O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte II
Viagens ao Magreb
Entre esta missão de espionagem e a grande viagem à Índia, P. da Covilhã empreendeu duas curtas viagens à Berbéria. Era a sua primeira estadia no “Ocidente do Oriente”. As viagens a Tlemcen e ao “reino da Enxouvia” – nome que as crónicas portuguesas dão ao território dos berberes Chauia (pastores), a norte de Azamor8. Antes de analisarmos as viagens propriamente ditas, vamos tentar decifrar a confusa História magrebina do século XV e a presença portuguesa no Norte de África.
O Magreb entre os séculos XI e XV, teve um percurso histórico independente do restante mundo muçulmano. Até ao século XIII existiu uma união magrebina e hispânica, cimentada por duas dinastias berberes, intimamente relacionadas com a resistência à ofensiva cristã Ibérica da Reconquista. De facto, os Almorávidas (1053-1147) e os Almóadas (1130-1276) – estes últimos submeteram os primeiros pela força – fizeram reviver o sunismo e a força muçulmana no Magreb e na Hispânia graças a um profundo puritanismo e unitarismo religioso, baseado na Jihad. A estes Impérios Universais sucederam três reinos: o Marinida, em Fez, o Zianida ou Abdeluádida, de Tlemcen – estes dois fundados por um dos mais importantes grupos berberes, os Zenatas – e o Hafécida, em Tunes – representantes da continuação do poder Almóada9.
No século XV estes reinos enfrentavam três problemas que levaram ao seu desaparecimento: as incursões e consequente ocupação de importantes pontos estratégicos, por parte dos Estados Ibéricos na costa Norte Africana, começando tudo com a conquista portuguesa de Ceuta; o avanço imparável das forças otomanas em direcção ao Ocidente, quer em direcção ao leste europeu, quer ao Magreb (em 1575 já tinham conquistado Argel, só Marrocos escapou ao domínio otomano); as próprias querelas intestinas dentro dos próprios reinos e as guerras levadas a cabo entre eles. Qual era, então, a situação política nesses reinos aquando das viagens de P. da Covilhã?
Em meados da década de 80, os reinos do Magreb estavam em progressiva decadência. A analise vai incidir principalmente sobre o reino Zianida e o Marinida, respectivamente, dado que foi nesses territórios que P. da Covilhã esteve.
Ao abrir o século XV, o reino Hafécida de Tunes era a maior potência do Magreb: fortaleceu-se internamente, pois acabou com os principados independentes (Tripoli, Gafsa...); recebia tributos doutros Estados muçulmanos; mantinha relações comerciais com potências cristãs, apesar da pirataria mútua; tinha grandes áreas de terra fértil e o maior backgroud em sistemas de organização política. Mas, nunca teve uma organização militar da envergadura do reino Marinida. Estes factos reflectiram-se no equilíbrio político magrebino.
Na época da viagem, o Estado Zianida mantinha relações de vassalagem para com os Hafésidas (como já tivera com os Marinidas) desde 1424, quando o sultão Abu Faris atacou Tlemcen. Essa vassalagem foi confirmada pelas expedições de Abu ‘Amr ‘Uthman, dirigidas contra Tlemcen, nos anos de 1462 e 1466. Contudo, apesar de dominado, o reino Zianida e a sua capital mantinham-se teoricamente independentes. Tlemcen, aquando da estadia de P. da Covilhã, era uma cidade pitoresca, com uma vida religioso-cultural e comercial activa – “...rodeada de jardins e pomares regados (...) por mil fontes, possuindo magníficos palácios, mesquitas e escolas afamadas (...) havia um comércio florescente e uma indústria activa.”10.
O viajante foi a Tlemcen “...comprar alambéis e fazer pazes com El-Rei de Tremezém...”11. O primeiro função era compreensível, visto que Tlemcen era famosa pelos seus alambéis12. Quanto ao objectivo de fazer as pazes, a analise já não é tão clara, por vários factores: entre Portugal e Tlemcen não havia guerra e o reino Zianida estava fora da esfera de influência lusitana. Portanto, as únicas explicações possíveis são o desejo de contactos diplomáticos entre os dois Estados, no sentido de Portugal garantir a neutralidade destes em relação às pretensões lusas no Reino Marinida vizinho e, também, de controlar as operações castelhanas naquela área13, que pouco depois, estes últimos haveriam, efectivamente, de dominar.
O Magrib al-Aqsa (Ocidente extremo), é denominado nas fontes cristãs por Berbéria ou por Reino de Belamarim – corruptela de Banu Marin, nome da família que fundou a dinastia Marinida (1258-1465), e que sobreviveu até ao advento da dinastia Sa‘adiana dos Xerifes de Marraquexe, apesar da sua decadência se iniciar em meados do século XIV.
Em 1358, Abou Inan é assassinado e começa a desagregação do Império – no reinado anterior, a influencia Marinida alastrara-se até ao reino Zianida, a Granada e às rotas caravaneiras – e o enfraquecimento do poder central. Os sultões passariam a ser joguetes nas mãos de vizires. Um marco importante na História marroquina é a rebelião de al-Mu’tamid em Marraquexe, com o apoio dos Hintata do Alto Atlas, pois começa uma tradição independentista nesta cidade do Sul, culminado nos Sa‘adidas, que em 1554 conquistam Fez.
O canto do cisne do poder Marinida foi o reinado de Abu Faris ‘Abdul-‘Aziz (1366-1372), durante o qual algum do poder foi restaurado, embora efemeramente. Os sultões sucessores voltariam a ser fantoches de diferentes interesses, nomeadamente da dinastia Nazarí de Granada, com Muhammad V – a conquista cristã de Ceuta acaba com essa influência.
Com o assassínio do Marinida Abu Sa‘id (1420), começa a chamada regência Oatácida. Esta durou até 1457, quando ‘Abdul-Haqq repôs os Marinidas no poder. Uma reforma fiscal levada a cabo por este último Marinida, foi o pretexto para a Revolução Idrissida. Fez, durante 6 anos, foi governada pelo sharif al-Juti.
Em 1472, Muhammad al-Shaikh fundou a dinastia Oatácida – sucessores dos Marinidas – (em 1420, foram apenas regentes). Este Sultão governou até 1505.
Estas transformações políticas foram agravadas por lutas étnicas e sociais entre berberes e árabes – estes últimos acabam por vencer, integrando o governo e ocupando as melhores terras. Os berberes Zenatas não arabizados resistirão no Rift e em algumas zonas do Atlas. A partir dessa resistência berbere vão ter origem as zaouia e os marabutos, elementos religiosos que vão apelar à Jihad contra a presença portuguesa.
Vemos, então, que o inicio da expansão portuguesa no Magreb atlântico coincide com a decadência da dinastia Marinida, prosseguindo durante o período Idrissida e a dinastia Oatácida. Esta desagregação e instabilidade facilitou a conquista portuguesa das praças marroquinas. Quando P. da Covilhã fez a sua segunda visita à Berbéria, Portugal dominava Ceuta (1415), Alcácer Ceguer (1458), Arzila (1471), Larache (1471), Tânger (1471) e Safim (1480). O reino de Fez (o nome Marrocos só surge com os Sa‘adidas) era, como vimos, governado por Muhammad al-Shaikh (o Muleixeque das crónicas portuguesas).
Esta demorada introdução à evolução política do Magrib al-Aqsa, permite-nos analisar com maiores certezas a missão de P. da Covilhã.
“...fora mandado à Berberia Moli Belagegi, o que mandou a ossada do Infante D. Fernando (...) para lhe lá comprar cavalos...” Esta passagem da Verdadeira Informação revela-nos alguns pontos importantes: P. Covilhã não fora enviado a Muhammad al-Shaikh, mas sim ao, segundo as crónicas cristãs, rei da Enxouvia, com quem já tinham sido mantidos contactos. A compra pode ser pretexto ou um objectivo paralelo.
Este rei da Enxouvia seria um vassalo poderoso do rei de Fez – factor sintomático da desagregação do poder Oatácida. O encontro teria decorrido próximo de Azamor. A verdade é que pouco depois Azamor se colocaria debaixo da suserania e protecção portuguesa, muito à semelhança do que havia acontecido com Arzila em 1471. Seria ainda o efeito da trégua de 20 anos, assinada em 1471, por Afonso V e Muhammad al-Shaikh? A verdade é que este último em troca de algumas praças conseguiu diminuir a pressão portuguesa, ganhando com isso um reino.
Não se sabe se este sucesso em Azamor foi devido à intervenção de P. da Covilhã. Mas, pelo menos, estas curtas estadias no Magreb serviram para o viajante se acercar dos problemas muçulmanos e para se aperfeiçoar ainda mais na língua e nos costumes. A grande viagem estava prestes a começar.
8 FICALHO, pp. 52
9 ABUN-NASR, pp 8 e 120
10 FICALHO, pp. 49
11 “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV
12 “Alambel – Pano de cores para cobrir mesas, bancos, etc. (...) do árabe al-hanbal ?” (Dicionário de português – Porto Editora).
13 CORTESÃO, Jaime não concorda com esta hipótese.
Entre esta missão de espionagem e a grande viagem à Índia, P. da Covilhã empreendeu duas curtas viagens à Berbéria. Era a sua primeira estadia no “Ocidente do Oriente”. As viagens a Tlemcen e ao “reino da Enxouvia” – nome que as crónicas portuguesas dão ao território dos berberes Chauia (pastores), a norte de Azamor8. Antes de analisarmos as viagens propriamente ditas, vamos tentar decifrar a confusa História magrebina do século XV e a presença portuguesa no Norte de África.
O Magreb entre os séculos XI e XV, teve um percurso histórico independente do restante mundo muçulmano. Até ao século XIII existiu uma união magrebina e hispânica, cimentada por duas dinastias berberes, intimamente relacionadas com a resistência à ofensiva cristã Ibérica da Reconquista. De facto, os Almorávidas (1053-1147) e os Almóadas (1130-1276) – estes últimos submeteram os primeiros pela força – fizeram reviver o sunismo e a força muçulmana no Magreb e na Hispânia graças a um profundo puritanismo e unitarismo religioso, baseado na Jihad. A estes Impérios Universais sucederam três reinos: o Marinida, em Fez, o Zianida ou Abdeluádida, de Tlemcen – estes dois fundados por um dos mais importantes grupos berberes, os Zenatas – e o Hafécida, em Tunes – representantes da continuação do poder Almóada9.
No século XV estes reinos enfrentavam três problemas que levaram ao seu desaparecimento: as incursões e consequente ocupação de importantes pontos estratégicos, por parte dos Estados Ibéricos na costa Norte Africana, começando tudo com a conquista portuguesa de Ceuta; o avanço imparável das forças otomanas em direcção ao Ocidente, quer em direcção ao leste europeu, quer ao Magreb (em 1575 já tinham conquistado Argel, só Marrocos escapou ao domínio otomano); as próprias querelas intestinas dentro dos próprios reinos e as guerras levadas a cabo entre eles. Qual era, então, a situação política nesses reinos aquando das viagens de P. da Covilhã?
Em meados da década de 80, os reinos do Magreb estavam em progressiva decadência. A analise vai incidir principalmente sobre o reino Zianida e o Marinida, respectivamente, dado que foi nesses territórios que P. da Covilhã esteve.
Ao abrir o século XV, o reino Hafécida de Tunes era a maior potência do Magreb: fortaleceu-se internamente, pois acabou com os principados independentes (Tripoli, Gafsa...); recebia tributos doutros Estados muçulmanos; mantinha relações comerciais com potências cristãs, apesar da pirataria mútua; tinha grandes áreas de terra fértil e o maior backgroud em sistemas de organização política. Mas, nunca teve uma organização militar da envergadura do reino Marinida. Estes factos reflectiram-se no equilíbrio político magrebino.
Na época da viagem, o Estado Zianida mantinha relações de vassalagem para com os Hafésidas (como já tivera com os Marinidas) desde 1424, quando o sultão Abu Faris atacou Tlemcen. Essa vassalagem foi confirmada pelas expedições de Abu ‘Amr ‘Uthman, dirigidas contra Tlemcen, nos anos de 1462 e 1466. Contudo, apesar de dominado, o reino Zianida e a sua capital mantinham-se teoricamente independentes. Tlemcen, aquando da estadia de P. da Covilhã, era uma cidade pitoresca, com uma vida religioso-cultural e comercial activa – “...rodeada de jardins e pomares regados (...) por mil fontes, possuindo magníficos palácios, mesquitas e escolas afamadas (...) havia um comércio florescente e uma indústria activa.”10.
O viajante foi a Tlemcen “...comprar alambéis e fazer pazes com El-Rei de Tremezém...”11. O primeiro função era compreensível, visto que Tlemcen era famosa pelos seus alambéis12. Quanto ao objectivo de fazer as pazes, a analise já não é tão clara, por vários factores: entre Portugal e Tlemcen não havia guerra e o reino Zianida estava fora da esfera de influência lusitana. Portanto, as únicas explicações possíveis são o desejo de contactos diplomáticos entre os dois Estados, no sentido de Portugal garantir a neutralidade destes em relação às pretensões lusas no Reino Marinida vizinho e, também, de controlar as operações castelhanas naquela área13, que pouco depois, estes últimos haveriam, efectivamente, de dominar.
O Magrib al-Aqsa (Ocidente extremo), é denominado nas fontes cristãs por Berbéria ou por Reino de Belamarim – corruptela de Banu Marin, nome da família que fundou a dinastia Marinida (1258-1465), e que sobreviveu até ao advento da dinastia Sa‘adiana dos Xerifes de Marraquexe, apesar da sua decadência se iniciar em meados do século XIV.
Em 1358, Abou Inan é assassinado e começa a desagregação do Império – no reinado anterior, a influencia Marinida alastrara-se até ao reino Zianida, a Granada e às rotas caravaneiras – e o enfraquecimento do poder central. Os sultões passariam a ser joguetes nas mãos de vizires. Um marco importante na História marroquina é a rebelião de al-Mu’tamid em Marraquexe, com o apoio dos Hintata do Alto Atlas, pois começa uma tradição independentista nesta cidade do Sul, culminado nos Sa‘adidas, que em 1554 conquistam Fez.
O canto do cisne do poder Marinida foi o reinado de Abu Faris ‘Abdul-‘Aziz (1366-1372), durante o qual algum do poder foi restaurado, embora efemeramente. Os sultões sucessores voltariam a ser fantoches de diferentes interesses, nomeadamente da dinastia Nazarí de Granada, com Muhammad V – a conquista cristã de Ceuta acaba com essa influência.
Com o assassínio do Marinida Abu Sa‘id (1420), começa a chamada regência Oatácida. Esta durou até 1457, quando ‘Abdul-Haqq repôs os Marinidas no poder. Uma reforma fiscal levada a cabo por este último Marinida, foi o pretexto para a Revolução Idrissida. Fez, durante 6 anos, foi governada pelo sharif al-Juti.
Em 1472, Muhammad al-Shaikh fundou a dinastia Oatácida – sucessores dos Marinidas – (em 1420, foram apenas regentes). Este Sultão governou até 1505.
Estas transformações políticas foram agravadas por lutas étnicas e sociais entre berberes e árabes – estes últimos acabam por vencer, integrando o governo e ocupando as melhores terras. Os berberes Zenatas não arabizados resistirão no Rift e em algumas zonas do Atlas. A partir dessa resistência berbere vão ter origem as zaouia e os marabutos, elementos religiosos que vão apelar à Jihad contra a presença portuguesa.
Vemos, então, que o inicio da expansão portuguesa no Magreb atlântico coincide com a decadência da dinastia Marinida, prosseguindo durante o período Idrissida e a dinastia Oatácida. Esta desagregação e instabilidade facilitou a conquista portuguesa das praças marroquinas. Quando P. da Covilhã fez a sua segunda visita à Berbéria, Portugal dominava Ceuta (1415), Alcácer Ceguer (1458), Arzila (1471), Larache (1471), Tânger (1471) e Safim (1480). O reino de Fez (o nome Marrocos só surge com os Sa‘adidas) era, como vimos, governado por Muhammad al-Shaikh (o Muleixeque das crónicas portuguesas).
Esta demorada introdução à evolução política do Magrib al-Aqsa, permite-nos analisar com maiores certezas a missão de P. da Covilhã.
“...fora mandado à Berberia Moli Belagegi, o que mandou a ossada do Infante D. Fernando (...) para lhe lá comprar cavalos...” Esta passagem da Verdadeira Informação revela-nos alguns pontos importantes: P. Covilhã não fora enviado a Muhammad al-Shaikh, mas sim ao, segundo as crónicas cristãs, rei da Enxouvia, com quem já tinham sido mantidos contactos. A compra pode ser pretexto ou um objectivo paralelo.
Este rei da Enxouvia seria um vassalo poderoso do rei de Fez – factor sintomático da desagregação do poder Oatácida. O encontro teria decorrido próximo de Azamor. A verdade é que pouco depois Azamor se colocaria debaixo da suserania e protecção portuguesa, muito à semelhança do que havia acontecido com Arzila em 1471. Seria ainda o efeito da trégua de 20 anos, assinada em 1471, por Afonso V e Muhammad al-Shaikh? A verdade é que este último em troca de algumas praças conseguiu diminuir a pressão portuguesa, ganhando com isso um reino.
Não se sabe se este sucesso em Azamor foi devido à intervenção de P. da Covilhã. Mas, pelo menos, estas curtas estadias no Magreb serviram para o viajante se acercar dos problemas muçulmanos e para se aperfeiçoar ainda mais na língua e nos costumes. A grande viagem estava prestes a começar.
8 FICALHO, pp. 52
9 ABUN-NASR, pp 8 e 120
10 FICALHO, pp. 49
11 “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV
12 “Alambel – Pano de cores para cobrir mesas, bancos, etc. (...) do árabe al-hanbal ?” (Dicionário de português – Porto Editora).
13 CORTESÃO, Jaime não concorda com esta hipótese.

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