FUSTIGANTE

Quinta-feira, Novembro 04, 2004

O homem que repara sanitas

Um bom amigo – ideologicamente na barricada oposta à minha – disse-me hoje que perdermos demasiado tempo a comentar ou discutir as eleições presidenciais americanas era o mesmo que assumirmo-nos como neo-colónias da actual hiper-potência. Deixou implícito que desde a II Guerra Mundial os europeus atribuem à política dos EUA uma importância que realmente tem, mas que, por orgulho eurocêntrico, hipocritamente, não devíamos dar. Salientei-lhe o seu óbvio exagero, mas intrínseca e irracionalmente queria concordar com ele… Fui hipócrita. É verdade, também, que não pretendia perder tempo a debater qual o melhor presidente para os EUA, se um que atira bombas com um sorriso na cara, ou outro que as atira carrancudo, pois é evidente que, seja quem for, elas vão continuar a ser arremessadas.
Contudo, face a esta nova vitória da América retro – do Midwest, sulista, conservadora e rural – sobre a América metro – das costas (Oeste e Nordeste) e dos Grandes Lagos, cosmopolita, progressista e urbana – não pude evitar o comentário. Há pouco, ao ter a certeza que o texano foi reeleito recordei-me da frase de um sociólogo californiano: «Kerry é o homem político, formal e impassível; Bush é como o cidadão comum, comete gaffes e enrola-se no meio dos discursos. Os americanos gostam de Bush porque ele lhes faz recordar o regular guy que vai desentupir as nossas sanitas!». Com isto termino dando razão ao meu bom amigo – se agora gastarmos algum do escasso tempo das nossas vidas a porfiar qual o melhor desentupidor dos EUA, qualquer dia chegamos ao ponto de esbanjar preciosos segundos a altercar sobre o impacto na produtividade nacional das sestas do primeiro-ministro.