FUSTIGANTE

Sexta-feira, Outubro 15, 2004

I. K. 3 - São Salvador

SÃO SALVADOR
…onde tudo é “Amado”!

Salvador cabe dentro de um quadro de Matisse: as casas são fauves coloridas contornadas a negro retinto, repletas de gente… não pessoas normais, mas GENTE mágica de calor e cor contente! Uma carnavalesca multidão desenfreada ocupa o burgo alto, esta gente simbiota vive em perfeita comunhão com a concha. A cidade opera como um búzio – não aquele molusco gastrópode que meu pai levava para casa e comia – o bicho é a gente, a concha é tudo o resto… tudo o resto eu já conhecia, Jorge Amado havia-me ensinado.
«Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia» junto ao Mercado Modelo, defronte ao Elevador Lacerda que une a Alta à Baixa. Tudo isto me faz lembrar meu pai, pescador robusto, homem de mar que não acreditava em Yemanjá, nazareno de Portugal… E Salvador tem uma Nazaré, e um elevador e um Sítio na alta e um oceano sem fim e um sotaque e uma alma como a minha vila paterna… Salvador faz de mim bipolar. A loucura da gente e a angústia apertada das reminiscências da concha, o achado e o perdido!
Salvador é Amado e é meu pai, é meu pai e é Amado. É amarelo, verde, azul, todas as cores do mundo. É Mar Morto e é tempestade. É preto e é branco. É Igreja e é paganismo. É príncipio e é Bonfim. São Salvador representa o Homem, a gente – não é africano, português ou brasileiro – é como nós, infinito.
Apesar do aparente, para mim São Salvador da Baía não é apenas um conjunto de antinomias em frases curtas, não consiste numa cidade-paradoxo… O verbo a aplicar é “rever”, eu revejo-me em Salvador. E sirva este diário kerouakiano para o que for, tem pelo menos a função de me recordar que não posso passar a vida sem aqui voltar. Entretanto, posso rever-me a percorrer o Pelourinho, a ver os ex-votos do Bonfim e a tocar nas bocas de fogo no Forte de Santa Maria ao ler as linhas do filho de Itabuna sobre a sua musa inspiradora.
A caminho de Maceió
Fevereiro de 2004