Pedras – Parte II
O fascínio do Homem pelo sobrenatural é eterno. Faziam parte do Património Cultural da Humanidade as lendas, estórias, contos, anedotas de heróis com capacidades incomparáveis. A força de Héracles, a astúcia de Ulisses, a alquimia medieval, as bruxas da Inquisição, o Obélix, o Hulk... Mitos, fábulas, quimeras! O talento de petrificar as pessoas era pouco considerado. Seria uma arte menor transformar as pessoas em figuras pétreas?
Pedra cinzenta normalmente. Naquele assento de ferro forjado pintado de verde metamorfoseei-me em granito, no frio, duro e impenetrável granito. Os conversadores encasacados e os caminhantes apressados e os clientes do café em frente e os condutores e passageiros dos carros em circulação e as crianças jogadoras de futebol e as beatas corredoras e os patos dorminhocos, todos ficaram boquiabertos olhando o bloco granítico talhado num instante sobre a forma de um homem a ler o jornal de anteontem. A multidão avolumou-se em meu redor. A minha percepção do envolvente tornou-se canina, em escandaloso contraste com os sentidos dormentes do começo do dia… Ouvia vozes distantes, numa Babel orgíaca de sons. Cheirava o mar estando a quilómetros dele. Via pessoas envoltas em cápsulas de luzes variadas e coloridas e sentia-lhe os pensamentos. O prazer foi substituindo o medo inicial. O estatismo atribuía-me potencialidades jamais sonhadas, a profundidade da alma deixara de ser segredo ou mistério. Passei longas horas humanas – curtos segundos para mim – no estado pétreo. Nos dias seguintes foram notícia as pessoas-granito, pessoas-calcário, pessoas-xisto e até pessoas-mármore, dependendo das características geológicas da zona que habitavam. Os iniciados na arte da petrificação desejavam a cada minuto que chegasse a metamorfose. Entretanto, descobriu-se a fórmula.
Este fenómeno desencadeia-se quando se ouve rádio, se vê televisão ou se lê jornais… As horas passadas estático servindo de pouso a abutres, têm origem no espanto e conduzem à suprema felicidade. Transformamo-nos em calhau, pasmados por sermos Homens da contemporaneidade. Tempo inolvidável o que vivíamos, a História não só decorria a uma velocidade vertiginosa como era totalmente original. Tudo era novidade, nada aconteceu antes, jamais Tempo algum foi tão único.
A petrificação tornou-se um vício, a população consumia avidamente as noticias com o intuito de se transfigurar em pedra. O vício passou a doença que passou a pandemia, as famílias desagregaram-se, a sociedade alterou-se, ninguém trabalhava ou produzia, a fome e a doença grassavam pelos campos e cidades. A nossa civilização suicidou-se e eu afastei-me do seu corpo em putrefacção. Passaram-se anos, vivo só desde então, aguardando a morte.
Pedra cinzenta normalmente. Naquele assento de ferro forjado pintado de verde metamorfoseei-me em granito, no frio, duro e impenetrável granito. Os conversadores encasacados e os caminhantes apressados e os clientes do café em frente e os condutores e passageiros dos carros em circulação e as crianças jogadoras de futebol e as beatas corredoras e os patos dorminhocos, todos ficaram boquiabertos olhando o bloco granítico talhado num instante sobre a forma de um homem a ler o jornal de anteontem. A multidão avolumou-se em meu redor. A minha percepção do envolvente tornou-se canina, em escandaloso contraste com os sentidos dormentes do começo do dia… Ouvia vozes distantes, numa Babel orgíaca de sons. Cheirava o mar estando a quilómetros dele. Via pessoas envoltas em cápsulas de luzes variadas e coloridas e sentia-lhe os pensamentos. O prazer foi substituindo o medo inicial. O estatismo atribuía-me potencialidades jamais sonhadas, a profundidade da alma deixara de ser segredo ou mistério. Passei longas horas humanas – curtos segundos para mim – no estado pétreo. Nos dias seguintes foram notícia as pessoas-granito, pessoas-calcário, pessoas-xisto e até pessoas-mármore, dependendo das características geológicas da zona que habitavam. Os iniciados na arte da petrificação desejavam a cada minuto que chegasse a metamorfose. Entretanto, descobriu-se a fórmula.
Este fenómeno desencadeia-se quando se ouve rádio, se vê televisão ou se lê jornais… As horas passadas estático servindo de pouso a abutres, têm origem no espanto e conduzem à suprema felicidade. Transformamo-nos em calhau, pasmados por sermos Homens da contemporaneidade. Tempo inolvidável o que vivíamos, a História não só decorria a uma velocidade vertiginosa como era totalmente original. Tudo era novidade, nada aconteceu antes, jamais Tempo algum foi tão único.
A petrificação tornou-se um vício, a população consumia avidamente as noticias com o intuito de se transfigurar em pedra. O vício passou a doença que passou a pandemia, as famílias desagregaram-se, a sociedade alterou-se, ninguém trabalhava ou produzia, a fome e a doença grassavam pelos campos e cidades. A nossa civilização suicidou-se e eu afastei-me do seu corpo em putrefacção. Passaram-se anos, vivo só desde então, aguardando a morte.

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