, sob a dinastia independente de Bahmany.”, pp 93.
23 FICALHO, pp 96
24 “...e foi a Ormuz e tornou ao Toro e ao Cairo em busca do seu companheiro....”, Cap. CIV
25 “...vindo demandar a costa de Sofala em que ele também fora ou uma grande ilha a que os mouros chamavam ilha da Lua.”, Cap. CIV. Ver também CASTANHEDA – Livro I, cap. I, pp. 9: “... foy ter a Cananor, & dahi a Calicut, q vio q era naqle tempo a principal efcala da cofta da India, & dahi foy ver a ilha de Goa. & foy a çofala & á ilha que agora chamam de sam Loureço q os mouros chamauão da lua, & defpois á Dormuz.”
26 “...con una nave se ne vene verso il mar Rosso, e montó á Zeila (...) tanto andó che giunse fin al luogo di Cefala.”. A referência a Zeila é importante, visto que é a principal porta de entrada na Abíssinia – esta paragem talvez se deve-se ao desejo de P. da Covilhã ter notícias de A. de Paiva.
27 Sahil – litoral, praia. SABBAGH, A. N.; Dicionário árabe-português-árabe; Rio de Janeiro. Este vocábulo dá origem à palavra Suaíli (povo da costa). A língua Suaíli, apesar de banto, tem milhares de vocábulos arábicos. Hoje é falada na Tanzânia e compreendida desde a Somália até Moçambique e do litoral até ao Alto Congo.
28 “E mandado este recado a El-Rei pelo judeu de Lamego, se fora o Pêro da Covilhã com o outro judeu de Beja até Adem, e dai a Ormuz, e o deixou aí...”. Verdadeira Informação...
29 “...e daí tornou-se e veio ver Judá, e Meca, e Medina (...) e daí a Monte Sinai...”. Verdadeira Informação..., Cap. CIV

segunda-feira, maio 02, 2005

O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte II

Viagens ao Magreb
Entre esta missão de espionagem e a grande viagem à Índia, P. da Covilhã empreendeu duas curtas viagens à Berbéria. Era a sua primeira estadia no “Ocidente do Oriente”. As viagens a Tlemcen e ao “reino da Enxouvia” – nome que as crónicas portuguesas dão ao território dos berberes Chauia (pastores), a norte de Azamor8. Antes de analisarmos as viagens propriamente ditas, vamos tentar decifrar a confusa História magrebina do século XV e a presença portuguesa no Norte de África.

O Magreb entre os séculos XI e XV, teve um percurso histórico independente do restante mundo muçulmano. Até ao século XIII existiu uma união magrebina e hispânica, cimentada por duas dinastias berberes, intimamente relacionadas com a resistência à ofensiva cristã Ibérica da Reconquista. De facto, os Almorávidas (1053-1147) e os Almóadas (1130-1276) – estes últimos submeteram os primeiros pela força – fizeram reviver o sunismo e a força muçulmana no Magreb e na Hispânia graças a um profundo puritanismo e unitarismo religioso, baseado na Jihad. A estes Impérios Universais sucederam três reinos: o Marinida, em Fez, o Zianida ou Abdeluádida, de Tlemcen – estes dois fundados por um dos mais importantes grupos berberes, os Zenatas – e o Hafécida, em Tunes – representantes da continuação do poder Almóada9.
No século XV estes reinos enfrentavam três problemas que levaram ao seu desaparecimento: as incursões e consequente ocupação de importantes pontos estratégicos, por parte dos Estados Ibéricos na costa Norte Africana, começando tudo com a conquista portuguesa de Ceuta; o avanço imparável das forças otomanas em direcção ao Ocidente, quer em direcção ao leste europeu, quer ao Magreb (em 1575 já tinham conquistado Argel, só Marrocos escapou ao domínio otomano); as próprias querelas intestinas dentro dos próprios reinos e as guerras levadas a cabo entre eles. Qual era, então, a situação política nesses reinos aquando das viagens de P. da Covilhã?
Em meados da década de 80, os reinos do Magreb estavam em progressiva decadência. A analise vai incidir principalmente sobre o reino Zianida e o Marinida, respectivamente, dado que foi nesses territórios que P. da Covilhã esteve.
Ao abrir o século XV, o reino Hafécida de Tunes era a maior potência do Magreb: fortaleceu-se internamente, pois acabou com os principados independentes (Tripoli, Gafsa...); recebia tributos doutros Estados muçulmanos; mantinha relações comerciais com potências cristãs, apesar da pirataria mútua; tinha grandes áreas de terra fértil e o maior backgroud em sistemas de organização política. Mas, nunca teve uma organização militar da envergadura do reino Marinida. Estes factos reflectiram-se no equilíbrio político magrebino.
Na época da viagem, o Estado Zianida mantinha relações de vassalagem para com os Hafésidas (como já tivera com os Marinidas) desde 1424, quando o sultão Abu Faris atacou Tlemcen. Essa vassalagem foi confirmada pelas expedições de Abu ‘Amr ‘Uthman, dirigidas contra Tlemcen, nos anos de 1462 e 1466. Contudo, apesar de dominado, o reino Zianida e a sua capital mantinham-se teoricamente independentes. Tlemcen, aquando da estadia de P. da Covilhã, era uma cidade pitoresca, com uma vida religioso-cultural e comercial activa – “...rodeada de jardins e pomares regados (...) por mil fontes, possuindo magníficos palácios, mesquitas e escolas afamadas (...) havia um comércio florescente e uma indústria activa.”10.
O viajante foi a Tlemcen “...comprar alambéis e fazer pazes com El-Rei de Tremezém...”11. O primeiro função era compreensível, visto que Tlemcen era famosa pelos seus alambéis12. Quanto ao objectivo de fazer as pazes, a analise já não é tão clara, por vários factores: entre Portugal e Tlemcen não havia guerra e o reino Zianida estava fora da esfera de influência lusitana. Portanto, as únicas explicações possíveis são o desejo de contactos diplomáticos entre os dois Estados, no sentido de Portugal garantir a neutralidade destes em relação às pretensões lusas no Reino Marinida vizinho e, também, de controlar as operações castelhanas naquela área13, que pouco depois, estes últimos haveriam, efectivamente, de dominar.

O Magrib al-Aqsa (Ocidente extremo), é denominado nas fontes cristãs por Berbéria ou por Reino de Belamarim – corruptela de Banu Marin, nome da família que fundou a dinastia Marinida (1258-1465), e que sobreviveu até ao advento da dinastia Sa‘adiana dos Xerifes de Marraquexe, apesar da sua decadência se iniciar em meados do século XIV.
Em 1358, Abou Inan é assassinado e começa a desagregação do Império – no reinado anterior, a influencia Marinida alastrara-se até ao reino Zianida, a Granada e às rotas caravaneiras – e o enfraquecimento do poder central. Os sultões passariam a ser joguetes nas mãos de vizires. Um marco importante na História marroquina é a rebelião de al-Mu’tamid em Marraquexe, com o apoio dos Hintata do Alto Atlas, pois começa uma tradição independentista nesta cidade do Sul, culminado nos Sa‘adidas, que em 1554 conquistam Fez.
O canto do cisne do poder Marinida foi o reinado de Abu Faris ‘Abdul-‘Aziz (1366-1372), durante o qual algum do poder foi restaurado, embora efemeramente. Os sultões sucessores voltariam a ser fantoches de diferentes interesses, nomeadamente da dinastia Nazarí de Granada, com Muhammad V – a conquista cristã de Ceuta acaba com essa influência.
Com o assassínio do Marinida Abu Sa‘id (1420), começa a chamada regência Oatácida. Esta durou até 1457, quando ‘Abdul-Haqq repôs os Marinidas no poder. Uma reforma fiscal levada a cabo por este último Marinida, foi o pretexto para a Revolução Idrissida. Fez, durante 6 anos, foi governada pelo sharif al-Juti.
Em 1472, Muhammad al-Shaikh fundou a dinastia Oatácida – sucessores dos Marinidas – (em 1420, foram apenas regentes). Este Sultão governou até 1505.
Estas transformações políticas foram agravadas por lutas étnicas e sociais entre berberes e árabes – estes últimos acabam por vencer, integrando o governo e ocupando as melhores terras. Os berberes Zenatas não arabizados resistirão no Rift e em algumas zonas do Atlas. A partir dessa resistência berbere vão ter origem as zaouia e os marabutos, elementos religiosos que vão apelar à Jihad contra a presença portuguesa.
Vemos, então, que o inicio da expansão portuguesa no Magreb atlântico coincide com a decadência da dinastia Marinida, prosseguindo durante o período Idrissida e a dinastia Oatácida. Esta desagregação e instabilidade facilitou a conquista portuguesa das praças marroquinas. Quando P. da Covilhã fez a sua segunda visita à Berbéria, Portugal dominava Ceuta (1415), Alcácer Ceguer (1458), Arzila (1471), Larache (1471), Tânger (1471) e Safim (1480). O reino de Fez (o nome Marrocos só surge com os Sa‘adidas) era, como vimos, governado por Muhammad al-Shaikh (o Muleixeque das crónicas portuguesas).
Esta demorada introdução à evolução política do Magrib al-Aqsa, permite-nos analisar com maiores certezas a missão de P. da Covilhã.
“...fora mandado à Berberia Moli Belagegi, o que mandou a ossada do Infante D. Fernando (...) para lhe lá comprar cavalos...” Esta passagem da Verdadeira Informação revela-nos alguns pontos importantes: P. Covilhã não fora enviado a Muhammad al-Shaikh, mas sim ao, segundo as crónicas cristãs, rei da Enxouvia, com quem já tinham sido mantidos contactos. A compra pode ser pretexto ou um objectivo paralelo.
Este rei da Enxouvia seria um vassalo poderoso do rei de Fez – factor sintomático da desagregação do poder Oatácida. O encontro teria decorrido próximo de Azamor. A verdade é que pouco depois Azamor se colocaria debaixo da suserania e protecção portuguesa, muito à semelhança do que havia acontecido com Arzila em 1471. Seria ainda o efeito da trégua de 20 anos, assinada em 1471, por Afonso V e Muhammad al-Shaikh? A verdade é que este último em troca de algumas praças conseguiu diminuir a pressão portuguesa, ganhando com isso um reino.
Não se sabe se este sucesso em Azamor foi devido à intervenção de P. da Covilhã. Mas, pelo menos, estas curtas estadias no Magreb serviram para o viajante se acercar dos problemas muçulmanos e para se aperfeiçoar ainda mais na língua e nos costumes. A grande viagem estava prestes a começar.
8 FICALHO, pp. 52
9 ABUN-NASR, pp 8 e 120
10 FICALHO, pp. 49
11 “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV
12 “Alambel – Pano de cores para cobrir mesas, bancos, etc. (...) do árabe al-hanbal ?” (Dicionário de português – Porto Editora).
13 CORTESÃO, Jaime não concorda com esta hipótese.

quarta-feira, abril 20, 2005

O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte I

Sumário: as viagens de Pêro da Covilhã – cuja principal fonte da época é a Verdadeira Informação da Terra do Preste João das Índias, escrita pelo Padre Francisco Álvares, que ouviu as palavras de Pêro da Covilhã na Abíssinia – passaram inevitavelmente pela civilização islâmica. O mundo muçulmano atravessava longitudinalmente o Velho Mundo desde Granada até aos reinos islâmicos da Índia, portanto, grande parte dessas viagens foi feita em territórios islamizados. Essas viagens foram compostas por oito etapas[1], das quais só a segunda não é abrangida pelo âmbito deste trabalho:

1) 1467 a 1474: primeira permanência em Castela, em Sevilha ;
2) 1476 a 1477: viagem à França e Borgonha;
3) 1483 a 1484: segunda permanência em Castela;
4) 1485 a 1486: viagens ao Magreb: a Tlemcen e, depois, ao reino de Fez;
5) 1487 a 1491: viagem à Índia:
Santarém – Lisboa – Valência – Barcelona – Nápoles – Rodes – Alexandria – Cairo – Suez – Tôr – Suakim – Adém – Cannanore – Calecut – Goa – Ormuz – Sofala – Adém – Suez – Cairo;
6) 1491: segunda viagem a Ormuz;
7) 1492: viagem pela península arábica:
Ormuz – Jiddah – Meca – Medina – Sinai;
8) 1493: entrada na Abíssinia por Zeila – permaneceu lá até à sua morte, possivelmente em finais da década de 20 de Quinhentos.

Temos, assim, sete momentos que atravessam uma boa parte da segunda metade do século XV e inícios do século XVI (845 até 907 da Hégira, aproximadamente). Através desses relatos das viagens de Pêro da Covilhã, temos a possibilidade de percorrer o mundo muçulmano desde o Sul da Península Ibérica – apesar da Reconquista cristã os 800 anos de presença árabe deixaram marcas perenes e irreversíveis – até à distante Índia islâmica, passando pelo Magreb, Egipto mameluco e Arábia, subindo e descendo o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico até tudo culminar na Abíssinia – enclave cristão em guerra permanente com os reinos muçulmanos que a rodeavam.
Em suma, vamos poder analisar todo esse grande hemisfério islâmico sob vários pontos de vista, num momento em que Portugal se preparava para entrar no oceano Indico a partir da rota do Cabo, gerando-se, assim, antagonismos entre cristãos e muçulmanos, à semelhança do que vinha acontecendo na Ibéria e no Magreb, aqui principalmente após 1415.

A Juventude Andaluza
Com aproximadamente 20 anos, Pêro da Covilhã, beirão de família humilde, foi para Castela colocar-se ao serviço do primeiro duque de Medina Sidonia, passando, então a viver na cidade de Sevilha2. Assim, durante cerca de 7 anos, “serviu” o Duque João Afonso e mais tarde o seu filho o Duque Henrique de Gusmão.
Analisaremos esta etapa segundo duas perspectivas: a situação política e a tradição cultural islâmica.

A estadia de Pêro da Covilhã em Sevilha verificou-se desde meados do reinado de Henrique IV de Castela até ao início da guerra Luso-Castelhana (1475-80), provocada pelos problemas na sucessão ao trono castelhano. O processo culminou com a coroação de Isabel, a Católica. Henrique IV durante o seu reinado não conseguiu acabar ou atenuar a supremacia da nobreza em Castela. A política sevilhana desta época é um exemplo paradigmático do enfraquecimento do poder real em favor de uma nobreza cada vez mais forte e impune. A cidade andaluza estava dividida em duas facções rivais. Uma delas era o grupo do Duque de Medina Sidonia, o outro era o grupo do Conde dos Arcos, e mais tarde Marquês de Cádiz. Estas rivalidades desencadearam algumas verdadeiras batalhas, tudo na mais perfeita impunidade. Esta era a conjuntura política que P. da Covilhã encontrou em Castela, nomeadamente em Sevilha.

“Durante el reinado de Enrique IV (1454-1474) la morofilia invadió los medios cortesanos...”3 De facto, alguns elementos da cultura e tradição islâmica estavam latentes na vida e cultura castelhanas, principalmente no sul dada a recente Reconquista. Sevilha era um caso premente nesse aspecto, como veremos adiante.
Castro4 enumera alguns desses elementos usados na vida quotidiana e cultural castelhana, como na portuguesa ou catalã, reveladores de uma importante islamização: os arabismos na línguas ibéricas; os banhos públicos; os lenços sobre as cabeças femininas; as formas de expressão corteses ritualizadas, como por exemplo, “ésta es su casa” (“Al-bayt baytak) ou o “¡Venga usted a comer!) ou mesmo “si quiere Dios”, o ibérico ojalá/oxalá (wa sa’a-l-lah); os temas mouriscos na poesia castelhana medieval; a islamofília dos cortesãos castelhanos (mencionado acima) que ia desde a moda à forma de cavalgar à gineta.
A Sevilha que P. da Covilhã encontrou transpirava tradição islâmica. Reconquistada apenas em 1248 e demasiado perto das influências granadinas e magrebinas, Sevilha era quase demasiado muçulmana para ser castelhana.
Aqui o viajante entrou em contacto com a língua e o modus vivendi muçulmano, algo indispensável para as missões futuras.

No séquito de Afonso V de Portugal
A morte de Henrique IV (1474) despoletou uma crise sucessória entre a sua irmã Isabel e a sua esposa Joana. Esta última era também irmã de Afonso V, daí a activa participação do rei português nessa crise, levando à guerra entre os dois reinos. Foram estas as vicissitudes que em parte levaram P. da Covilhã a regressar a Portugal e a integrar-se no núcleo de servidores do rei “...na qualidade de moço de esporas, mas sendo logo accrescentado a escudeiro, servindo de armas e cavallo.”5. Em 1476, a batalha de Toro, em território castelhano, foi desfavorável às tropas lusitanas. Daí a necessidade urgente de apoio internacional, logo a consequente viagem à França e à Borgonha, que não surtiu efeito.
P. da Covilhã acompanhou de perto toda esta evolução, quer as incursões militares, quer a viagem diplomática.
Apesar dos esforços de Afonso V, Isabel e o seu marido Fernando, rei de Aragão, transformaram-se nos reis católicos, elevando Castela ou pouco depois a Espanha unificada ao estatuto de maior potência europeia. Portugal já não estava só na expansão ultramarina, pois a Espanha, no admirável ano de 1492, conquistou o reino Nazarí de Granada – o último bastião muçulmano na Península Ibérica e Colombo descobriu o continente, mais tarde denominado de americano. O Tratado de Tordesilhas (1494) confirmou o poder Ibérico no Velho e no Novo Mundo.
Após as experiências adquiridas na sua juventude, nomeadamente o contacto com os costumes e a língua árabe, P. da Covilhã estava preparado para passar à próxima etapa: o Magreb. Antes, porém, seria espião em Espanha.

Ao serviço de João II
“E falecido El-Rei D. Afonso, ficara com El-Rei D. João, seu filho, ao qual servira de escudeiro da guarda até às traições que El-Rei mandou andar em Castela porque sabia falar castelhano, para saber quais eram os fidalgos que se deitavam lá.”6. Um dos grandes projectos de João II era a criação de um Estado Moderno. Portanto, o primeiro passo era acabar com os poderes instituídos da velha nobreza que logo se mostraram disponíveis para lutar contra esses desejos régios. A luta intensificou-se. Fidalgos, como o Duque de Bragança, foram acusados de alta traição a favor dos reis católicos. Com o acentuar da perseguição régia, alguns nobres optaram pelo exílio em Castela. Todavia, para João II o perigo não acabara, bem pelo contrário, o grupo de exilados poderia formar um foco de conspirações junto de Castela. Eram, por isso, necessários agentes secretos que vigiassem e informassem Lisboa.
Assim, P. da Covilhã regressou, como foi dito a “...Castela porque sabia falar castelhano, para saber quais eram os fidalgos que se deitavam lá.”7. Este curto episódio de espionagem foi certamente aproveitado pelo viajante para aperfeiçoar a língua árabe e conhecer ainda melhor os costumes muçulmanos.
[1] As cronologias apontadas são meramente aproximativas, visto que na principal fonte utilizada “Verdadeira Informação...” os apontamentos a este nível são escassos.
2 “...e em sua mocidade se fora a Castela a viver com D. Afonso, duque de Sevilha...” Verdadeira Informação..., Capítulo CIV
3 CASTRO:1948, pp. 94
4 Ibidem, capítulo III
5 FICALHO, pp 37
6 “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV
7 “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV

segunda-feira, abril 11, 2005

Pensamento do dia: os Vizinhos

Tenho alguma inveja das relações de vizinhança que a minha mãe consegue estabelecer. Se caminhar cem metros ao longo da rua em que vive pára dez vezes, falando com velhos, adultos ou crianças… «Está melhor da perna dona Maria?» ou «Vais ver António, tudo correrá bem no trabalho!» ou «Ouve lá miúdo, nunca mais te vejo a jogar naquele Estádio…». A mulher é uma conversadora nata, jamais lhe faltou ou faltará tópico para encetar a amena cavaqueira! Posso contra-argumentar: «as mulheres são mais palradoras». Até posso concordar… Mas será que o meu bom tio é uma Roberta Close invertida? Que a maioria dos meus amigos são fêmeas escondidas? Isto parece-me demasiado misógino…
Após muito pensar cheguei à conclusão que o problema consiste em mim, sou portador do sindroma do elevador. Situação típica: acordo de bem com a vida, tomo o duche matinal e preparo-me para sair, comprar o jornal e lê-lo enquanto tomo um faustoso pequeno-almoço numa esplanada solarenga à beira-mar. Nada mais animador e estimulante. Contudo, chego ao elevador onde conversam animadamente duas vizinhas enquanto esperam pelo lento transporte. Aproximo-me, solto um vulgar «Bom dia!» e… cai um glaciar sobre o momento. Não tenho nada para dizer-lhes! Que poderei conversar com duas pessoas sem nome, cujo único ponto em comum comigo é viverem ao lado, em cima ou em baixo do sitio onde moro? Do tempo? Do poio canino que calquei em plena escadaria? Dos berros do puto do terceiro andar? E se elas preferem a chuva, são donas do cão ou madrinhas do puto? Todas estas variáveis devem ser levadas em conta. Julgo, assim, que o silêncio é a melhor resposta.

quarta-feira, março 30, 2005

Pensamentos de um portista que já não quer ser portista

Estes labregos do Norte ainda não tomaram consciência do seu verdadeiro lugar no panorama futebolístico nacional… Um clube cujos adeptos são “emplastros” ou “macacos” e as adeptas têm a tendência de dar palmadinhas rítmicas na vagina em pleno berço da nacionalidade não merece respeito! Já apreciaram as festas futebolísticas naquela Baixa decadente e aparentemente recém bombardeada? Quando o Futebol Clube do Porto, para mal da Nação, vence um campeonato, aquela praça terceiro mundista parece a Quinta das Aberrações. «Só queremos ver o Puarto campeom, o Puarto campeom, o Porto campeom…». Deus, isto não existe… Essa pequena cidade tem o clube que merece… um clube regional que, a sul, não passa de Gulpilhares e que para lá da circunvalação é fortemente odiado por adeptos também encarnados. O Futebol Clube do Porto alguma vez teve um Eusébio? Já esteve em sete finais dos campeões europeus? Esse pequeno clube tem sessenta mil adeptos, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica tem seis milhões! Normal para um clube universal… O encarnado representa o ideal lusitano, a mentalidade portuguesa. O Futebol Clube do Porto é mais galego que português. A verdadeira Lusitânia é a sul do Rio Douro. Recuso-me a falar da conjuntura actual, porque ela é criada artificialmente pelo domínio do sistema por parte do senhor Pinto da Costa. O Abramovich dos favores e da corrupção! Não tenho provas, mas uso o senso comum… É normal um pequeno clube de província ganhar tudo sem recorrer a falcatruas? As instituições do futebol nacional e europeu estão nas mãos dos industriais do Norte. Ninguém sabe, todavia se pensarmos um pouco…
Para terminar… o Benfica tem toda a razão do mundo quando tenta impedir a horda tripeira de invadir a Capital! Acham que os romanos viram com bons olhos a entrada dos bárbaros visigóticos de Alarico na Cidade Eterna?! A História serve para nos ensinar a evitar os erros do passado…

sexta-feira, março 11, 2005

Cartago - Parte V

Parte V

Causas e desenvolvimento

A Terceira Guerra Púnica (149 / 146) foi curta, vistosa, mas de pouca importância, sem o heroísmo dos conflitos anteriores, digamos que foi desnecessária. Foi sem dúvida marcada e aí reside a sua importância, pela destruição total e definitiva de Cartago.
Apesar de todas as penalidades e impedimentos, Cartago recuperou economicamente, no meio do século II a.C. estava de novo florescente. Isto não cabia bem aos senadores, pois Roma tinha adquirido uma faixa de terra fértil em África, e muitos senadores haviam lá investido. Cartago comerciava os mesmos produtos e era-lhes realmente inata a capacidade de comerciar, muito melhor que a romana.
Assim, uma facção senatorial liderada por Cato, o velho agitava Roma contra Cartago – não gostavam do seu progresso económico, meio caminho para ambições mais altas. Mas, o mais importante, sem dúvida é que Cartago estava a prejudicar os interesses mercantis de Roma. Portanto, conduzidos por um homem conservador de grande reputação, cheio de virtudes romanas, Roma facilmente cedeu ao seu slogan “Carthago delenda est!”, que zumbia constantemente em Roma.
Roma precisava de um pretexto para atacar África e acalmar os senadores, nomeadamente Cato. Cartago era constantemente atacada pelas tribos vizinhas protegidas por Roma. Cartago não se atrevia a atravessar a fronteira imposta por Roma. Mas, os danos iam ficando cada vez mais graves – Cartago resolveu defender-se. Passou a fronteira e atacou os maus vizinhos. O tratado de 201 a.C. tinha sido violado.
Um descendente de Cipião, o africano, Scipio Aemilianus, típico da nova geração de políticos romanos – ambicioso, culto, bem educado – foi encarregue de atacar Cartago. Três anos após o início da guerra, decorridos de uma forma louca, podendo-se até falar de anti-semitismo romano, dadas as raízes púnicas, os cartagineses resistiam loucamente. Após a entrada dos romanos em Cartago houve ainda uma semana de guerra urbana.
No fim Cartago foi arrasada até aos alicerces, queimada, os habitantes escravizados e a terra de Cartago considerada maldita, ninguém podia mais viver lá, uma das lendas refere que a terra foi salgada para a tornar inabitável. Eis o peso de Aníbal.

Roma em 146 a.C.

As guerras da Macedónia deram a Roma uma nova província a Grécia, a conquista foi a melhor forma de combater os eternos conflitos gregos. Roma possuía o que tanto admirava. A guerra da Macedónia também acabou em 146 a.C., Roma podia lutar em múltiplas frentes sem problemas. Era um verdadeiro poder Imperial. Governava de uma ponta à outra do Mediterrâneo com estruturas elaboradas para uma cidade-estado, eram necessárias mudanças internas – era só esperar pouco mais de 100 anos.

quinta-feira, fevereiro 17, 2005

Confissões aos gatos-estátua

Habitamos nesta romã colossal.
Altíssimo Planeta espelhado
Que reflecte o seu cabelo dourado
E gatos-pedra saltando em espiral,

Ferindo de sombra o Levante estival.
É daí… Desse Oriental Potentado
Que vem…. Bendito o fausto sublimado
Onde nasceu, Terra rósea de coral...

Longos hossanas! Poética demência
Da busca por eternos olhos áureos:
Jornadas desérticas de inclemência,

Largas caravanas de claridade…
E no epílogo, felinos pétreos,
Finaremos num Tempo Sem Idade…

terça-feira, fevereiro 08, 2005

Cartago - Parte IV

Parte IV

“...é que vou escrever a mais memorável de todas as guerras que jamais se fizeram, a qual os cartagineses, comandados por Aníbal, sustentaram com o povo romano.” (Tito Lívio, XXI, 1).

De facto, a Segunda Guerra Púnica vai ter uma substancial em relação ao conflito anterior – o aparecimento de heróis, de homens que por si só fazem a guerra e a decidem, transformando-a numa autêntica epopeia. São homens como Aníbal e Cipião o africano, não Himílcone ou Régulo, que ocuparão doravante, tal como Alexandre Magno ou Napoleão, o imaginário da humanidade.

O prólogo hispânico

Na sequência dos acontecimentos anteriores, o general Amílcar Barca desembarca, em 237 a.C., com um considerável exército em Gades, sob o pretexto da exploração mineira para puder pagar a indemnização a Roma, esta foi a justificação dada ao Senado romano, mas o verdadeiro motivo era recuperar a hegemonia púnica na península. De facto, este envio de tropas e consequente movimentação parece significar uma quebra do domínio púnico na Hispânia durante o primeiro conflito, provocado talvez por movimentações de povos indo-europeus e por uma expansão da influência de Massalia (cidade grega perto da foz do Ródano), facilitadas pela guerra externa de Cartago. Antes de prosseguir convém salientar que esta ida de forças para a Hispânia em nada contraria as disposições do tratado de paz de 241 a.C..


NOTA:
Para estudar a Segunda Guerra Púnica, pelo menos, é imprescindível consultar a obra de Tito Lívio (Pádua 60 a.C. / 17 d.C.), Ab Urbe condita, isto apesar de o seu método historiográfico não usar do rigor científico e de propagandear descaradamente os valores romanos, nomeadamente os mais antigos. Uma história repleta de sentimento e parcialidade patriota e de apologia dos heróis. Por vezes o incorrecto uso das fontes – uma delas é Fábio, historiador contemporâneo da Segunda Guerra Púnica, que o próprio Tito Lívio menciona (T. L.,XXII, 7) – dá ao texto um sentido mais épico que histórico. É necessário ter em conta todos estes parâmetros quando o estamos a analisar.

Outra questão interessante é saber quando veio Aníbal para a Península Ibérica. Tanto Políbio como Tito Lívio referem que ele tinha nove anos e “...se obrigara a logo que pudesse ser inimigo do povo romano.” (Tito Lívio, XXI, 1). Na verdade os historiadores romanos, única forma que temos de conhecer estes acontecimentos, salientam a aventura ibérica de Cartago como o cumprimento metódico de um desejo de vingança por parte dos Barcas, de forma a justificar a atitude agressiva de Roma, fruto do seu imperialismo.
Não se sabe muito das movimentações de Amílcar, os historiadores greco-latinos quase não as mencionam, atribuem-lhe a recuperação da hegemonia púnica na Península (Políbio, II, 5). Sucede-lhe Asdrúbal e logo a seguir Aníbal, logo encetando uma política expansionista em direcção ao sul da Meseta central ibérica e ao interior até norte do Douro (território dos Vaceus).
Assim, Amílcar morre em campanha contra um dos povos indígenas, sendo substituído na governação da Hispânia cartaginesa pelo seu genro Asdrúbal que o fez durante oito anos (Tito Lívio, XXI, 2), “...uma administração activa e inteligente...” (Políbio, II, 13), baseada na diplomacia e não na guerra. Foi ele, o fundador de Nova Cartago, que acordou o tratado do Ebro em 226 a.C. – a colónia de Massalia, Emporion, receando a progressiva expansão cartaginesa, apelou, como aliada de Roma a sua intervenção, que resultou nesse tratado – consistindo no seguinte: “...interditando a Asdrúbal passar o Ebro com um exército...” (Políbio, II, 13) mas, também, “...que se conservasse a independência dos saguntinos, que ficavam entre as fronteiras do dois povos.” (Tito Lívio, XXI, 2), este acordo patenteia bem a tensão ainda existente entre as duas potências ocidentais. Asdrúbal é assassinado por vingança “...um bárbaro mata-o em público...” (Tito Lívio, XXI, 2), provavelmente um celta (Políbio, II).
Numa das deambulações de Aníbal de norte e sul do território, é provável que tenha fundado, para lá do Anas (Guadiana), perto de Portimão, uma localidade com o nome de Portus Hannibalis, entre os anos 221 / 218 a.C. (J. Alarcão). Assim a ocupação do actual sul do território português pelos cartagineses parece ser tardia, e sobre ela sabe-se muito pouco. De qualquer forma a ocupação da costa algarvia reflecte um incentivo à navegação atlântica (C. Fabião).Nada disto contraria o tratado do Ebro ou o de 241 a.C..
Tito Lívio enumera as inatas qualidades militares de Aníbal, mas também os seus defeitos: “...uma crueldade que ia para além da humana, uma perfídia mais que púnica, nenhuma sinceridade, nenhum respeito, nenhum temor aos deuses, nenhum valor ao juramento, nenhum sentimento religioso.” (Tito Lívio, XXI, 4). Esta era a propaganda romana, bem de acordo com a temática “liviana”. Mas, convém fazer aqui a apologia de Aníbal, deste herói púnico, um Hércules de resistência, um génio militar, desde a ciência logística à capacidade de envolver e destruir o adversário, da vocação diplomática à prodigiosa imaginação. É contra esta antítese que Roma vai lutar.
Entretanto, Sagunto, a sul do Ebro, na área de influência púnica, segundo o tratado de 226 a.C. pediu protecção a Roma, esta que procurava um pretexto para contrariar as vontades de Aníbal encontrou-o neste pedido. Apesar disso, as tropas hispano-púnicas declaram guerra aos saguntinos e cercam a cidade, pois “...já tudo para além do Ebro pertencia aos cartagineses, ao não ser os saguntinos.” (Tito Lívio, XXI, 5). Entretanto, estes últimos, enviaram uma embaixada a Roma, sendo cônsules P. C. Cipião e T. S. Longo, decidiu-se, entre hesitações, enviar uma embaixada para se reunir com Aníbal “...e dali a Cartago a exigir a entrega do próprio general, em reparação da violação do tratado, em caso de não se desistir do cerco.” (Tito Lívio, XXI, 6). Aníbal não os ouviu e o Senado cartaginês apoiou o Barca, com uma excepção, “...Ano foi o único que não obstante a oposição do Senado, advogou a causa da aliança...” (Tito Lívio, XXI, 10). Aníbal havia, após um longo cerco tomado Sagunto, ele e o seu experimentado e inovador exército mercenário sentiam-se aptos a atacar directamente Roma.
Vimos, então, qual a importância da Ibéria dicotómica na origem da Segunda Guerra Púnica. De facto, a península estava dividida. A sul e o oriente, a “civilização ibérica” de tradição orientalizante (semítica) e grega (Catalunha). E o mundo “indo-europeu de segunda vaga”, ocupando o restante território, conjunto de povos etnicamente uniformes, mas culturalmente diferentes (C. Fabião). Estes dois mundos talvez incentivados pelos povos do Mediterrâneo central e oriental, mais desenvolvidos, permutavam entre si, não só bens ou produtos, mas o mais importante: cultura e desenvolvimento.

218 / 201 a.C.

“...reanimados desde a destruição de uma cidade poderosíssima, atravessaram o Ebro; levavam consigo tantos povos dos hispânicos, obrigados a sair; e deviam ainda arrastar as nações gaulesas, sempre ansiosas por guerras: era como o mundo inteiro que se vinha a fazer à guerra na Itália e diante dos muros de Roma.” (Tito Lívio, XXI, 16).

Em Roma fez-se o sorteio, a Cipião calhou a Hispânia, apoiado em Massalia, a Longo a África e Sicília, apoiado no poderio naval. A guerra foi oficialmente declarada no Senado de Cartago por uma embaixada romana, que se dirigiu depois à Hispânia e à Gália em busca de alianças, sem sucesso. De referir um apontamento curioso, demonstrador das clivagens civilizacionais – o terror que sentem os romanos quando vêem os gauleses irem armados para a assembleia, isto é referido mais tarde por Tácito (De Germania) a propósito dos bárbaros germânicos. (Tito Lívio, XXI, 18, 19, 20).
Roma esperava uma vitória rápida, graças ao seu muito maior poderio naval que se vai manter ao longo de todo o conflito, influenciando, obviamente, o resultado final, tirará a Aníbal as hipóteses de retirar os dividendos das vitórias terrestres. Aníbal depois de precaver a defesa do seu principado militar (Combet-Farnoux) que era a Hispânia, “...destina o comando desta província a seu irmão Asdrúbal...” (Tito Lívio, XXI, 22), e de contactar com algumas tribos gauleses sempre hostis a Roma, enceta, como Pirro, um processo político-bélico, à maneira de Alexandre Magno, até Itália. A partir deste momento acompanharemos a saga de Aníbal, mas sempre com um pé na península Ibérica acompanhando a evolução do conflito de Asdrúbal com os Cipiões.

*

Em 218 / 217 a.C., os irmãos Cneio e depois Públio Cornélio Cipião desembarcaram em Emporium, o primeiro combate da guerra, entre Aníbal e C. C. Cipião, resultou numa derrota de fracas consequências para os púnicos, após esta vitória hispânica, os romanos aquartelaram-se em Tarraco. Esta primeira vinda de romanos para a península não tinha intuitos imperialistas, era apenas uma estratégia de ataque e defesa em relação a Aníbal.
O ataque directo do púnico a Itália fez os romanos alterarem a sua estratégia, adaptando-a mais à defesa da sua península em detrimento do ataque à dos Barcas. Em Maio de 218 a.C., 60000 homens saíam da Hispânia, ou segundo a versão “liviana”: “...caminha para o Ebro pela costa do mar (...) com 90000 homens de infantaria e 12000 de cavalaria...” (Tito Lívio, XXI, 22, 23). A marcha lenta explica-se pela luta travada com as tribos a norte do Ebro. Depois do rio, o próximo obstáculo geográfico eram os Pirenéus, onde o exército sofreu pesadas baixas.


*

Enquanto, as tropas púnicas marchavam em direcção ao Ródano, os gauleses cisalpinos desviavam a atenção romana para esta zona, esperando pela ajuda próxima de Aníbal, que chegou ao rio em Agosto. Entretanto, P. C. Cipião desembarcara em Massalia, queria destruir o cartaginês, que evitou esse choque; antes de chegarem a Itália. Esta tentativa romana saldou-se apenas por um pequeno recontro renhido e sangrento entre 500 cavaleiros númidas e 300 cavaleiros romanos (vencedores) – “...presságio da guerra, assim como prometia um resultado próspero no seu conjunto, assim prognosticou que a vitória não seria sem muito sangue e de fortuna vária.” (Tito Lívio, XXI, 29) – depois do Ródano. Assim, os invasores atrasaram-se e perderam a hipótese de cruzarem os Alpes em boa época.
Antes, porém, haviam acampado nas margens do Ródano, “Ele assegura por todos os meios a amizade das populações ribeirinhas, compra todos os seus barcos de uma só peça, assim como as suas canoas, que tinham em grande quantidade, pois fazem comércio marítimo.” (Políbio, III, 42). Estavam encurralados em pleno “...território dos Volcos...” (Tito Lívio, XXI, 26) com gauleses na margem em frente à sua espera e uma legião em Massalia. Um destacamento atravessa “...o rio no maior segredo, envolver o exército, para num momento oportuno, atacar o inimigo pela retaguarda.” (Tito Lívio, XXI, 27),e com Aníbal a atacar pela frente, os gauleses “...escapam-se em desordem...” (Tito Lívio, XXI, 28). Políbio (III, 46) descreve o transporte dos elefantes.
Relataremos agora a lendária travessia dos Alpes. Ao mesmo tempo, P. C. Cipião chegava ao acampamento abandonado no Ródano e julgando-se incapaz de alcança-los devido ao seu grande atraso, retornou ao mar “...deste modo se encontraria mais segura e facilmente com Aníbal ao descer dos Alpes.” (Tito Lívio, XXI, 32). Nenhum dos autores antigos indica ao certo os corredores alpinos por onde eles passaram, provavelmente foi entre o colo de Petit-Saint-Bernard e do Mont-Genèvre (Combet-Farnoux). As impressionantes perdas do exército inter- étnico de Cartago (apenas 26000 homens quando chegaram à planície do Pó), deveram-se aos primeiros nevões e aos ataques das tribos montanhesas. Esta travessia, não tão sobre-humana como é lendariamente reconhecida, está descrita em Políbio (III, 50 a 56).
Após cinco meses de marcha (Maio / Outubro de 218 a.C.), Aníbal chega a Itália – “...está na planície, não sem ter perdido durante essa longa marcha, seja sob os golpes dos inimigos, seja sobre as águas dos rios, seja derivada aos precipícios e ravinas dos Alpes, um grande número de soldados e mais ainda de cavalos e animais de carga. Enfim, depois de cinco meses para chegar de Nova Cartago, quinze dias para atravessar os Alpes, ele entra nas planícies cisalpinas...” (Políbio, III, 56).

*
Roma perdeu o ímpeto ofensivo que caracterizou a sua pronta intervenção na Hispânia antes do início da marcha, agora a prioridade é a defesa da Itália. Os próximos seis ou sete anos de guerra serão de sucessivas vitórias púnicas, ao auge do seu poderio, cerca de 212 a.C., acontecerá uma progressiva e lenta quebra do rendimento do seu exército, por motivos que serão explanados adiante, até à derrota definitiva em 201 a.C., na batalha de Zama.
A primeira batalha na península itálica, com P. C. Cipião, foi a norte do rio Pó, no rio Tessino, em Dezembro de 218 a.C.. Antes da batalha, Tito Lívio põe os antagonistas a fazerem discursos e refere o terror dos romanos face aos maus presságios: “...tinha entrado um lobo no acampamento (...) que saiu incólume (...); um enxame de abelhas tinha pousado numa árvore sobre a tenda do general.” (Tito Lívio, XXI, 46), este apontamento, entre outros, confirma o que se disse acima (página 8) sobre as características da obra deste autor. Os cartagineses venceram, “...superior em cavalaria e por isso os campos descobertos, como são os que ficam entre o Pó e os Alpes, não convinham aos romanos para fazer a guerra.” (Tito Lívio, XXI, 47). De registar o acto heróico de um dos filhos de P. C. Cipião, salvou o pai depois de este ter sido ferido, “Era este o jovem nas mãos de quem está a glória de ter terminado esta mesma guerra, chamado o Africano por causa da brilhante vitória sobre Aníbal e os cartagineses.” (Tito Lívio, XXI, 46) – era o nascimento do glorioso herói romano. O que resta do exército de Roma some durante a noite.
No mesmo mês teve lugar a segunda batalha itálica, agora a sul do Pó, junto do rio Trébia. “Aníbal chega perto dos seus inimigos depois de ter atravessado o Pó.” (Polibio, III, 66), também tomou pacificamente Clastídio, para resolver os problemas de víveres, pois o exército havia aumentado com a chegada de auxiliares gauleses. T. S. Longo estava na Sicília lutando contra os cartagineses, com as complicações na vale do Pó, saiu da Sicília, “...tendo partido com o seu exército para o rio Trébia, junta-se ao seu colega.” (Tito Lívio, XXI, 51), que, entretanto, fortificara a área. A astúcia púnica, atitude que compensou o défice numérico, resultou e os romanos foram derrotados. (Tito Lívio, XXI, 53 a 56; Políbio, III, 68 e 69). “Espalhou-se em Roma uma tal consternação com esta derrota, que já se suponha que o inimigo chegaria às portas de Roma para a pôr a saque...” (Tito Lívio, XXI, 57).
Durante meio ano, os púnicos deambulam entre o Pó e a zona a montante do rio Tibre, atacando cidades como Placência e Victúmulos e tendo recontros de menor importância com T. S. Longo. Nas vésperas da maior vitória púnica até então, Aníbal dominava a Gália Cisalpina e o seu objectivo era, agora, a Itália central. Prevendo esse desejo, os novos cônsules eleitos, C. S. Gémino e C. Flamínio, decidiram defender os acessos à Itália central, onde contavam com aliados mais fieis que os gauleses e com um terreno menos propício à cavalaria cartaginesa. Adivinhava-se um embate entre as tropas de Aníbal e de Flamínio, este novo cônsul, eleito pelo partido democrático, não gozava de muito reconhecimento, “...renovou-se o ódio contra C. Flamínio...” (Tito Lívio, XXII, 1).
Essa grande vitória teve lugar em 21 de Junho de 217 a.C., no lago Trasímeno, a 200 Km de Roma. Mais uma vez a astúcia de Aníbal deu excelentes resultados, “...já tinham chegado a um lugar próprio para uma cilada, onde o lago Trasímeno se aproxima mais dos montes de Cortona.”, acampa num descampado, “...oculta...” a infantaria ligeira e a cavalaria. Flamínio e as suas forças, “...sem ter explorado o terreno...”, dispõem-se para a batalha, sem saber “...da emboscada que estava na retaguarda e sobre a cabeça.”, a luta foi tão intensa que os combatentes nem sentiram um tremor de terra. O descalabro romano foi total, depois da seguinte acusação “Aqui está o que matou as nossas legiões...”, o cônsul C. Flamínio foi assassinado. Morreram 15000 romanos e 2500 mercenários púnicos. O horror que a notícia provocou em Roma, mais visível no comportamento das mulheres, aumentou com a perda de 4000 cavaleiros na Ombria face a Aníbal. Esta hecatombe de 217a.C., gerou uma crise política, obrigando a república a recorrer “...a um remédio que já à muito não era empregado nem desejado, a nomeação de um ditador...”, esse cargo coube a Q. Fábio Máximo. (Tito Lívio, XXII, 4 a 8).
Roma era já ali. Mas, na verdade, a cidade eterna era de difícil conquista, pois tinha uma forte “entourage” de colónias que a protegiam, estava bem fortificada (aos púnicos faltava material de cerco) e, apesar de terem sido destruídos o equivalente a dois exércitos consulares, restava ainda as forças da Hispânia e de C. S. Gémino “...receando já pelas muralhas da sua pátria, para não deixara cidade em tão grande perigo, tomou o caminho da cidade.” (Tito Lívio, XXII, 9). Por isso, o exército cartaginês optou por deambular pelo norte e centro, entre as costas tirrena e adriática da península em busca do mar e dos reforços que não chegavam – os romanos tentavam empurrá-los sempre para longe da sua cidade – a fim de afastar as populações da área da causa romana, mas uma das estratégias de Q. Fábio Máximo era fortalecer a coesão da confederação romana, dificultando os objectivos púnicos. A conjuntura (exposta no relatório) militar, política e até religiosa que se seguiu (Tito Lívio, XXII, 9 a 43) serviu de preparação para a grande batalha de Canas, notabilizada “...com a derrota dos romanos.” (Tito Lívio, XXII, 43).
Na Hispânia, os dois primeiros anos de guerra (Tito Lívio, XXI, 59 a 61; XXII, 19 a 23), não tão negativos para os romanos como na Itália, foram passados a tentar impedir o abastecimento de Aníbal pela retaguarda, visto que directamente por mar era impossível dada a superioridade naval de Roma e o facto de Aníbal não ter um porto em seu domínio, como veremos esta estratégia iria trazer ao exército cartaginês na Itália consequências negativas irrecuperáveis. Os Cipiões dominavam a costa desde a foz do Ródano até à foz do Ebro. Mais uma nota referente à cultura e mentalidades da época: depois de tomarem uma praça hispânica, saquearam-na, mas os seus bens eram pobres, “...mobílias toscas e escravos baratos...” (Tito Lívio, XXI, 60).

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Em Agosto de 216 a.C., junto da aldeia de Canas, teve lugar a maior derrota romana de toda a guerra, aquela pela qual Aníbal é ainda estudado nas academias militares. O relato da batalha (Tito Lívio, XXII, 44 a 50) e as consequências próximas (Tito Lívio, XXII, 50 a 61) é uma sucessão de catástrofes romanas, atingindo o auge do masoquismo aquando da contabilidade das perdas: “...morreram 45500 soldados de infantaria e uma porção aproximadamente igual de cidadãos e aliados (...) ficaram prisioneiros naquele combate 3000 soldados de infantaria e 1500 de cavalaria.” (Tito Lívio, XXII, 49). As contas actuais são mais contidas, cerca de 40000 soldados romanos e 6000 mercenários, maioritariamente gauleses, mortos e prisioneiros.
A batalha foi em terreno aberto, sem possibilidades de surpresas como no lago Trasímeno, a frente romana, bastante mais ampla, rodeou os cartagineses de uma tal forma que se chegou a pensar numa vitória de Roma, mas nos flancos a cavalaria púnica venceu a sua congénere oposta e, rodeou, por sua vez a infantaria romana viu-se encurralada entre a cavalaria e infantaria púnicas e dissolveu-se no caos. Este é um clássico exemplo da manobra de duplo envolvimento, forma de uma força inferior derrotar uma superior em terreno aberto. Ambos os cônsules morreram e Tito Lívio coloca na boca de um deles, L. Emílio, a prioridade que se seguia: “Vai, comunica oficialmente aos senadores, que fortifiquem a cidade de Roma e a reforcem de tropas antes do inimigo chegar (...) perseguiu-os (...) ao cônsul cobriram-no de dardos...” (XXII, 49).
A Aníbal restava fazer opções. Uma era atacar Roma – “...Maarbal, general de cavalaria, diz: (...) dentro de cinco dias banquetear-te-ás vencedor no Capitólio...” (Tito Lívio, XXII, 51) –, mas ele achou o seu exército incapaz de fazê-lo, optou, então, mais uma vez, agora com mais sucesso, chegar a si os aliados de Roma. Na sequência de Canas algumas cidades, entre as quais Cápua, a segunda cidade da Itália e um centro industrial, desertaram da aliança de Roma, “...o tempo dos campanienses chegou, não apenas de tomar posse dos territórios tirados pelos romanos injustamente, mas para se tornarem mestres de toda a Itália...” (Tito Lívio, XXIII, 6). Todavia não era suficiente, Aníbal sabia que enquanto a cidade inimiga tivesse um sistema de alianças a apoiá-la nunca conseguiria, apesar dos êxitos militares, derrotá-la.

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O aspecto mais visível em Roma de desespero, mas, também de esperança, foi o contínuo trabalho do Senado, Tito Lívio dá um exemplo desta dicotomia: depois de um discurso inflamado, apologia das virtudes romanas, em plena Cúria Hostília, a audiência “...levantou-se logo uma gritaria de lágrimas da multidão que estava no comício, e estendidas as mãos para o Senado, pedindo que lhes restituíssem os filhos...” (XXII, 59 e 60). Q. Fábio Máximo foi eleito cônsul e chefe do reduzido exército romano. Levou a cabo a sua estratégia de fatigar o adversário, apoiando-se nas cidades aliadas que não haviam desertado para o lado de Aníbal, protegendo-as de possíveis ataques. Aníbal dificilmente levaria a cabo um cerco, pois o seu exército estava também debilitado e receava, que a meio de tal, surgisse Q. Fábio Máximo. Assim, Aníbal estava encurralado, apesar da sua superioridade militar aparente, no meio da Itália, sem conquistar a Campânia, sem acesso ao mar e sem reforços de África ou de Hispânia. Pode-se concluir desta situação que os púnicos perderam a guerra devido ao facto de Roma não ter entrado em colapso após Canas.
No plano diplomático, Aníbal foi mais feliz. Fez um acordo com Filipe V, rei da Macedónia. “A luta entre os dois povos mais poderosos da Terra concentraram a atenção de todos os reis, mas principalmente de Filipe, rei da Macedónia, vizinho da Itália, só o mar Jónico os separava.” (Tito Lívio, XXIII,33). A permanência romana na Ilíria, a aliança com Apolónia ou Epidamnos que aconteceram, como vimos, no intervalo entre as guerras cartaginesas, não eram da simpatia de Filipe que queria expulsar de lá os romanos, dominando ele essa zona, com o apoio cartaginês, que suponha prováveis vencedores da guerra, em troca dava o apoio de tropas terrestres em solo italiano, desde que transportadas por barcos púnicos. Este pacto top secret foi descoberto por Roma, pois uma armada romana surpreendeu os embaixadores do outro lado do Adriático. O Senado, um dos principais responsáveis pela vitória final, rapidamente soube deste pacto e entrou logo em acção enviando para a Ilíria uma armada, impossibilitando o transporte das tropas. Mais uma vez a marinha romana mostrava a sua inequívoca superioridade.
Segundo J. Cousin (pág. 60), o comportamento dos antagonistas em termos marítimos foi bastante desequilibrado entre eles. Os romanos começaram a guerra com 240 barcos (20 massaliotas), entre 214 / 209 a.C., varia entre os 215 e os 235. Segundo os números dúbios dos autores antigos, construíram em 218 / 217 a.C. 60 navios, em 214 a.C. 100 e em 208 a.C. 20. A supremacia naval de Roma não permite a Cartago abastecer Aníbal, mas permite, por seu lado, enviar uma armada a Hispânia, à Ilíria e abastecer-se a ela própria, por outro lado, o exagero de frentes de combate não permite, apesar da hegemonia, uma total vigilância, assim, a defesa de Lilibeu, da Calábria, de Siracusa, Tarento, Brundísio, Sardenha, Ligúria (desembarque de Magão em 205 a.C.) fica debilitada; a ofensiva de Cipião, o africano a Útica em 203 a.C. é feita com forças reduzidas; a vigilância das Baleares e Cartagena é deficitária, pois a armada fica-se por Tarragona; os chefes militares no mar são os mesmos que em terra e efémeros. Mas, mesmo com estas anomalias romanas, Cartago não tem a força para constituir uma forte força naval, ou por causa da desmobilização do fim do conflito anterior, ou devido à política comercial na Hispânia, ou à difícil recruta de uma população nómada (causa do mercenarismo). Eis, no fundo, as causas de as vitórias terrestres de Aníbal não terem correspondido a uma vitória final.
Antes de regressar a Itália vejamos a situação na Hispânia. Os romanos comandados pelos Cipiões consolidaram a sua situação em África, entre 215 / 213 a.C., tomando Sagunto, Urso, Cástulo e conquistando posições na zona argentífera da Sierra Morena, “Em Roma, onde essa novidade foi anunciada pelas cartas dos Cipiões, comemorou-se menos a vitória que a impossibilidade de Asdrúbal chegar a Itália. (Tito Lívio, XXIII, 29). Em 212 a.C. os púnicos respondem com três exércitos, comandados, cada um, por Asdrúbal, Magão e Giscão. Em 211 a.C. os Cipiões são isolados e, traídos pelas forças indígenas, são derrotados e mortos, uma pequena parte da Hispânia romana é salva por L. Márcio (Tito Lívio, XXV). C. Fabião refere menções contraditórias em relação ao ocidente peninsular em Políbio (fragmento livro X) e em Tito Lívio (XXVI, 19), por motivos explanados no relatório só pode confirmar esta informação em Tito Lívio. Pelo que parece, Polibio refere que no Inverno de 210 a.C., Magão se instalou junto dos Cónios, o filho de Giscão, Asdrúbal na foz do Tejo e Asdrúbal Barca na Carpetânia, sul da Meseta Central – todos longe da área de combate, presença talvez devida a instabilidades regionais. Tito Lívio refere Magão a norte de Cástulo, Asdrúbal Barca perto de Sagunto (?? – era dominada pelos romanos) e Asdrúbal, filho de Giscão, perto de Gades. Pelos motivos já referidos Políbio é mais fiável. O actual território português não foi directamente atingido pelo esforço de guerra, mas parece ter havido uma ruptura nas relações com o sul.
Após a morte de Hierão II, o governo popular que lhe sucede abandona a aliança com Roma, como o fez pouco tempo antes Cápua, “...a aliança com Roma tinha sido rompida...” (Tito Lívio, XXIV, 6). Roma não conseguiu renovar a aliança, faz, então, um bloqueio a Siracusa, que Cartago tentou impedir com uma força expedicionária comandada por Himílcone e uma armada de 55 barcos sob a ordem de Bomílcar, chegaram a ocupar Agrigento, mas face à superioridade romana regressaram a África. As esperanças de Aníbal puder contar com a Sicília terminaram.
De regresso a Itália. No Inverno de 212 / 213 a.C., Tarento, o maior porto da península, abre as portas aos púnicos, que ficam mesmo assim sem acesso ao mar, pois na cidadela ainda resiste a guarnição romana (Tito Lívio, XXV). Mas, toma outras cidades costeiras, como por exemplo Metaponto. Têm, finalmente, acesso ao mar, mas de pouco lhes serviria, pois, tirando a excepção de Locros em 215 a.C., nunca receberam reforços, e quando estiveram mais perto de receberem (Asdrúbal e Magão) foi via Alpes e não via Mediterrâneo. Em Tarento, sem apoio, pois as esquadras romanas, como vimos, estavam com excesso de trabalho (Ilíria, Hispânia, Sicília), cai a resistência, a armada púnica mexe-se sem problemas no sul da Itália. Umas segunda e terceira tentativas de Bomílcar socorrer Siracusa, não surtiram efeito e Siracusa cai em 212 a.C., após três anos de cerco, às mãos de C. Marcelo.
A presença de Roma em demasiadas frentes fragilizam-na, boa ocasião para reforçar Aníbal, apesar do seu papel medíocre na Sicília a armada púnica podia agora transportar as forças macedónias do irrequieto Filipe V. Mas os romanos prevendo essa situação fazem um acordo com a Etólia (Tito Lívio, XXVI), que entrou logo em guerra com a Macedónia, ajudada por uma frota romana de 25 barcos. Filipe V foi obrigado a concentrar as suas forças na luta grega, prejudicando as ambições de Aníbal. Bomilcar podia facilmente destruir os 25 barcos e transportar os reforços, mas faltava ao almirante espírito de ofensiva, contentando-se em bloquear Tarento.
Em 212 /211 a.C., Aníbal estava em dificuldades por falta de apoio, ocupado no sul, perdeu Cápua (Tito Lívio, XXVI) e foi obrigado a lutar apenas para preservar os terrenos conquistados. Mas, até a sul ia perdendo terrenos, em 209 a.C., Fábio Máximo ocupa, graças a uma traição, Tarento (Tito Lívio, XXVII). A tentativa desesperada de Aníbal recuperar Cápua patenteiam bem as suas dificuldades, sem possibilidades de cercar a cidade, dirige-se para Roma na esperança que os romanos o seguissem, debilitando a defesa de Cápua. A manobra de diversão não resultou e Aníbal fixa-se no Brútio até 203 a.C.. A forte esforço romano de recruta estava a dar resultados, disponha de 25 legiões, o equivalente a 200000 soldados.
Quando abandonamos a Hispânia, esta era dominada pelos púnicos, esta situação podia libertar tropas para reforçar Aníbal. Todavia, o Senado, desejoso de uma política mais activa, entregara em 210 a.C., o comando procônsular de Hispânia a P. C. Cipião de apenas 25 anos, filho do anterior chefe que morrera lutando Asdrúbal (Tito Lívio, XXVI). Os romanos perceberam que só vencendo aqui derrotariam de vez Aníbal. Cipião em 206 a.C. com a rendição de Gades expulsara para sempre os púnicos da Hispânia e afirmava o domínio romano. logo em 209 a.C., num golpe de mestre, conquistava Cartagena, pouco depois dominava a Sierra Morena, sustento da guerra. Em três anos de campanhas ciclónicas o levante e sul da Ibéria era romano. Asdrúbal após uma disputa com Cipião, em Bécula, no ano de 208 a.C., conseguiu esgueirar-se para norte com três exércitos e elefantes (Tito Lívio, XXVII). Apesar dos sucessos não foi evitado o principal perigo para Roma – a possível ajuda a Aníbal. Asdrúbal em 207 a.C. já está no norte da Itália, auxiliado por gauleses, o objectivo é juntar os exércitos dos dois irmãos. A inquietação em Roma é grande, os emissários púnicos são capturados e Roma fica a par de tudo. Dois exércitos cônsulares são organizados, cada um para um dos dois inimigos. Ao exército de M. Lívio Salinator, o adversário de Asdrúbal, junta-se no rio Metauro, C. Cláudio Néro, o suposto adversário de Aníbal, que conseguiu ir com uma parte do exército dirigir-se para norte. Assim, os dois exércitos juntos, arrasam Asdrúbal na batalha do rio Metauro, a última grande batalha em Itália.
Aníbal inactivo no Brútio perdia a última esperança, Cipião derrota a resistência hispano-púnica na batalha de Ilipa, Magão é obrigado a sair da Hispânia. Assim, Cartago privada das minas e tropas hispânicas, perdia a iniciativa e a vantagem.


*
Cipião estava-se a tornar no herói da guerra. Partiu para a Macedónia, onde em 205 a.C. obrigou Filipe V a aceitar a Paz, Cartago perdia o seu principal apoio (Tito Lívio, XXVI). No mesmo ano foi candidato a cônsul, no seu programa previa um desembarque em África, esta hipótese de guerra ofensiva e uma provável vitória definitiva rápida, foi do agrado do povo. Cipião foi eleito. Mas, este programa não passou sem resistência, Fábio Máximo pretendia uma Paz de compromisso, deixando a Cartago as suas possessões africanas. Cipião com uma visão mais imperialista pretendia, além de expulsar Aníbal da Itália, eliminar Cartago como grande potência.
O Senado entregou-lhe a província da Sicília com autorização de passar a África, no entanto teve sérias dificuldades em organizar e pôr de pé a sua expedição (Tito Lívio, XXVII).
A perspectiva de uma invasão inquietou Cartago, o seu Senado acaba por tomar algumas atitudes desesperadas: apoia Magão numa terceira invasão a Itália e apoia directamente Aníbal. Mas, os resultados são medíocres, Magão limitado à Ligúria acaba por ser derrotado e Aníbal não sai do Brútio, acaba derrotado pelo cônsul Semprónio em Crotona. Na conjuntura das alianças entre Cipião e os outros povos africanos (ver relatório), Roma perde um apoio importante, o de Syphax, o principal príncipe númida, mas conta ainda com Massinissa.
Em 204 a.C. Cipião desembarca em África. A missão correu mal e os romanos acabam encurralados numa pequena península rochosa (Castro Cornélio) pressionados por tropas púnicas e númidas (Syphax). Cartago podia ter destruído aqui esta força expedicionária, mas dada a conjuntura geral preferiu negociar. Esta atitude permitiu a Cipião viver a belle époque de 203 a.C., em Abril derrotou os africanos, em Junho aprisionou Syphax, era o fim do apoio númida a Cartago, Massinissa recuperou os territórios que Syphax lhe tinha tirado.
Aníbal prepara-se, 36 anos depois, para regressar a África, juntamente com os seus 20000 homens, no Outono de 203 a.C.. Ao chegar levanta o seu quartel de Inverno em Hadrumeto.
Dá-se, então lugar à diplomacia, em 202 a.C. Cartago aceita um tratado de Paz humilhante: devia entregar os prisioneiros e desertores romanos; evacuar a Itália, a Gália e as ilhas situadas entre a Itália e África; renunciar à Hispânia; reduzir a sua frota; pagar uma indemnização de 5000 talentos e abastecer o exército romano até à consolidação da Paz.
Cartago ao aceitar estas condições deixava de ser uma potência mediterrânica e passava a sê-lo apenas em África. Entretanto, as intrigas senatoriais em Roma retardaram a ratificação do acordo, isto deu tempo para o originar de um sentimento de desforra no espírito púnico: juntamente com o regresso de Aníbal que deu força ao partido da guerra em Cartago, o clima interno, de crescente escassez, era propício a uma revolta. O clima tenso de guerra, encontrou um pretexto para explodir num ataque a um comboio de reabastecimento romano. A guerra recomeça, “Já não é só a África ou a Itália, é o Universo inteiro que será a recompensa do vencedor.” (Tito Lívio), XXX, 32).
Aníbal reúne em pleno deserto a menos de 100 Kms de Cartago, um exército de 40000 / 50000 soldados de valor desigual, falta-lhe pela primeira vez a cavalaria, tenta substitui-la por 100 elefantes. A batalha começou em Zama, em Outubro de 202 a.C.. Os romanos tinham agora a primazia na cavalaria. Aníbal colocou os elefantes em linha em frente da infantaria e fê-los avançar como se trata-se de uma carga de cavalaria. Mas, Cipião ao saber isso já tinha premeditado um plano, os romanos mudaram instantaneamente de formação fazendo os elefantes passarem pelas suas fileiras. Aníbal dependia deste primeiro ataque, depois foi a debandada, Cipião usando muitas das tácticas de Aníbal, fez a tradicional manobra de flanqueamento da infantaria pela cavalaria, e venceu tão estrondosamente que fez lembrar as vitórias iniciais de Aníbal.
Cartago rendeu-se, o novo acordo de Paz muito semelhante ao anterior, foi agravado nalgumas questões, agora a ex-potência só podia fazer guerra em África, com um pequeno exército, e com autorização de Roma – era uma verdadeira cidade vassalo. O tratado foi ratificado em Roma no ano de 201 a.C..
A Itália estava destruída, nomeadamente o sul, mas, no entanto, Roma preparava-se para dominar o mundo.


As consequências

Este exemplo diz muito: um fosso marcava os limites do território cartaginês, e se os púnicos o transpusessem era o mesmo que declarar guerra a Roma. a este estado de dependência terá tentado lutar Aníbal, mas uma denúncia obrigaram-no a ir para Oriente.
A Segunda Guerra Púnica foi um ponto de viragem na história romana, com profundas implicações para a República. A mais imediata foi a aquisição do Império, no espaço de cinquenta anos Roma adquiriu a maior parte do Mediterrâneo ocidental. A República tinha agora que ajustar as a administração, a política externa e sistema de alianças para governar esses novos territórios.
Para isso precisava de um exército em cada um desse pontos, assim o exército transformar-se--ia na chave do Império e teria um papel primordial na sociedade.
A única potência que restava era a Grécia, Roma já havia lutado a Macedónia, não tardaria iria subjugar o resto da zona. Outra ameaça a Roma era Aníbal, ou seja, a sua memória que nunca mais largaria Roma.
Os 14 anos que Aníbal passou em Itália foram o suficiente para a destruir. O sul da Itália ficaria para sempre empobrecida, as cidades destruídas, as colheitas perdidas, a quebra demográfica, o sofrimento das populações – todas as vicissitudes pelas quais passou o homem comum foram propositadamente esquecidas neste trabalho, mas são tão importantes como o resto.

terça-feira, janeiro 25, 2005

Cartago - Parte III

Parte III

Roma, nas vésperas da Primeira Guerra púnica, dominava toda a Itália. Submeteu todos os povos itálicos e as cidades gregas do sul. Um símbolo desta conquista foi a vitória sobre a coligação de algumas das forças inimigas de Roma ( lucanos, etruscos, gauleses e cidades gregas). Sobrava apenas Tarento, que deu origem, como vimos, à campanha de Pirro mas, caindo em 272 a.C., na aliança romana. Assim, a cidade de Romúlo e Remo era a nova herdeira e protectora do helenismo e, apesar dos tratados entre Roma e Cartago de cooperação e apoio mútuo contra Pirro, por exemplo o de 278 a.C., podia atacar as forças africanas caso elas pusessem em causa esse helenismo que Roma se dispôs a defender.
A Roma que começou o conflito com os poensi (daqui deriva a palavra púnico) estava numa fase de rápido amadurecimento, as instituições políticas bem enraizadas, o exército bem treinado (apesar da debilidade naval) depois de duzentos anos de guerras constantes, tudo polvilhado por um forte patriotismo. A Cartago do mesmo período, tinha o domínio do mar, a riqueza, logo os mercenários, cuja abundância iria trazer, como veremos, graves consequências, mais as vantagens de uma cultura oriental / semítica.


Causas

“ A Sicília é a mais bela de todas as ilhas, ela pode contribuir infinitamente para o poderio de um Império.” (Diodoro, XXIII, frags.) – esta citação parece ter sido ouvida por romanos e púnicos, pois a principal causa do conflito foram as ambições de ambas as potências em relação ao domínio da ilha. De facto, Cartago já dominava a Sicília ocidental e ameaçava a Siracusa de Hierão II e a Messina mamertina, ficando, deste modo, Roma alheada das potencialidades sicilianas, nomeadamente da navegação no estreito de Messina, estrategicamente importante para a entrada no mar Tirreno.
Tratados entre Roma e Cartago, 508,348,306 e o acima referido de 278 a.C., demarcavam bem o limite entre as duas áreas de influência – sul de Itália para Roma e a Sicília para Cartago: os romanos não cumpriram a sua parte. Isto acaba por ser normal, pois as duas forças estão demasiado próximas e com ambições demasiado grandes para não se chocarem. A guerra acaba por ser inevitável.
Messina e Siracusa estavam em guerra e cada uma das potências ocidentais vai apoiar lados opostos. Os púnicos conciliam as duas forças em guerra, aliando-se logo depois a Siracusa, bloqueiam o estreito e ocupam Messina, este acto de má fé cartaginesa vai levar os mamertinos, aliados dos romanos de Régio, a pedir auxílio a Roma “...em nome do sangue que os unia.” (Políbio, I, 10). Entretanto, uma frota cartaginesa impedira barcos romanos de passarem o estreito, logo depois forças romanas obrigaram os púnicos a retirarem-se apoderando-se de um seu almirante, Hanão, Cartago respondeu com uma força maior. Roma responde com tropas consulares (Ápio Cláudio). A guerra deixava de ser local para passar a ser global. Roma pela primeira vez enceta uma campanha militar fora de Itália, logo contra dois adversários.

264 / 241 a.C. – em torno da questão sicíliana

A guerra tinha agora um carácter oficial. A ambição de dominar a Sicília provocou uma transformação da estratégia romana – parafraseando J. Cousin, pode-se analisar essa mudança como uma passagem da “aventura terrestre” para a “aventura marítima”, indispensável para quem quer lutar pela posse de uma ilha. Esta nova atitude exigia um cambio da própria mentalidade colectiva do povo romano, enraizado à terra, cujo terror do mar nos é transmitido pelos poetas líricos e épicos e para quem a glória só se adquire na guerra terrestre. Mas ao analisar as lendas mais ouvidas pelos romanos, conclui-se isto: o romano sentia uma espécie de atracção fatal pelo mar e tempestades. A marinha de Roma desenvolveu-se, graças aos estaleiros do sul da Itália, depois das outras potências mediterrânicas. Esta situação contrasta de sobremaneira com a relação aberta, confiante e madura do povo cartaginês, descendentes dos comerciantes fenícios, com o mar. À primeira vista, Cartago, pelo menos no aspecto naval, parece ter grande vantagem, pois numa segunda fase a Primeira Guerra Púnica foi travada no mar e em África (aqui a travessia do mar surgia como inevitável). Como veremos a vitória romana deveu-se ao grande esforço do povo romano no sentido de colmatar essa falha, para frisar este ponto: quando Ápio Cláudio vai com uma armada para Messina só tinha ao seu dispor barcos aliados de Roma.
Para melhor compreender o primeiro conflito entre as potências ocidentais utilizaremos uma proposta de B. Combet-Farnoux que esquematiza os seus vinte e três de duração em quatro fases sucessivas, acompanharemos essa análise mais factual com um estudo da evolução das forças navais dos dois antagonistas, visto que ela foi fundamental para o desenlace da guerra.
Numa 1ª fase (264 / 241 a.C.), a Sicília foi o campo de batalha. Roma está instalada em Messina, indo, como vimos, contra os tratados antigos, principal causa da guerra, pretendendo que Cartago reconheça essa sua presença. Segundo Políbio, a totalidade das tropas romanas foram enviadas para a ilha, dois exércitos consulares, o equivalente a quatro legiões num total provável de 40000 soldados, à medida que prossegue a marcha os aliados de ontem dos púnicos viram-se para o lado romano, nomeadamente Hierão II de Siracusa, pois essa aliança nunca foi muito bem vista em Siracusa. De facto, os siracusanos em 263 a.C. fazem uma aliança com Roma, tornando-se “...amigos e fieis aliados.” (Políbio, I, 16), mas ficando encarregues de um tributo até 248 a.C.. O apoio de Siracusa contribuiu para a vitória romana, pois além da poderosa frota que possui era um importante ponto de reabastecimento possuía fortificações aperfeiçoadas pelo conselheiro militar de Hierão II, de seu nome Arquimedes, personagem que ocupa o nosso imaginário, protagonista da célebre expressão “Eureka! Eureka!” (“Achei! Achei!”). Esta aliança fez os púnicos perderem a sua base de apoio a leste da ilha, mas a sua instalação a poente estava bem segura, pois detinham o domínio do mar e Roma sem uma frota que pudesse rivalizar com a africana pouco podia fazer, além disso a armada púnica atacava as costas italianas. O cerco e consequente tomada de Agrigento (262 a.C.), cidade aliada de Cartago foi uma excepção de difícil concretização, compreendendo-se, assim, porque é que em Roma “...a alegria foi geral.” (Políbio, I, 20). De acordo com o estudo de J. Cousin, confirmado pela leitura de Políbio e Tito Lívio, Roma no início da guerra contava com 160 barcos, isto se aceitarmos a tradicional “precisão” dos números “livianos”: 100 quinquerremes e 20 trirremes (confirmado em Políbio) duunvirais construídos. “...decidiram construir navios de cinco filas de remos e vinte trirremes.” (Políbio, I, 20), mais alguns, como por exemplo, 25 navios italiotas entre outros, até se chegar à quantidade proposta pelos autores. Apesar de logo no início das hostilidades Roma ter perdido 17 unidades, este esforço de desenvolvimento naval, a primeira vez que os romanos equiparam uma frota, seria recompensado pelas sucessivas vitórias navais da 2ª etapa.
A 2ª fase ( 260 / 255-54 a.C.) foi marcada pela superioridade romana. O almirante romano Cornélio é aprisionado pelos púnicos, este facto acaba por ser importante, pois quem o vai substituir na liderança da armada de Roma, constituída por barcos “...mal construídos...” (Políbio, I, 22), é o general das tropas terrestres Duillio o vencedor em Milas (260 a.C.), onde Roma, de acordo com os autores antigos, possuía 140 navios, aprisionou 30 navios púnicos e afundou 17, desconhecem-se as perdas romanas. Esta vitória naval deu animo aos romanos que conquistaram rapidamente várias zonas da Sicília, apesar da armada púnica continuar

NOTA:
Políbio (210 / 128 a.C.) foi um político e historiador grego. Nasceu e morreu em Megalópolis (Arcádia). Por entre as suas obras destaca-se Historia, que relata, em quarenta livros, todo o período desde o início da Primeira Guerra Púnica até ao fim da Terceira. Esta obra marcou a evolução da ciência histórica. Os livros I e II tratam das ocorrências do espaço de tempo decorrido entre 264 / 221 a.C. (do início da Primeira ao começo da Segunda guerra entre Roma e Cartago). O III começa onde acabou o II e vai até à batalha de Canas. O IV e V não referem as Guerras Púnicas. Dos restantes livros só nos restam fragmentos. O método de Políbio é de cariz científico. Era um viajante, fala do que viu, nomeadamente da Hispânia, prima pela imparcialidade e está mais próximo dos acontecimentos. Não floreia a obra com passagens míticas ou anedóticas desnecessárias para o rigor histórico. A única lacuna da obra é a pobreza de estilo, na arte da escrita. Concluindo: mais credível que Tito Lívio, mas menos agradável de ler.
perfeitamente operacional. Todavia a guerra arrasta-se até 256 a.C., a que não é alheio o desprezo da mentalidade rural dos italianos pelas campanhas navais, sendo de salientar apenas a vitória romana em Tíndaris, devido à superioridade numérica das suas forças, perdem apenas 8 barcos. Então surge no espírito romano o desejo de “...passar a África e transportar para lá o teatro da guerra...” (Políbio, I, 26), a missão é preparada com um ano de antecedência. Dessa missão é encarregue o cônsul M. A. Régulo. A guerra começa a ser travada em solo africano no ano de 256 a.C. Antes do desembarque, teve lugar a batalha naval de Ecnomo, perto de Aspis, saldando-se por uma vitória romana, na narração de Políbio, plena de incongruências, refere-se que de 330 barcos oriundos de Óstia 24 foram afundados e dos 350 púnicos, 30 foram ao fundo e 64 apresados. Esta derrota dificultou a defesa cartaginesa, assim, o desembarque em África foi realizado “...sem problemas e fizeram o cerco a Clipeia.” (Polibio, I, 29), transformada em centro de operações, pois a estação estava demasiado avançada. Os cartagineses deparavam-se com revoltas númidas e dificuldades de abastecer a metrópole. Entretanto, os soldados do Tibre haviam tomado dois pontos estratégicos importantes: Aléria e Ólbia, na Córsega e Sardenha, respectivamente. Régulo recusou a paz e acaba derrotado e feito prisioneiro pelos mercenários púnicos liderados pelo grego Xântipo, “...formado segundo a disciplina lacedemónia e que conhecia a fundo a arte da guerra...”, em 255 a.C.. O exército romano foi obrigado a reembarcar, durante a retirada teve, paradoxalmente, a maior vitória da guerra junto do cabo Hermeu, segundo o último autor citado, aquando desta batalha Roma tinha 350 navios, não menciona os navios perdidos, e Cartago de 200 perdeu 114. A vantagem conseguida foi perdida logo a seguir devido a uma tempestade ao largo de Camarino “... de 364 navios não sobraram mais que 24.” (Políbio, I, 37) – tudo isto também em 255 a.C., ambos os antagonistas estavam enfraquecidos. Vejamos algumas das incongruências contabilisticas dos autores clássicos, nomeadamente de Políbio: em relação aos romanos – em Hermeu tinham 350 barcos (não indicando os que foram afundados), logo a seguir, no regresso, perderam 364?? na tempestade, sobrando ainda 80 ou 24 (esta hesitação deve-se ao facto de J. Cousin, baseado em Políbio, mencionar 80, enquanto que na bibliografia do mesmo autor clássico que consultei, indica o número 24, aliás como está citado acima), isto é estranho dado que na tempestade foram perdidos barcos que aparentemente não existiam. Em relação à contabilidade púnica – após Ecnomo possuíam 256 navios, devido às perdas, mas começaram a batalha de Hermeu com apenas 200, que terá acontecido aos outros 56? Claro que é muito subjectivo discutir estes pormenores, mas de qualquer forma tem-se de salientar o facto de trabalhar incidindo sobre os autores antigos sem recorrer a outras fontes dada a falibilidade dos mesmos, devido quiçá a má interpretação das fontes ou apenas a parcialidade patriótica, aliás como é perfeitamente visível em Tito Lívio.
A 3ª fase (255-54 / 247 a.C.), é passada na Sicília ou ao seu largo, Roma desiste de atacar África e opta pelas possessões púnicas no ocidente da ilha. Uma guerra terrestre de cercos e bloqueios, em que os impasses preponderaram – Cartago conquistou Drépano (esta vitória deu grande glória ao almirante cartaginês Aderbal e desonra a P. C. Pulcher) e Camarino, mas perdeu Panormo, resistindo em Lilibeu liderados por Himílcone. Este clima de impasse, provado pelos factos atrás referidos, foi quebrado por duas importantes vitórias navais púnicas, devida em grande parte à maior experiência dos seus almirantes face aos almirantes efémeros de Roma. ambas as derrotas, uma com o cônsul P. Claudio outra com J. Pullus, foram frente ao almirante Carthalão. Logo a seguir, mais uma tempestade na mesma zona da anterior, em Camarino, arrasava completamente com a frota romana, sobraram apenas dois barcos, acrescentando-se estas perdas aos cerca de 600 / 700 navios perdidos em vinte e três anos de conflito. Nesta fase aconteceu o pior período da guerra para Roma – 249 a.C., o annus ater. Cartago, agora com superioridade a todos os níveis, nomeadamente marítimo, mas com problemas internos, necessidades do Tesouro e preferência de uma parte do Senado pelos lucros do comércio ao prejuízo da guerra, foi incapaz de solucionar os problemas em duas frentes, preferindo deixar a situação externa a balançar. Esta atitude custou aos africanos a vitória e mudou o rumo da História. Roma usando de todas as suas virtudes recompôs-se.
A 4ª fase (247 / 241 a.C.) adivinhava um fim próximo para os antagonismos, ambas as potências davam provas de um total esgotamento, aliás, no fim, Cartago mais que derrotada estava exausta e o facto de permanecer independente demonstram que Roma estava também ela de rastos. Na Sicília, entre o monte Heircté e o monte Érix, acontecia daquela espécie de guerrilha, propícias à estagnação das posições e à eternidade da guerra. Amílcar Barca (pai de Aníbal) líder púnico dessa luta pelo cansaço não tinha os apoios que desejava da metrópole devido aos motivos internos já referidos, por isso faltavam-lhe meios, nomeadamente da armada, na maior parte desarmada. Roma não podia fazer melhor, pois tinha uma grande lacuna a nível naval, isso impedia-lhe o domínio da ilha. Assim, tinham ambos pontos fracos. Roma foi a primeira a resolver os seus problemas, apoiada financeiramente nos cidadãos ricos, conseguiu uma nova frota em 243 / 242 a.C. e “...colocam de novo as suas esperanças nos seus barcos.” (Políbio, I, 59), Roma nunca tinha tido uma frota tão boa. O fim desta guerra extenuante chega em 241 a.C., quando a armada romana liderada por Lutácio Catulo, nas ilhas Égates consegue derrotar as forças púnicas, não sendo esta das piores catástrofes da guerra, foi-o devido ao esgotamento total de Cartago. O tratado de paz, um primeiro não foi ratificado pelo povo de Roma, elaborado de forma a pôr a ex-colónia de Tiro K.O. durante longos anos: renunciava às ilhas Lipari e a Sicília, não podia recrutar mercenários em Itália e aos aliados romanos e era obrigada a pagar 3 200 talentos em dez anos, acrescentados (devido a protestos púnicos devido a abusos romanos) mais tarde de 1200 talentos suplementares e a perda da Córsega e Sardenha em 238 a.C. (espécie de pagamento da neutralidade romana nos problemas internos de Cartago), Roma aproveitava, assim, as revoltas internas de Cartago não para a eliminar de vez, algo de que se viria a arrepender, mas sim para extorquir-lhes mais riquezas que, apesar de tudo, a sua frota mercante continuava a gerar. Cartago perdia ingloriamente, mas o desejo de desforra continuava bem presente. Desde Políbio que é normal atribuir a vitória romana à firmeza do Senado e às virtudes morais do seu povo, pois nenhum romano se salientou, de facto valeu a Roma a sua força colectiva e os erros e hesitações púnicas.

Consequências

A primeira ilação a retirar, e a que teria consequências mais longínquas, é sobre a experiência naval retirada por Roma destas maciças expedições navais conduzidas fora de Itália, preponderante para quem no futuro iria dominar toda a bacia do mar Mediterrâneo, um Império que ia, no século II d. C., desde a Arménia à Tingitânia, do Egipto à muralha de Adriano.
As consequências temporalmente mais próximas foram as guerras civis despoletadas tanto em Itália como em África e que “...os romanos terminaram (...) com felicidade e rapidez...” (Políbio, I, 65), ao contrário, em Cartago a resolução foi muito mais difícil.
Roma saboreia alguns momentos de acalmia, aproveitando para submeter os piratas da Ilíria que atacavam frequentemente as costas adriáticas, desembarcar na Dalmácia em 229 e 220 a.C., formar alianças com colónias gregas como Epidamno, Apolónia (estava, assim, em contacto directo com o mundo helenístico) e para ocupar progressivamente a Córsega e Sardenha. Mas, estava para chegar um perigo ainda maior – o tumultos gallicus –, estava ainda bem presente o saque de Roma pelos gauleses em 390 a.C.. Uma primeira revolta é parada por uma trégua, mas rapidamente uma coligação de gauleses se prepara para atacar o norte da Itália, indo até onde fosse possível, acaba por ser derrotada na batalha de Telamone em 225 a.C., repelindo-os para os Alpes perseguidos pelas legiões os submetem, ocupam Milão em 222 a.C., por esta data toda a península era dirigida por ordens romanas.
Cartago ,no intervalo entre os dois conflitos com Roma, teve em mãos a “ guerra inexpiável”, conduzida por mercenários ociosos e sem pagamentos, e uma luta política, entre os partidos mercantil e o partido apologista da guerra, que já se haviam travado de razões durante o desenrolar da Primeira Guerra Púnica. A revolta mercenária, à qual se juntaram algumas revoltas de povos indígenas, largou o caos em África durante três anos, liderados pelo campâniano Espêndio e por Matos, cercaram cidades tão importantes como Útica ou Hipona, chegando mesmo a por em causa a existência do Estado púnico, que apenas sobreviveu graças à compra da neutralidade romana e, também, à ajuda de Siracusa, Hierão II “...não queria que essa República (Roma) se tornasse única potência...” (Políbio, I, 83), a habilidade do seu líder em jogar nos dois lados deu a Siracusa, último reduto grego da Sicília, hipótese de sobreviver até 212 a.C. (pouco depois da morte de Hierão II), pois ao abandonar a aliança romana para se aliar a Aníbal, provocou a sua conquista por Marcelo. É o fim da pátria de Arquimedes, que morre durante essa conquista, cujas máquinas de resistência a tentaram impedir. A situação complicara-se ainda mais devido às falhas do general Hanão, por isso é nomeado Amílcar Barca general, este consegue derrotar os mercenários e matar os seus líderes – “...todas as partes de África reconheceram a autoridade de Cartago...” (Políbio, I, 88). Na luta política, o partido mercantil aparentemente parecia ter vencido a contenda, visto que desviou o partido do exército para a conquista de África e Hispânia, deixavam, assim, de ter obstáculos entre eles e o lucro. Mas esta solução foi um autêntico tiro no pé, pois foi a partir da Hispânia que começou a Segunda Guerra Púnica.
Concluímos, então, que os vinte e três anos de guerra externa provocaram um certo desleixo na resolução dos problemas internos, logo a Primeira Guerra Púnica teve directamente a ver, principalmente no caso cartaginês, com as convulsões internas, sendo estas, por isso, incluídas nas consequências do primeiro conflito em estudo.