FUSTIGANTE

Quinta-feira, Outubro 21, 2004

I. K. 4 - Alcântara

ALCÂNTARA
…é Antero

Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,
Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento:
Não há como eu espectro macilento…

Oriundos de algures, talvez nenhures, estes plúmbeos versos de Quental – de um soneto cujo nome não recordo – abateram-se sobre mim quando hoje em plena Baia de São Marcos contemplei Alcântara… Estranha sensação esta de uma travessia de um mar nada quimérico, num barco nada fabuloso despertar em mim memórias adolescentes de poesia de um tempo em que vivia para ela. Magnífico instante da recordação de dandinar para o meu próprio ego. Salvam-se as reminiscências porque o dandismo é morto pelos anos!
Esta cidade está morta…Mas viva a cidade! Apagou-se ainda DÂNDI e não esclerosada. Alcântara – a arábica ponte de pedra – representa a passagem, o caminho direito para o Brasil Romântico. Aqui respira-se nobreza e altivez em decomposição. As paredes derrubadas, porém outrora imponentes, fazem viajar no Tempo até ao apogeu luso para, concomitantemente, darmos razão ao velho da praia do Restelo: o desejo de fama é vaidade mal disfarçada, acabando nisto… ruínas esfareladas, igrejas sem tecto, ladeiras esburacadas, vacas e burros pastando no capim da Praça da Matriz…
Nunca tinha entrado numa sanzala. É difícil imaginar o que os Homens da minha cor fizeram aos Homens que não têm a minha cor mas que são meus iguais. Não é fácil tocar nestas pedras, sentir este calor húmido vindo do Inferno e pensar nos homens e mulheres cortando a cana, enriquecendo a Ponte de Pedra e recebendo em troca a desumanidade suprema… Eu estive num dos milhares de Auschwitz(s) existentes no antigo Brasil colonial! Esta beleza escura, nocturna de espectro macilento é fruto da ignomínia humana. Ambiguidade… Alcântara é ambígua! Os sentimentos dicotomizam-se: no lugar de Apolo encontrei Hefesto, em vez de luz, penumbra… E eu, horaciano militante quase troquei o carpe diem pela Nox… Noite, vão para ti meus pensamentos… De novo Antero de Quental! Alcântara é Antero…
Este é o Brasil que vim procurar…
Sentado no repouso do meu quarto “colonial” em S. Luís, aproveito para relembrar a mim próprio: nunca saias ou regresses a esta ilha de catamaran!
Sobrevoando o Atlântico Sul a caminho da Europa
Março de 2004