<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503</id><updated>2011-04-22T04:21:47.133+01:00</updated><title type='text'>FUSTIGANTE</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://fustigante.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-113386861823179499</id><published>2005-12-06T11:28:00.000Z</published><updated>2005-12-06T11:31:29.346Z</updated><title type='text'>O Mundo Islâmico e Pêro da Covilhã - Parte III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;A grande viagem&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esta viagem de que P. da Covilhã e Afonso de Paiva, foram encarregues (o primeiro para a Índia, o segundo para a Abíssinia) insere-se na fase preparatória de exploração da rota do Cabo, juntamente com as viagens de Bartolomeu Dias no Atlântico Sul. Inserido neste programa metódico e sistemático da Expansão, P. da Covilhã deveria recolher informações sobre as linhas de comércio das especiarias, até então dominados por árabes e italianos, nomeadamente de Veneza.&lt;br /&gt;A partida deu-se em Santarém a 7 de Maio de 1487. A viagem até à ilha de Rodes fez-se sem problemas – a partir daqui o viajante estaria sempre em terreno muçulmano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1) &lt;em&gt;O Egipto Mameluco&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O Egipto dispunha de uma importância estratégica determinante no comércio entre o Oriente, nomeadamente a Índia, e a Europa. Esse comércio, promovido, essencialmente por venezianos e genoveses, estes em menor escala, assentava nas potencialidades da rota do Mar Vermelho. A grande vantagem desta rota sobre a do Golfo Pérsico é o seu menor percurso terrestre. Assim, o delta nilótico ganha uma predominância importante, principalmente Alexandria. Esta cidade passa a ser a porta de chegada dos produtos do Indico. A rota do Cabo descoberta por Bartolomeu Dias em 1488 e o caminho marítimo para a Índia explorado por Vasco da Gama em 1498, levou a rota do Mar Vermelho à decadência, arrastando consigo o vigor de Alexandria e dos comerciantes italianos.&lt;br /&gt;Portanto, quando P. da Covilhã chegou a Alexandria, vindo de Rodes, provavelmente em Agosto de 1487, a cidade mantinha-se ainda um importante foco mercantil. Politicamente, o Egipto era governado pelos mamelucos, cujo poder estava sedeado no Cairo.&lt;br /&gt;Aquando da ocupação cristã da Terra Santa, promovida pela Cruzadas, ocorrem algumas transformações no Egipto. Em 1170, os turcos Seljúcidas dão o título, tal como o poder, do Egipto a um militar curdo, que se salientou na luta contra os cruzados, de nome Salah al-Din ibn Ayyud (Saladino). Ele funda a dinastia Aiubida que governará o Egipto até 1250.&lt;br /&gt;A base do poder Aiubida consiste no seu exército mameluco&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;13&lt;/a&gt;, recrutados entre jovens da Ásia. Em plena dinastia Aiubida, os emires (comandantes dos regimentos de mamelucos) ganhavam cada vez maior influencia. No ano de 1250 tomaram, efectivamente, o poder. Depois de derrubarem o último sultão Aiubida – al-Mou’zzam Touran Chah – formaram uma oligarquia militar que governou o Egipto até 1517, quando o país do Nilo foi conquistado pelos otomanos.&lt;br /&gt;Os mamelucos Baritas governaram até 1382. Foram eles que travaram o avanço mongol para ocidente: “D’une manière paradoxale, c’est le Egypte, gouvernée par des semi-barbares importes dês marches d’esclaves de la Mer Noire, qui est maintenant le refuge dés espoirs, le centre de civilisation pour tous les pays árabes”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;14&lt;/a&gt;. Garantiram ilusória e efemeramente um Império que abarcasse todos os árabes – garantiram a sobrevivência da ficção califiana, pois deram asilo aos descendentes do califa abássida após a conquista de Bagdad pelos mongóis.&lt;br /&gt;Os mamelucos Burgitas governaram até 1517. Este período foi menos notável. Novos factores empurravam os mamelucos para o fim: exército obsoleto; pressão otomana; portugueses no Índico e declínio da rota do Mar Vermelho.&lt;br /&gt;Em 1487 “o sultão do Cairo (…) era então Qayt-Bey, Chamado também Melik-el-Achraf (rei muito nobre). Reinava havia vinte annos (…) o Egypto achava-se em relativo socego e prosperidade.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;15&lt;/a&gt;. Era esta a situação quando P. da Covilhã esteve no Egipto.&lt;br /&gt;Após alguns contratempos (doença e desaparecimento da mercadoria de mel), os dois viajantes saíram do Cairo, provavelmente “...pelo mez de abril a maio do anno de 1488.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;16&lt;/a&gt;. Estiveram cerca de nove meses no Egipto.&lt;br /&gt;Na companhia de um grupo de mercadores magrebinos partiram do Cairo em direcção ao Mar Vermelho. Embarcaram em Tor para Adém, um percurso que não demoraria menos de dois meses&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;17&lt;/a&gt;. A viagem no Mar Vermelho era muito demorada. Por causa dos baixios e dos recifes só se podia viajar de dia. Ainda antes de chegarem ao extremo sudoeste da Península Arábica, fizeram uma pequena escala em Suakim, na actual costa sudanesa – P. da Covilhã nunca estivera tão perto da Abíssinia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2) &lt;em&gt;Adém&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A pequena distância que separa Adém do estreito de Bab-al-Mandab e as suas boas condições naturais, tornaram-no desde a Antiguidade um porto comercial e marítimo bastante importante. O primeiro europeu a ter conhecimento da importância de Adém foi Marco Polo em 1295. No século XIV, Ibn-al-Wardi e Ibn Khaldum referem-se situação estratégica deste porto no comércio Índico – Mar Vermelho – Mediterrâneo.&lt;br /&gt;Entre 1229 e 1454, o Iémen, do qual a cidade de Adém faz parte, foi governado pela dinastia sunita dos Rassulidas, sucessora dos Aiubidas egípcios. Durante este período foi encorajado o comércio com o restante mundo islâmico e também com o extremo Oriente. Os séculos XIII-XIV- inícios XV foram de prosperidade no Iémen, graças, em parte, ao dinamismo da cidade portuária de Adém. Desde 1442 até à conquista otomana de 1517, o período foi de anarquia. Aos Rassoulidas sucedeu uma outra dinastia sunita de menor importância, os Tahiridas.&lt;br /&gt;Em 1488, Adém era um pequeno potentado muçulmano autónomo, com graves conflitos em seu redor. O declínio definitivo aconteceu com o desvio do tráfico no Índico pelos portugueses após 1498.&lt;br /&gt;Em Adém, P. da Covilhã e Afonso de Paiva separaram-se. O primeiro partiu para a Índia, o segundo para a Abissínia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3) &lt;em&gt;Índia&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A conquista muçulmana da Índia começou verdadeiramente a partir de 1175. Todavia, a norte – Sind (na bacia inferior do rio Indo, conquistada em 712), Cabul (no actual Afeganistão) e o Punjab – a conquista islâmica foi bastante anterior. A expansão islâmica foi contínua e gradual até 1340, momento do começo da contracção que durou até 1556, com Akbar, o maior soberano do Império Mohgol. Como apontamento, devemos salientar que este Império Mohgol, fundado por Babur, na Índia (1526/1858) é juntamente com mais dois – o Otomano (1300/1918), na Ásia Menor, e o Sefévida (1501/1736), na Pérsia – consequência da decadência do Império de Genghis Khan e, depois, de Tamerlão. Portanto, estes três Impérios – o Mohgol, o Otomano e o Sefévida (estes entram em ruptura com o restante mundo muçulmano, pois são xiitas) – vão ocupar o espaço, anteriormente ocupado por Tamerlão e, efemeramente, pelos seus sucessores, os Timúridas. Estes três Impérios que marcaram a passagem da Idade Média para a Idade Moderna no mundo islâmico, foram a consequência lógica do processo de construção e expansão da civilização islâmica. Dentro do enorme território muçulmano, só a África ocidental (incluindo Marrocos, que teve um desenvolvimento autónomo sobre os Marinidas e os Sa’adidas) e o sudeste asiático ficaram de fora da alçada destes três Impérios.&lt;br /&gt;A ocupação muçulmana da Índia deveu-se, essencialmente, a contínuas vagas migratórias de povos da Ásia Central: turcos, afegãos, mongóis&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;18&lt;/a&gt;, devidamente islamizados. O primeiro passo para a penetração do Islão na Índia profunda foi a fundação do Sultanato de Deli. As campanhas de Muhammad de Ghur (Ghur era um pequeno principado junto a Herat, no Afeganistão) entre 1175 e 1206 e, particularmente, as vitórias nas batalhas de Taraori (1192) e Chandawar (1194), foram indispensáveis para a conjugação desses dois elementos. O Sultanato de Deli tornou-se, debaixo de diversas dinastias, o principal Estado do norte da Índia.&lt;br /&gt;Como consequências desse poder surgiram as incursões muçulmanas ao sul do sub-continente, nomeadamente ao Decão, e a respectiva resistência Hindu ao Islão. Essa resistência foi promovida sobre a forma de Estados coesos – Orissa, Pandya e Vijayanagar – esta última, que em sânscrito significa “Cidade da Vitória” e na designação portuguesa é conhecida como Bisnaga, foi fundada em 1336 e teve um papel notável como travão ao avanço islâmico em direcção ao sul, a partir de 1340. Este Estado Hindu desapareceu na sequência de uma campanha, organizada pelos reinos sucessores do poder Bahamanida, em 1565, na batalha de Talikota.&lt;br /&gt;Pela mesma época, em 1347, surge uma alteração geo-política no mundo muçulmano. Com o sultão Muhammad ibn Tughluq, surgiram problemas internos, dando origem no sul ao reino muçulmano de Bahmani, formado por nobres descontentes e fundado por ‘Ala-ud-Din Bahman Shah. Atingiu o auge do seu poder entre 1466 e 1481. Entre 1490 e 1518 o sultanato de Bahamani dissolveu-se em cinco pequenos Estados: Golconda, Berar, Bijapur, Ahmadnagar e Bidar – os mesmos que em 1565 destruíram o reino de Vijayanagar, como vimos.&lt;br /&gt;Assim, o Estado Hindu de Vijayanagar e o Estado Islâmico de Bahmani, na fronteira norte do primeiro, bem como outros pequenos potentados, marcavam a paisagem geo-política do sul da Índia. As guerras entre estes dois importantes Estados eram frequentes e devastadoras.&lt;br /&gt;A nível cultural e religioso, o islamismo e o hinduísmo entraram quase sempre em choque – hoje ainda visível nos problemas hindu-paquistaneses. Contudo, as influências mutuas marcaram, também, as relações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nesta Índia, espartilhada pelos poderes muçulmanos e hindus no sul e com predominância islâmica no norte, que P. da Covilhã vai permanecer alguns meses, preparando a viagem de Vasco da Gama. Visitou três cidades importantes da costa ocidental da Índia: Cannanor, Calicut e Goa.&lt;br /&gt;Cannanor era um porto comercial na costa do Malabar “...por onde se fazia parte do commercio para o rico reino interior de Bijayanagara, chamado pelos nossos de Narsinga&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;19&lt;/a&gt;, e onde se encontravam já muitas especiarias...”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn8" name="_ftnref8"&gt;20&lt;/a&gt;. Pouco tempo depois, P. da Covilhã partiu para Calicut.&lt;br /&gt;Calicut era um pequeno Estado hindu. Os seus soberanos tinham o título de samorim. A sua grande prosperidade e riqueza era devida à sua excelente posição geográfica: “...terminus da navegação oriental, e o terminus da navegação occidental.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn9" name="_ftnref9"&gt;21&lt;/a&gt;. A colónia islâmica tinha uma grande importância no comércio. No início de 1489 partiu para Goa.&lt;br /&gt;Situada mais a norte, Goa apresentava uma realidade diferente. Era uma cidade muçulmana incluída no reino Bahamani&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn10" name="_ftnref10"&gt;22&lt;/a&gt;. A sua importância comercial era crucial no comércio do Mar da Arábia. A partir daqui P. da Covilhã abandonou a Índia e viajou em direcção a Ormuz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4) &lt;em&gt;Ormuz&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Esta cidade, situada numa ilha, na entrada do Golfo Pérsico existia “...havia já perto de dois seculos (...) era uma cidade commercial de primeira importancia, capital de um estado independente, onde reinava n’aquele Xawes ou Salgor...”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn11" name="_ftnref11"&gt;23&lt;/a&gt;. Esta era a nova Ormuz, fundada no início do século XIII.&lt;br /&gt;A velha Ormuz situava-se no continente e foi visitada em 1272 e 1293 por Marco Polo, abandonada no século XIII por motivos de segurança deu lugar a uma nova Ormuz, melhor apetrechada. De facto, esta nova Ormuz insular era um verdadeiro empório comercial, tal como Ibn Battuta a descreveu no século XIV. A sua prosperidade advinha do facto de geograficamente estar no cruzamento das principais rotas terrestres e marítimas do comércio oriental – por lá passavam os produtos para a Pérsia e a Síria – daí o interesse de P. da Covilhã em visitá-la. Em 1507, com Afonso de Albuquerque, Ormuz passaria a ser um protectorado português.&lt;br /&gt;Geograficamente, Ormuz pertence à Pérsia (hoje Irão), contudo, manteve sempre alguma autonomia política, fossem as grandes potências próximas Timúridas, Sefévidas ou Portugueses.&lt;br /&gt;De Ormuz, P. da Covilhã, provavelmente, viajou para Sofala, situada no Canal de Moçambique, entre a costa africana e Madagáscar. Na Verdadeira Informação... existem algumas incongruências, pois o Padre Francisco Alvares, refere primeiramente que o viajante partiu de Ormuz para o Egipto&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn12" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn12" name="_ftnref12"&gt;24&lt;/a&gt;, para pouco depois referir que visitou Sofala&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn13" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn13" name="_ftnref13"&gt;25&lt;/a&gt;. Na versão de Ramusio, a referência a Sofala é mais concreta&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn14" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn14" name="_ftnref14"&gt;26&lt;/a&gt;. É, então, indispensável tentar interpretar o complexo panorama da África Oriental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5) &lt;em&gt;Sofala – a África Oriental muçulmana&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A “colonização” islâmica da costa ocidental africana está intimamente ligada com a navegação comercial do oceano Índico. O sistema de ventos provocado pelas monções tornam a navegação do Índico bastante acessível, se compararmos, por exemplo, com o Atlântico. Esses ventos empurram, de Verão, as embarcações na direcção da Arábia e da Índia, no Inverno, em direcção a África. Estes ventos funcionam de forma regular até, pelo menos, à entrada do Canal de Moçambique.&lt;br /&gt;Estas águas eram já sulcadas desde o Egipto helenístico e, depois, pelos sassânidas. No século VII, os árabes começaram a dominar a navegação e o comércio oceânico. Como consequência começaram a instalar-se em povoações ao longo da costa. Essa ocupação, inicialmente temporária, começou a estabilizar-se em cidades ao longo do século IX e X, que cresceram, transformando-se em urbes de relativa grandeza ao longo do século XII e XIII – Zeila, Mogadíscio, Zanzibar, Quíloa...&lt;br /&gt;No decorrer do século XIII, o comércio na costa sul (actual Quénia e Tanzânia) tornou-se mais lucrativo do que no norte (actual Somália). No século XIII e XIV, Quíloa era a mais rica e bela das cidades comerciais muçulmanas da costa oriental africana, isto segundo as palavras do incansável viajante trezentista Ibn Battuta. Este povoamento urbano árabe criou uma rede de ocupação bastante coesa no Sahil&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn15" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn15" name="_ftnref15"&gt;27&lt;/a&gt;, contribuindo para uma profunda aculturação dos Bantos do interior. Esta sociedade árabe-suaíli permitiu o aceso a produtos do interior do continente, tais como o ouro (do Zimbabué), o marfim e os escravos negros. Estas mercadorias mais abundantes no sul, convenceram os mercadores a navegar nas difíceis águas do Canal de Moçambique. Neste momento surge Sofala, fundada ou conquistada pelos muçulmanos no fim do século XII. À medida que o comércio no sul ia ganhando importância, também Sofala, dada a sua proximidade do Zambeze e das fontes auríferas, se ia tornando uma cidade de aportagem inevitável.&lt;br /&gt;Portanto, foi este rico comércio levado a cabo por cidades-estado mercantis muçulmanas que levaram, entre fins de 1489 e inícios de 1490, P. da Covilhã a Sofala. Esta viagem de reconhecimento – parou certamente em outras povoações árabes mais a norte – deu informações preciosas à armada de Vasco da Gama em 1498 (que não parou em Sofala), e culminou com a conquista portuguesa de Sofala em 1505.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6) &lt;em&gt;Regresso ao Cairo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;A viagem até ao Egipto fez-se sem problemas. As surpresas estavam reservadas para mais tarde. Aqui soube da morte de Afonso de Paiva (nunca se saberá se chegou ou não à Abíssinia) e encontrou-se com dois judeus portugueses enviados por João II. Enviou uma carta a João II e recebeu, então, mais duas missões: a primeira era mostrar Ormuz ao rabi Abraham&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn16" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn16" name="_ftnref16"&gt;28&lt;/a&gt;, a segunda era concluir missão de A. de Paiva, isto é, encontrar o Preste João – o soberano da Abíssinia cristã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A segunda viagem a Ormuz: foi uma repetição da primeira viagem. Permaneceu lá algum tempo, acabando por se separar do rabi Abraham – seguiu para Portugal por terra até à Síria. P. da Covilhã encetou a sua viagem até à Arábia&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn17" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn17" name="_ftnref17"&gt;29&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;13&lt;/a&gt; Mamlouk: “possuído”; “escravo branco”. Outro termo para designar escravo é abd: mas, o sentido é bastante diferente – negros destinados ao exército.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;14&lt;/a&gt; Histoire Générale des…&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;15&lt;/a&gt; FICALHO, pp 81&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;16&lt;/a&gt; FICALHO, pp 84&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;17&lt;/a&gt; FICALHO, pp 83&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;18&lt;/a&gt; HEERS, pp 363&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;19&lt;/a&gt; governador de uma província de Vijayanagar, que tomou o poder entre 1485-1490. Abriu novos portos na costa oeste.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn8" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref8" name="_ftn8"&gt;20&lt;/a&gt; FICALHO, pp 87&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn9" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref9" name="_ftn9"&gt;21&lt;/a&gt; FICALHO, pp 89&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn10" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref10" name="_ftn10"&gt;22&lt;/a&gt; FICALHO refere o estado de instabilidade interna do reino de “Deckan, sob a dinastia independente de Bahmany.”, pp 93.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn11" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref11" name="_ftn11"&gt;23&lt;/a&gt; FICALHO, pp 96&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn12" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref12" name="_ftn12"&gt;24&lt;/a&gt; “...e foi a Ormuz e tornou ao Toro e ao Cairo em busca do seu companheiro....”, Cap. CIV&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn13" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref13" name="_ftn13"&gt;25&lt;/a&gt; “...vindo demandar a costa de Sofala em que ele também fora ou uma grande ilha a que os mouros chamavam ilha da Lua.”, Cap. CIV. Ver também CASTANHEDA – Livro I, cap. I, pp. 9: “... foy ter a Cananor, &amp; dahi a Calicut, q vio q era naqle tempo a principal efcala da cofta da India, &amp;amp;amp; dahi foy ver a ilha de Goa. &amp; foy a çofala &amp;amp; á ilha que agora chamam de sam Loureço q os mouros chamauão da lua, &amp; defpois á Dormuz.”&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn14" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref14" name="_ftn14"&gt;26&lt;/a&gt; “...con una nave se ne vene verso il mar Rosso, e montó á Zeila (...) tanto andó che giunse fin al luogo di Cefala.”. A referência a Zeila é importante, visto que é a principal porta de entrada na Abíssinia – esta paragem talvez se deve-se ao desejo de P. da Covilhã ter notícias de A. de Paiva.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn15" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref15" name="_ftn15"&gt;27&lt;/a&gt; Sahil – litoral, praia. SABBAGH, A. N.; Dicionário árabe-português-árabe; Rio de Janeiro. Este vocábulo dá origem à palavra Suaíli (povo da costa). A língua Suaíli, apesar de banto, tem milhares de vocábulos arábicos. Hoje é falada na Tanzânia e compreendida desde a Somália até Moçambique e do litoral até ao Alto Congo.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn16" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref16" name="_ftn16"&gt;28&lt;/a&gt; “E mandado este recado a El-Rei pelo judeu de Lamego, se fora o Pêro da Covilhã com o outro judeu de Beja até Adem, e dai a Ormuz, e o deixou aí...”. Verdadeira Informação...&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn17" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref17" name="_ftn17"&gt;29&lt;/a&gt; “...e daí tornou-se e veio ver Judá, e Meca, e Medina (...) e daí a Monte Sinai...”. Verdadeira Informação..., Cap. CIV&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-113386861823179499?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/113386861823179499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/113386861823179499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/12/o-mundo-islmico-e-pro-da-covilh-parte.html' title='O Mundo Islâmico e Pêro da Covilhã - Parte III'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111498962574470630</id><published>2005-05-02T00:18:00.000+01:00</published><updated>2005-05-02T00:20:25.753+01:00</updated><title type='text'>O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Viagens ao Magreb&lt;br /&gt;Entre esta missão de espionagem e a grande viagem à Índia, P. da Covilhã empreendeu duas curtas viagens à Berbéria. Era a sua primeira estadia no “Ocidente do Oriente”. As viagens a Tlemcen e ao “reino da Enxouvia” – nome que as crónicas portuguesas dão ao território dos berberes Chauia (pastores), a norte de Azamor&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;8&lt;/a&gt;. Antes de analisarmos as viagens propriamente ditas, vamos tentar decifrar a confusa História magrebina do século XV e a presença portuguesa no Norte de África.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Magreb entre os séculos XI e XV, teve um percurso histórico independente do restante mundo muçulmano. Até ao século XIII existiu uma união magrebina e hispânica, cimentada por duas dinastias berberes, intimamente relacionadas com a resistência à ofensiva cristã Ibérica da Reconquista. De facto, os Almorávidas (1053-1147) e os Almóadas (1130-1276) – estes últimos submeteram os primeiros pela força – fizeram reviver o sunismo e a força muçulmana no Magreb e na Hispânia graças a um profundo puritanismo e unitarismo religioso, baseado na Jihad. A estes Impérios Universais sucederam três reinos: o Marinida, em Fez, o Zianida ou Abdeluádida, de Tlemcen – estes dois fundados por um dos mais importantes grupos berberes, os Zenatas – e o Hafécida, em Tunes – representantes da continuação do poder Almóada&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;9&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;No século XV estes reinos enfrentavam três problemas que levaram ao seu desaparecimento: as incursões e consequente ocupação de importantes pontos estratégicos, por parte dos Estados Ibéricos na costa Norte Africana, começando tudo com a conquista portuguesa de Ceuta; o avanço imparável das forças otomanas em direcção ao Ocidente, quer em direcção ao leste europeu, quer ao Magreb (em 1575 já tinham conquistado Argel, só Marrocos escapou ao domínio otomano); as próprias querelas intestinas dentro dos próprios reinos e as guerras levadas a cabo entre eles.  Qual era, então, a situação política nesses reinos aquando das viagens de P. da Covilhã? &lt;br /&gt;Em meados da década de 80, os reinos do Magreb estavam em progressiva decadência. A analise vai incidir principalmente sobre o reino Zianida e o Marinida, respectivamente, dado que foi nesses territórios que P. da Covilhã esteve.&lt;br /&gt;Ao abrir o século XV, o reino Hafécida de Tunes era a maior potência do Magreb: fortaleceu-se internamente, pois acabou com os principados independentes (Tripoli, Gafsa...); recebia tributos doutros Estados muçulmanos; mantinha relações comerciais com potências cristãs, apesar da pirataria mútua; tinha grandes áreas de terra fértil e o maior backgroud em sistemas de organização política. Mas, nunca teve uma organização militar da envergadura do reino Marinida. Estes factos reflectiram-se no equilíbrio político magrebino.&lt;br /&gt; Na época da viagem, o Estado Zianida mantinha relações de vassalagem para com os Hafésidas (como já tivera com os Marinidas) desde 1424, quando o sultão Abu Faris atacou Tlemcen. Essa vassalagem foi confirmada pelas expedições de Abu ‘Amr ‘Uthman, dirigidas contra Tlemcen, nos anos de 1462 e 1466. Contudo, apesar de dominado, o reino Zianida e a sua capital mantinham-se teoricamente independentes. Tlemcen, aquando da estadia de P. da Covilhã, era uma cidade pitoresca, com uma vida religioso-cultural e comercial activa – “...rodeada de jardins e pomares regados (...) por mil fontes, possuindo magníficos palácios, mesquitas e escolas afamadas (...) havia um comércio florescente e uma indústria activa.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;10&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;O viajante foi a Tlemcen “...comprar alambéis e fazer pazes com El-Rei de Tremezém...”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;11&lt;/a&gt;. O primeiro função era compreensível, visto que Tlemcen era famosa pelos seus alambéis&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;12&lt;/a&gt;. Quanto ao objectivo de fazer as pazes, a analise já não é tão clara, por vários factores: entre Portugal e Tlemcen não havia guerra e o reino Zianida estava fora da esfera de influência lusitana. Portanto, as únicas explicações possíveis são o desejo de contactos diplomáticos entre os dois Estados, no sentido de Portugal garantir a neutralidade destes em relação às pretensões lusas no Reino Marinida vizinho e, também, de controlar as operações castelhanas naquela área&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;13&lt;/a&gt;, que pouco depois, estes últimos haveriam, efectivamente, de dominar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Magrib al-Aqsa (Ocidente extremo), é denominado nas fontes cristãs por Berbéria ou por Reino de Belamarim – corruptela de Banu Marin, nome da família que fundou a dinastia Marinida (1258-1465), e que sobreviveu até ao advento da dinastia Sa‘adiana dos Xerifes de Marraquexe, apesar da sua decadência se iniciar em meados do século XIV.&lt;br /&gt;Em 1358, Abou Inan é assassinado e começa a desagregação do Império – no reinado anterior, a influencia Marinida alastrara-se até ao reino Zianida, a Granada e às rotas caravaneiras – e o enfraquecimento do poder central. Os sultões passariam a ser joguetes nas mãos de vizires. Um marco importante na História marroquina é a rebelião de al-Mu’tamid em Marraquexe, com o apoio dos Hintata do Alto Atlas, pois começa uma tradição independentista nesta cidade do Sul, culminado nos Sa‘adidas, que em 1554 conquistam Fez. &lt;br /&gt; O canto do cisne do poder Marinida foi o reinado de Abu Faris ‘Abdul-‘Aziz (1366-1372), durante o qual algum do poder foi restaurado, embora efemeramente. Os sultões sucessores voltariam a ser fantoches de diferentes interesses, nomeadamente da dinastia Nazarí de Granada, com Muhammad V – a conquista cristã de Ceuta acaba com essa influência.&lt;br /&gt;Com o assassínio do Marinida Abu Sa‘id (1420), começa a chamada regência Oatácida. Esta durou até 1457, quando ‘Abdul-Haqq repôs os Marinidas no poder. Uma reforma fiscal levada a cabo por este último Marinida, foi o pretexto para a Revolução Idrissida. Fez, durante 6 anos, foi governada pelo sharif al-Juti.&lt;br /&gt;Em 1472, Muhammad al-Shaikh fundou a dinastia Oatácida – sucessores dos Marinidas – (em 1420, foram apenas regentes). Este Sultão governou até 1505.&lt;br /&gt;Estas transformações políticas foram agravadas por lutas étnicas e sociais entre berberes e árabes – estes últimos acabam por vencer, integrando o governo e ocupando as melhores terras. Os berberes Zenatas não arabizados resistirão no Rift e em algumas zonas do Atlas. A partir dessa resistência berbere vão ter origem as zaouia e os marabutos, elementos religiosos que vão apelar à Jihad contra a presença portuguesa.&lt;br /&gt;Vemos, então, que o inicio da expansão portuguesa no Magreb atlântico coincide com a decadência da dinastia Marinida, prosseguindo durante o período Idrissida e a dinastia Oatácida. Esta desagregação e instabilidade facilitou a conquista portuguesa das praças marroquinas. Quando P. da Covilhã fez a sua segunda visita à Berbéria, Portugal dominava Ceuta (1415), Alcácer Ceguer (1458), Arzila (1471), Larache (1471), Tânger (1471) e Safim (1480). O reino de Fez (o nome Marrocos só surge com os Sa‘adidas) era, como vimos, governado por Muhammad al-Shaikh (o Muleixeque das crónicas portuguesas). &lt;br /&gt;Esta demorada introdução à evolução política do Magrib al-Aqsa, permite-nos analisar com maiores certezas a missão de P. da Covilhã.&lt;br /&gt;“...fora mandado à Berberia Moli Belagegi, o que mandou a ossada do Infante D. Fernando (...) para lhe lá comprar cavalos...” Esta passagem da Verdadeira Informação revela-nos alguns pontos importantes: P. Covilhã não fora enviado a Muhammad al-Shaikh, mas sim ao, segundo as crónicas cristãs, rei da Enxouvia, com quem já tinham sido mantidos contactos. A compra pode ser pretexto ou um objectivo paralelo.&lt;br /&gt;Este rei da Enxouvia seria um vassalo poderoso do rei de Fez – factor sintomático da desagregação do poder Oatácida. O encontro teria decorrido próximo de Azamor. A verdade é que pouco depois Azamor se colocaria debaixo da suserania e protecção portuguesa, muito à semelhança do que havia acontecido com Arzila em 1471. Seria ainda o efeito da trégua de 20 anos, assinada em 1471, por Afonso V e Muhammad al-Shaikh? A verdade é que este último em troca de algumas praças conseguiu diminuir a pressão portuguesa, ganhando com isso um reino.&lt;br /&gt;Não se sabe se este sucesso em Azamor foi devido à intervenção de P. da Covilhã. Mas, pelo menos, estas curtas estadias no Magreb serviram para o viajante se acercar dos problemas muçulmanos e para se aperfeiçoar ainda mais na língua e nos costumes. A grande viagem estava prestes a começar. &lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;8&lt;/a&gt; FICALHO, pp. 52&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;9&lt;/a&gt; ABUN-NASR, pp 8 e 120&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;10&lt;/a&gt; FICALHO, pp. 49&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;11&lt;/a&gt; “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;12&lt;/a&gt; “Alambel – Pano de cores para cobrir mesas, bancos, etc. (...) do árabe al-hanbal ?” (Dicionário de português – Porto Editora).&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;13&lt;/a&gt; CORTESÃO, Jaime não concorda com esta hipótese. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111498962574470630?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111498962574470630'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111498962574470630'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/05/o-mundo-islmico-e-pro-da-covilh-parte.html' title='O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte II'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111395255895725810</id><published>2005-04-20T00:12:00.000+01:00</published><updated>2005-04-20T00:15:58.966+01:00</updated><title type='text'>O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Sumário: as viagens de Pêro da Covilhã – cuja principal fonte da época é a Verdadeira Informação da Terra do Preste João das Índias, escrita pelo Padre Francisco Álvares, que ouviu as palavras de Pêro da Covilhã na Abíssinia – passaram inevitavelmente pela civilização islâmica. O mundo muçulmano atravessava longitudinalmente o Velho Mundo desde Granada até aos reinos islâmicos da Índia, portanto, grande parte dessas viagens foi feita em territórios islamizados. Essas viagens foram compostas por oito etapas&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;[1]&lt;/a&gt;, das quais só a segunda não é abrangida pelo âmbito deste trabalho:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;1)     1467 a 1474: primeira permanência em Castela, em Sevilha ;&lt;br /&gt;2)     1476 a 1477: viagem à França e Borgonha;&lt;br /&gt;3)     1483 a 1484: segunda permanência em Castela;&lt;br /&gt;4)     1485 a 1486: viagens ao Magreb: a Tlemcen e, depois, ao reino de Fez;&lt;br /&gt;5)     1487 a 1491: viagem à Índia:&lt;br /&gt;                   Santarém – Lisboa – Valência – Barcelona – Nápoles – Rodes – Alexandria – Cairo – Suez – Tôr – Suakim – Adém – Cannanore – Calecut – Goa – Ormuz – Sofala – Adém – Suez – Cairo;&lt;br /&gt;6)     1491: segunda viagem a Ormuz;&lt;br /&gt;7)     1492: viagem pela península arábica:&lt;br /&gt;                    Ormuz – Jiddah – Meca – Medina – Sinai;&lt;br /&gt;8)     1493: entrada na Abíssinia por Zeila – permaneceu lá até à sua morte, possivelmente em finais da década de 20 de Quinhentos.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos, assim, sete momentos que atravessam uma boa parte da segunda metade do século XV e inícios do século XVI (845 até 907 da Hégira, aproximadamente). Através desses relatos das viagens de Pêro da Covilhã, temos a possibilidade de percorrer o mundo muçulmano desde o Sul da Península Ibérica – apesar da Reconquista cristã os 800 anos de presença árabe deixaram marcas perenes e irreversíveis – até à distante Índia islâmica, passando pelo Magreb, Egipto mameluco e Arábia, subindo e descendo o Mar Vermelho e o Golfo Pérsico até tudo culminar na Abíssinia – enclave cristão em guerra permanente com os reinos muçulmanos que a rodeavam.&lt;br /&gt;Em suma, vamos poder analisar todo esse grande hemisfério islâmico sob vários pontos de vista, num momento em que Portugal se preparava para entrar no oceano Indico a partir da rota do Cabo, gerando-se, assim, antagonismos entre cristãos e muçulmanos, à semelhança do que vinha acontecendo na Ibéria e no Magreb, aqui principalmente após 1415.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Juventude Andaluza&lt;br /&gt;Com aproximadamente 20 anos, Pêro da Covilhã, beirão de família humilde, foi para Castela colocar-se ao serviço do primeiro duque de Medina Sidonia, passando, então a viver na cidade de Sevilha&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;2&lt;/a&gt;. Assim, durante cerca de 7 anos, “serviu” o Duque João Afonso e mais tarde o seu filho o Duque Henrique de Gusmão.&lt;br /&gt;Analisaremos esta etapa segundo duas perspectivas: a situação política e a tradição cultural islâmica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estadia de Pêro da Covilhã em Sevilha verificou-se desde meados do reinado de Henrique IV de Castela até ao início da guerra Luso-Castelhana (1475-80), provocada pelos problemas na sucessão ao trono castelhano. O processo culminou com a coroação de Isabel, a Católica. Henrique IV durante o seu reinado não conseguiu acabar ou atenuar a supremacia da nobreza em Castela. A política sevilhana desta época é um exemplo paradigmático do enfraquecimento do poder real em favor de uma nobreza cada vez mais forte e impune. A cidade andaluza estava dividida em duas facções rivais. Uma delas era o grupo do Duque de Medina Sidonia, o outro era o grupo do Conde dos Arcos, e mais tarde Marquês de Cádiz. Estas rivalidades desencadearam algumas verdadeiras batalhas, tudo na mais perfeita impunidade. Esta era a conjuntura política que P. da Covilhã encontrou em Castela, nomeadamente em Sevilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Durante el reinado de Enrique IV (1454-1474) la morofilia invadió los medios cortesanos...”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;3&lt;/a&gt; De facto, alguns elementos da cultura e tradição islâmica estavam latentes na vida e cultura castelhanas, principalmente no sul dada a recente Reconquista. Sevilha era um caso premente nesse aspecto, como veremos adiante.&lt;br /&gt;Castro&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;4&lt;/a&gt; enumera alguns desses elementos usados na vida quotidiana e cultural castelhana, como na portuguesa ou catalã, reveladores de uma importante islamização: os arabismos na línguas ibéricas; os banhos públicos; os lenços sobre as cabeças femininas; as formas de expressão corteses ritualizadas, como por exemplo, “ésta es su casa” (“Al-bayt baytak) ou o “¡Venga usted a comer!) ou mesmo “si quiere Dios”, o ibérico ojalá/oxalá (wa sa’a-l-lah); os temas mouriscos na poesia castelhana medieval; a islamofília dos cortesãos castelhanos (mencionado acima) que ia desde a moda à forma de cavalgar à gineta.&lt;br /&gt;A Sevilha que P. da Covilhã encontrou transpirava tradição islâmica. Reconquistada apenas em 1248 e demasiado perto das influências granadinas e magrebinas, Sevilha era quase demasiado muçulmana para ser castelhana.&lt;br /&gt;Aqui o viajante entrou em contacto com a língua e o modus vivendi muçulmano, algo indispensável para as missões futuras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No séquito de Afonso V de Portugal&lt;br /&gt;A morte de Henrique IV (1474) despoletou uma crise sucessória entre a sua irmã Isabel e a sua esposa Joana. Esta última era também irmã de Afonso V, daí a activa participação do rei português nessa crise, levando à guerra entre os dois reinos. Foram estas as vicissitudes que em parte levaram P. da Covilhã a regressar a Portugal e a integrar-se no núcleo de servidores do rei “...na qualidade de moço de esporas, mas sendo logo accrescentado a escudeiro, servindo de armas e cavallo.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;5&lt;/a&gt;. Em 1476, a batalha de Toro, em território castelhano, foi desfavorável às tropas lusitanas. Daí a necessidade urgente de apoio internacional, logo a consequente viagem à França e à Borgonha, que não surtiu efeito.&lt;br /&gt;P. da Covilhã acompanhou de perto toda esta evolução, quer as incursões militares, quer a viagem diplomática.&lt;br /&gt;Apesar dos esforços de Afonso V, Isabel e o seu marido Fernando, rei de Aragão, transformaram-se nos reis católicos, elevando Castela ou pouco depois a Espanha unificada ao estatuto de maior potência europeia. Portugal já não estava só na expansão ultramarina, pois a Espanha, no admirável ano de 1492, conquistou o reino Nazarí de Granada – o último bastião muçulmano na Península Ibérica e Colombo descobriu o continente, mais tarde denominado de americano. O Tratado de Tordesilhas (1494) confirmou o poder Ibérico no Velho e no Novo Mundo.&lt;br /&gt;Após as experiências adquiridas na sua juventude, nomeadamente o contacto com os costumes e a língua árabe, P. da Covilhã estava preparado para passar à próxima etapa: o Magreb. Antes, porém, seria espião em Espanha.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao serviço de João II&lt;br /&gt;“E falecido El-Rei D. Afonso, ficara com El-Rei D. João, seu filho, ao qual servira de escudeiro da guarda até às traições que El-Rei mandou andar em Castela porque sabia falar castelhano, para saber quais eram os fidalgos que se deitavam lá.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn6" name="_ftnref6"&gt;6&lt;/a&gt;. Um dos grandes projectos de João II era a criação de um Estado Moderno. Portanto, o primeiro passo era acabar com os poderes instituídos da velha nobreza que logo se mostraram disponíveis para lutar contra esses desejos régios. A luta intensificou-se. Fidalgos, como o Duque de Bragança, foram acusados de alta traição a favor dos reis católicos. Com o acentuar da perseguição régia, alguns nobres optaram pelo exílio em Castela. Todavia, para João II o perigo não acabara, bem pelo contrário, o grupo de exilados poderia formar um foco de conspirações junto de Castela. Eram, por isso, necessários agentes secretos que vigiassem e informassem Lisboa.&lt;br /&gt;Assim, P. da Covilhã regressou, como foi dito a “...Castela porque sabia falar castelhano, para saber quais eram os fidalgos que se deitavam lá.”&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftn7" name="_ftnref7"&gt;7&lt;/a&gt;. Este curto episódio de espionagem foi certamente aproveitado pelo viajante para aperfeiçoar a língua árabe e conhecer ainda melhor os costumes muçulmanos.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; As cronologias apontadas são meramente aproximativas, visto que na principal fonte utilizada “Verdadeira Informação...” os apontamentos a este nível são escassos.&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;2&lt;/a&gt; “...e em sua mocidade se fora a Castela a viver com D. Afonso, duque de Sevilha...” Verdadeira Informação..., Capítulo CIV&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;3&lt;/a&gt; CASTRO:1948, pp. 94&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;4&lt;/a&gt; Ibidem, capítulo III&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;5&lt;/a&gt; FICALHO, pp 37&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn6" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref6" name="_ftn6"&gt;6&lt;/a&gt; “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn7" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8623503#_ftnref7" name="_ftn7"&gt;7&lt;/a&gt; “Verdadeira Informação...”, Cap. CIV&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111395255895725810?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111395255895725810'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111395255895725810'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/04/o-mundo-islmico-e-pro-da-covilh-parte.html' title='O Mundo islâmico e Pêro da Covilhã – Parte I'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111317747816374399</id><published>2005-04-11T00:56:00.000+01:00</published><updated>2005-04-11T01:02:20.406+01:00</updated><title type='text'>Pensamento do dia: os Vizinhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Tenho alguma inveja das relações de vizinhança que a minha mãe consegue estabelecer. Se caminhar cem metros ao longo da rua em que vive pára dez vezes, falando com velhos, adultos ou crianças… «Está melhor da perna dona Maria?» ou «Vais ver António, tudo correrá bem no trabalho!» ou «Ouve lá miúdo, nunca mais te vejo a jogar naquele Estádio…». A mulher é uma conversadora nata, jamais lhe faltou ou faltará tópico para encetar a amena cavaqueira! Posso contra-argumentar: «as mulheres são mais palradoras». Até posso concordar… Mas será que o meu bom tio é uma Roberta Close invertida? Que a maioria dos meus amigos são fêmeas escondidas? Isto parece-me demasiado misógino…&lt;br /&gt;Após muito pensar cheguei à conclusão que o problema consiste em mim, sou portador do sindroma do elevador. Situação típica: acordo de bem com a vida, tomo o duche matinal e preparo-me para sair, comprar o jornal e lê-lo enquanto tomo um faustoso pequeno-almoço numa esplanada solarenga à beira-mar. Nada mais animador e estimulante. Contudo, chego ao elevador onde conversam animadamente duas vizinhas enquanto esperam pelo lento transporte. Aproximo-me, solto um vulgar «Bom dia!» e… cai um glaciar sobre o momento. Não tenho nada para dizer-lhes! Que poderei conversar com duas pessoas sem nome, cujo único ponto em comum comigo é viverem ao lado, em cima ou em baixo do sitio onde moro? Do tempo? Do poio canino que calquei em plena escadaria? Dos berros do puto do terceiro andar? E se elas preferem a chuva, são donas do cão ou madrinhas do puto? Todas estas variáveis devem ser levadas em conta. Julgo, assim, que o silêncio é a melhor resposta. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111317747816374399?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317747816374399'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317747816374399'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/04/pensamento-do-dia-os-vizinhos.html' title='Pensamento do dia: os Vizinhos'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111317804560209394</id><published>2005-03-30T01:06:00.000+01:00</published><updated>2005-04-11T01:07:25.606+01:00</updated><title type='text'>Pensamentos de um portista que já não quer ser portista</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Estes labregos do Norte ainda não tomaram consciência do seu verdadeiro lugar no panorama futebolístico nacional… Um clube cujos adeptos são “emplastros” ou “macacos” e as adeptas têm a tendência de dar palmadinhas rítmicas na vagina em pleno berço da nacionalidade não merece respeito! Já apreciaram as festas futebolísticas naquela Baixa decadente e aparentemente recém bombardeada? Quando o Futebol Clube do Porto, para mal da Nação, vence um campeonato, aquela praça terceiro mundista parece a Quinta das Aberrações. «Só queremos ver o Puarto campeom, o Puarto campeom, o Porto campeom…». Deus, isto não existe… Essa pequena cidade tem o clube que merece… um clube regional que, a sul, não passa de Gulpilhares e que para lá da circunvalação é fortemente odiado por adeptos também encarnados. O Futebol Clube do Porto alguma vez teve um Eusébio? Já esteve em sete finais dos campeões europeus? Esse pequeno clube tem sessenta mil adeptos, o Glorioso Sport Lisboa e Benfica tem seis milhões! Normal para um clube universal… O encarnado representa o ideal lusitano, a mentalidade portuguesa. O Futebol Clube do Porto é mais galego que português. A verdadeira Lusitânia é a sul do Rio Douro. Recuso-me a falar da conjuntura actual, porque ela é criada artificialmente pelo domínio do sistema por parte do senhor Pinto da Costa. O Abramovich dos favores e da corrupção! Não tenho provas, mas uso o senso comum… É normal um pequeno clube de província ganhar tudo sem recorrer a falcatruas? As instituições do futebol nacional e europeu estão nas mãos dos industriais do Norte. Ninguém sabe, todavia se pensarmos um pouco…&lt;br /&gt;Para terminar… o Benfica tem toda a razão do mundo quando tenta impedir a horda tripeira de invadir a Capital! Acham que os romanos viram com bons olhos a entrada dos bárbaros visigóticos de Alarico na Cidade Eterna?! A História serve para nos ensinar a evitar os erros do passado…     &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111317804560209394?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317804560209394'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317804560209394'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/03/pensamentos-de-um-portista-que-j-no.html' title='Pensamentos de um portista que já não quer ser portista'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111358025686040837</id><published>2005-03-11T18:36:00.000Z</published><updated>2005-04-15T16:50:56.860+01:00</updated><title type='text'>Cartago - Parte V</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Parte V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Causas e desenvolvimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A Terceira Guerra Púnica (149 / 146) foi curta, vistosa, mas de pouca importância, sem o heroísmo dos conflitos anteriores, digamos que foi desnecessária. Foi sem dúvida marcada e aí reside a sua importância, pela destruição total e definitiva de Cartago.&lt;br /&gt;  Apesar de todas as penalidades e impedimentos, Cartago recuperou economicamente, no meio do século II a.C. estava de novo florescente. Isto não cabia bem aos senadores, pois Roma tinha adquirido uma faixa de terra fértil em África, e muitos senadores haviam lá investido. Cartago comerciava os mesmos produtos e era-lhes realmente inata a capacidade de comerciar, muito melhor que a romana.&lt;br /&gt;   Assim, uma facção senatorial liderada por Cato, o velho agitava Roma contra Cartago – não gostavam do seu progresso económico, meio caminho para ambições mais altas. Mas, o mais importante, sem dúvida é que Cartago estava a prejudicar os interesses mercantis de Roma. Portanto, conduzidos por um homem conservador de grande reputação, cheio de virtudes romanas, Roma facilmente cedeu ao seu slogan “Carthago delenda est!”, que zumbia constantemente em Roma.&lt;br /&gt;   Roma precisava de um pretexto para atacar África e acalmar os senadores, nomeadamente Cato. Cartago era constantemente atacada pelas tribos vizinhas protegidas por Roma. Cartago não se atrevia a atravessar a fronteira imposta por Roma. Mas, os danos iam ficando cada vez mais graves – Cartago resolveu defender-se. Passou a fronteira e atacou os maus vizinhos. O tratado de 201 a.C. tinha sido violado.&lt;br /&gt;   Um descendente de Cipião, o africano, Scipio Aemilianus, típico da nova geração de políticos romanos – ambicioso, culto, bem educado – foi encarregue de atacar Cartago. Três anos após o início da guerra, decorridos de uma forma louca, podendo-se até falar de anti-semitismo romano, dadas as raízes púnicas, os cartagineses resistiam loucamente. Após a entrada dos romanos em Cartago houve ainda uma semana  de guerra urbana.&lt;br /&gt;   No fim Cartago foi arrasada até aos alicerces, queimada, os habitantes escravizados e a terra de Cartago considerada maldita, ninguém podia mais viver lá, uma das lendas refere que a terra foi salgada para a tornar inabitável. Eis o peso de Aníbal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Roma em 146 a.C.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   As guerras da Macedónia deram a Roma uma nova província a Grécia, a conquista foi a melhor forma de combater os eternos conflitos gregos. Roma possuía o que tanto admirava. A guerra da Macedónia também acabou em 146 a.C., Roma podia lutar em múltiplas frentes sem problemas. Era um verdadeiro poder Imperial. Governava de uma ponta à outra do Mediterrâneo com estruturas elaboradas para uma cidade-estado, eram necessárias mudanças internas – era só esperar pouco mais de 100 anos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111358025686040837?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111358025686040837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111358025686040837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/03/cartago-parte-v.html' title='Cartago - Parte V'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111265622519785192</id><published>2005-02-17T12:09:00.000Z</published><updated>2005-04-11T01:03:03.556+01:00</updated><title type='text'>Confissões aos gatos-estátua</title><content type='html'>Habitamos nesta romã colossal.&lt;br /&gt;Altíssimo Planeta espelhado&lt;br /&gt;Que reflecte o seu cabelo dourado&lt;br /&gt;E gatos-pedra saltando em espiral,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ferindo de sombra o Levante estival.&lt;br /&gt;É daí… Desse Oriental Potentado&lt;br /&gt;Que vem…. Bendito o fausto sublimado&lt;br /&gt;Onde nasceu, Terra rósea de coral...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longos hossanas! Poética demência&lt;br /&gt;Da busca por eternos olhos áureos:&lt;br /&gt;Jornadas desérticas de inclemência,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Largas caravanas de claridade…&lt;br /&gt;E no epílogo, felinos pétreos,&lt;br /&gt;Finaremos num Tempo Sem Idade…&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111265622519785192?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111265622519785192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111265622519785192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/02/confisses-aos-gatos-esttua.html' title='Confissões aos gatos-estátua'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111357992312815709</id><published>2005-02-08T12:43:00.000Z</published><updated>2005-04-15T16:45:23.143+01:00</updated><title type='text'>Cartago - Parte IV</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Parte IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   “...é que vou escrever a mais memorável de todas as guerras que jamais se fizeram, a qual os cartagineses, comandados por Aníbal, sustentaram com o povo romano.” (Tito Lívio, XXI, 1).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De facto, a Segunda Guerra Púnica vai ter uma substancial em relação ao conflito anterior – o aparecimento de heróis, de homens que por si só fazem a guerra e a decidem, transformando-a numa autêntica epopeia. São homens como Aníbal e Cipião o africano, não Himílcone ou Régulo, que ocuparão doravante, tal como Alexandre Magno ou Napoleão, o imaginário da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O prólogo hispânico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Na sequência dos acontecimentos anteriores, o general Amílcar Barca desembarca, em 237 a.C., com um considerável exército em Gades, sob o pretexto da exploração mineira para puder pagar a indemnização a Roma, esta foi a justificação dada ao Senado romano, mas o verdadeiro motivo era recuperar a hegemonia púnica na península. De facto, este envio de tropas e consequente movimentação parece significar uma quebra do domínio  púnico na Hispânia durante o primeiro conflito, provocado talvez por movimentações de povos indo-europeus e por uma expansão da influência de Massalia (cidade grega perto da foz do Ródano), facilitadas pela guerra externa de Cartago. Antes de prosseguir convém salientar que esta ida de forças para a Hispânia em nada contraria as disposições do tratado de paz de 241 a.C..&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTA:&lt;br /&gt;   Para estudar a Segunda Guerra Púnica, pelo menos, é imprescindível consultar a obra de Tito Lívio (Pádua 60 a.C. / 17 d.C.), Ab Urbe condita, isto apesar de o seu método historiográfico não usar do rigor científico e de propagandear descaradamente os valores romanos, nomeadamente os mais antigos. Uma história repleta de sentimento e parcialidade patriota e de apologia dos heróis. Por vezes o incorrecto uso das fontes – uma delas é Fábio, historiador contemporâneo da Segunda Guerra Púnica, que o próprio Tito Lívio menciona (T. L.,XXII, 7) – dá ao texto um sentido mais épico que histórico. É necessário ter em conta todos estes parâmetros quando o estamos a analisar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra questão interessante é saber quando veio Aníbal para a Península Ibérica. Tanto Políbio como Tito Lívio referem que ele tinha nove anos e “...se obrigara a logo que pudesse ser inimigo do povo romano.” (Tito Lívio, XXI, 1). Na verdade os historiadores romanos, única forma que temos de conhecer estes acontecimentos, salientam a aventura ibérica de Cartago como o cumprimento metódico de um desejo de vingança por parte dos Barcas, de forma a justificar a atitude agressiva de Roma, fruto do seu imperialismo.&lt;br /&gt;   Não se sabe muito das movimentações de Amílcar, os historiadores greco-latinos quase não as mencionam,  atribuem-lhe a recuperação da hegemonia púnica na Península (Políbio, II, 5). Sucede-lhe Asdrúbal e logo a seguir Aníbal, logo encetando uma política expansionista em direcção ao sul da Meseta central ibérica e ao interior até norte do Douro (território dos Vaceus).&lt;br /&gt;Assim, Amílcar morre em campanha contra um dos povos indígenas, sendo substituído na governação da Hispânia cartaginesa pelo seu genro Asdrúbal que o fez durante oito anos (Tito Lívio, XXI, 2), “...uma administração activa e inteligente...” (Políbio, II, 13), baseada na diplomacia e não na guerra. Foi ele, o fundador de Nova Cartago, que acordou o tratado do Ebro em 226 a.C. – a colónia de Massalia, Emporion, receando a progressiva expansão cartaginesa, apelou, como aliada de Roma a sua intervenção, que resultou nesse tratado – consistindo no seguinte: “...interditando a Asdrúbal passar o Ebro com um exército...” (Políbio, II, 13) mas, também, “...que se conservasse a independência dos saguntinos, que ficavam entre as fronteiras do dois povos.” (Tito Lívio, XXI, 2), este acordo patenteia bem a tensão ainda existente entre as duas potências ocidentais. Asdrúbal é assassinado por vingança “...um bárbaro mata-o em público...” (Tito Lívio, XXI, 2), provavelmente um celta (Políbio, II).&lt;br /&gt;              Numa das deambulações de Aníbal de norte e sul do território, é provável que tenha fundado, para lá do Anas (Guadiana), perto de Portimão, uma localidade com o nome de Portus Hannibalis, entre os anos 221 / 218 a.C. (J. Alarcão). Assim a ocupação do actual sul do território português pelos cartagineses parece ser tardia, e sobre ela sabe-se muito pouco. De qualquer forma a ocupação da costa algarvia reflecte um incentivo à navegação atlântica (C. Fabião).Nada disto contraria o tratado do Ebro ou o de 241 a.C..&lt;br /&gt;   Tito Lívio enumera as inatas qualidades militares de Aníbal, mas também os seus defeitos: “...uma crueldade que ia para além da humana, uma perfídia mais que púnica, nenhuma sinceridade, nenhum respeito, nenhum temor aos deuses, nenhum valor ao juramento, nenhum sentimento religioso.” (Tito Lívio, XXI, 4). Esta era a propaganda romana, bem de acordo com a temática “liviana”. Mas, convém fazer aqui a apologia de Aníbal, deste herói púnico, um Hércules de resistência, um génio militar, desde a ciência logística à capacidade de envolver e destruir o adversário, da vocação diplomática à prodigiosa imaginação. É contra esta antítese que Roma vai lutar.&lt;br /&gt;  Entretanto, Sagunto, a sul do Ebro, na área de influência púnica, segundo o tratado de 226 a.C. pediu protecção a Roma, esta que procurava um pretexto para contrariar as vontades de Aníbal encontrou-o neste pedido. Apesar disso, as tropas hispano-púnicas declaram guerra aos saguntinos e cercam a cidade, pois “...já tudo para além do Ebro pertencia aos cartagineses, ao não ser os saguntinos.” (Tito Lívio, XXI, 5). Entretanto, estes últimos, enviaram uma embaixada a Roma, sendo cônsules P. C. Cipião e T. S. Longo, decidiu-se, entre hesitações, enviar uma embaixada para se reunir com Aníbal “...e dali a Cartago a exigir a entrega do próprio general, em reparação da violação do tratado, em caso de não se desistir do cerco.” (Tito Lívio, XXI, 6). Aníbal não os ouviu e o Senado cartaginês apoiou o Barca, com uma excepção, “...Ano foi o único que não obstante a oposição do Senado, advogou a causa da aliança...” (Tito Lívio, XXI, 10). Aníbal havia, após um longo cerco tomado Sagunto, ele e o seu experimentado e inovador exército mercenário sentiam-se aptos a atacar directamente Roma.&lt;br /&gt;   Vimos, então, qual a importância da Ibéria dicotómica na origem da Segunda Guerra Púnica. De facto, a península estava dividida. A sul e o oriente, a “civilização ibérica” de tradição orientalizante (semítica) e grega (Catalunha). E o mundo “indo-europeu de segunda vaga”, ocupando o restante território, conjunto de povos etnicamente uniformes, mas culturalmente diferentes (C. Fabião). Estes dois mundos talvez incentivados pelos povos do Mediterrâneo central e oriental, mais desenvolvidos, permutavam entre si, não só bens ou produtos, mas o mais importante: cultura e desenvolvimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;218 / 201 a.C.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   “...reanimados desde a destruição de uma cidade poderosíssima, atravessaram o Ebro; levavam consigo tantos povos dos hispânicos, obrigados a sair; e deviam ainda arrastar as nações gaulesas, sempre ansiosas por guerras: era como o mundo inteiro que se vinha a fazer à guerra na Itália e diante dos muros de Roma.” (Tito Lívio, XXI, 16).&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;   Em Roma fez-se o sorteio, a Cipião calhou a Hispânia, apoiado em Massalia, a Longo a África e Sicília, apoiado no poderio naval. A guerra foi oficialmente declarada no Senado de Cartago por uma embaixada romana, que se dirigiu depois à Hispânia e à Gália em busca de alianças, sem sucesso. De referir um apontamento curioso, demonstrador  das clivagens civilizacionais – o terror que sentem os romanos quando vêem os gauleses irem armados para a assembleia, isto é referido mais tarde por Tácito (De Germania) a propósito dos bárbaros germânicos. (Tito Lívio, XXI, 18, 19, 20).&lt;br /&gt;   Roma esperava uma vitória rápida, graças ao seu muito maior poderio naval que se vai manter ao longo de todo o conflito, influenciando, obviamente, o resultado final, tirará a Aníbal as hipóteses de retirar os dividendos das vitórias terrestres. Aníbal depois de precaver a defesa do seu principado militar (Combet-Farnoux) que era a Hispânia, “...destina o comando desta província a seu irmão Asdrúbal...” (Tito Lívio, XXI, 22), e de contactar com algumas tribos gauleses sempre hostis a Roma, enceta, como Pirro, um processo político-bélico, à maneira de Alexandre Magno, até Itália. A partir deste momento acompanharemos a saga de Aníbal, mas sempre com um pé  na península Ibérica acompanhando a evolução do conflito de Asdrúbal  com os Cipiões.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;   Em 218 / 217 a.C., os irmãos Cneio e depois Públio Cornélio Cipião desembarcaram em Emporium, o primeiro combate da guerra, entre Aníbal e C. C. Cipião, resultou numa derrota de fracas consequências para os púnicos, após esta vitória hispânica, os romanos aquartelaram-se em Tarraco. Esta primeira vinda de romanos para a península não tinha intuitos imperialistas, era apenas uma estratégia de ataque e defesa em relação a Aníbal.&lt;br /&gt;  O ataque directo do púnico a Itália fez os romanos alterarem a sua estratégia, adaptando-a mais à defesa da sua península em detrimento do ataque à dos Barcas. Em Maio de 218 a.C., 60000 homens saíam da Hispânia, ou segundo a versão “liviana”: “...caminha para o Ebro pela costa do mar (...) com 90000 homens de infantaria e 12000 de cavalaria...” (Tito Lívio, XXI, 22, 23). A marcha lenta explica-se pela luta travada com as tribos a norte do Ebro. Depois do rio, o próximo obstáculo geográfico eram os Pirenéus, onde o exército sofreu pesadas baixas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;   Enquanto, as tropas púnicas marchavam em direcção ao Ródano, os gauleses cisalpinos desviavam a atenção romana para esta zona, esperando pela ajuda próxima de Aníbal, que chegou ao rio em Agosto. Entretanto, P. C. Cipião desembarcara em Massalia, queria destruir o cartaginês, que evitou esse choque; antes de chegarem a Itália. Esta tentativa romana saldou-se apenas por um  pequeno recontro renhido e sangrento entre 500 cavaleiros númidas e 300 cavaleiros romanos (vencedores) – “...presságio da guerra, assim como prometia um resultado próspero no seu conjunto, assim prognosticou que a vitória não seria sem muito sangue e de fortuna vária.” (Tito Lívio, XXI, 29) – depois do Ródano. Assim, os invasores atrasaram-se e  perderam a hipótese de cruzarem os Alpes em boa época.&lt;br /&gt;   Antes, porém, haviam acampado nas margens do Ródano, “Ele assegura por todos os meios a amizade das populações ribeirinhas, compra todos os seus barcos de uma só peça, assim como as suas canoas, que tinham em grande quantidade, pois fazem comércio marítimo.” (Políbio, III, 42). Estavam encurralados em pleno “...território dos Volcos...” (Tito Lívio, XXI, 26) com gauleses na margem em frente à sua espera e uma legião em Massalia. Um destacamento atravessa “...o rio no maior segredo, envolver o exército, para num momento oportuno, atacar o inimigo pela retaguarda.” (Tito Lívio, XXI, 27),e com Aníbal a atacar pela frente, os gauleses “...escapam-se em desordem...” (Tito Lívio, XXI, 28). Políbio (III, 46) descreve o transporte dos elefantes. &lt;br /&gt;   Relataremos agora a lendária travessia dos Alpes. Ao mesmo tempo, P. C. Cipião chegava ao acampamento abandonado no Ródano e julgando-se incapaz de alcança-los devido ao seu grande atraso, retornou ao mar  “...deste modo se encontraria mais segura e facilmente com Aníbal ao descer dos Alpes.” (Tito Lívio, XXI, 32). Nenhum dos autores antigos indica ao certo os corredores alpinos por onde eles passaram, provavelmente foi entre o colo de Petit-Saint-Bernard e do Mont-Genèvre (Combet-Farnoux). As impressionantes perdas do exército inter- étnico de Cartago (apenas 26000 homens quando chegaram à planície do Pó), deveram-se aos primeiros nevões e aos ataques das tribos montanhesas. Esta travessia, não tão sobre-humana como é lendariamente reconhecida, está descrita em Políbio (III, 50 a 56).&lt;br /&gt;   Após cinco meses de marcha (Maio / Outubro de 218 a.C.), Aníbal chega a Itália – “...está na planície, não sem ter perdido durante essa longa marcha, seja sob os golpes dos inimigos, seja sobre as águas dos rios, seja derivada aos precipícios e ravinas dos Alpes, um grande número de soldados e mais ainda de cavalos e animais de carga. Enfim, depois de cinco meses para chegar de Nova Cartago, quinze dias para atravessar os Alpes, ele entra nas planícies cisalpinas...” (Políbio, III, 56).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;      Roma perdeu o ímpeto ofensivo que caracterizou a sua pronta intervenção na Hispânia antes do início da marcha, agora a prioridade é a defesa da Itália. Os próximos seis ou sete anos de guerra serão de sucessivas vitórias púnicas, ao auge do seu poderio, cerca de 212 a.C., acontecerá uma progressiva e lenta quebra do rendimento do seu exército, por motivos que serão explanados adiante, até à derrota definitiva em 201 a.C., na batalha de Zama.&lt;br /&gt;   A primeira batalha na península itálica, com P. C. Cipião, foi a norte do rio Pó, no rio Tessino, em Dezembro de 218 a.C.. Antes da batalha, Tito Lívio põe os antagonistas a fazerem discursos e refere o terror dos romanos face aos maus presságios: “...tinha entrado um lobo no acampamento (...) que saiu incólume (...); um enxame de abelhas tinha pousado numa árvore sobre a tenda do general.” (Tito Lívio, XXI, 46), este apontamento, entre outros, confirma o que se disse acima (página 8) sobre as características da obra deste autor. Os cartagineses venceram,  “...superior em cavalaria e por isso os campos descobertos, como são os que ficam entre o Pó e os Alpes, não convinham aos romanos para fazer a guerra.” (Tito Lívio, XXI, 47). De registar o acto heróico de um dos filhos de P. C. Cipião,  salvou o pai depois de este ter sido ferido, “Era este o jovem nas mãos de quem está a glória de ter terminado esta mesma guerra, chamado o Africano por causa da brilhante vitória sobre Aníbal e os cartagineses.” (Tito Lívio, XXI, 46) – era o nascimento do glorioso herói romano. O que resta do exército de Roma some durante a noite.&lt;br /&gt;   No mesmo mês teve lugar a segunda batalha itálica, agora a sul do Pó, junto do rio Trébia. “Aníbal chega perto dos seus inimigos depois de ter atravessado o Pó.” (Polibio, III, 66), também tomou pacificamente Clastídio, para resolver os problemas de víveres, pois o exército havia aumentado com a chegada de auxiliares gauleses. T. S. Longo estava na Sicília lutando contra os cartagineses, com as complicações na vale do Pó, saiu da Sicília, “...tendo partido com o seu exército para o rio Trébia, junta-se ao seu colega.” (Tito Lívio, XXI, 51), que, entretanto, fortificara a área. A astúcia púnica, atitude que compensou o défice numérico, resultou e os romanos foram derrotados. (Tito Lívio, XXI, 53 a 56; Políbio, III, 68 e 69). “Espalhou-se em Roma uma tal consternação com esta derrota, que já se suponha que o inimigo chegaria às portas de Roma para a pôr a saque...” (Tito Lívio, XXI, 57).&lt;br /&gt;   Durante meio ano, os púnicos deambulam entre o Pó e a zona a montante do rio Tibre, atacando cidades como Placência e Victúmulos e tendo recontros de menor importância com T. S. Longo. Nas vésperas da maior vitória púnica até então, Aníbal dominava a Gália Cisalpina e o seu objectivo era, agora, a Itália central. Prevendo esse desejo, os novos cônsules eleitos, C. S. Gémino e C. Flamínio, decidiram defender os acessos à Itália central, onde contavam com aliados mais fieis que os gauleses e com um terreno menos propício à cavalaria cartaginesa. Adivinhava-se um embate entre as tropas de Aníbal e de Flamínio, este novo cônsul, eleito pelo partido democrático, não gozava de muito reconhecimento, “...renovou-se o ódio contra C. Flamínio...” (Tito Lívio, XXII, 1).&lt;br /&gt;   Essa grande vitória teve lugar em 21 de Junho de 217 a.C., no lago Trasímeno, a 200 Km de Roma. Mais uma vez a astúcia de Aníbal deu excelentes resultados, “...já tinham chegado a um lugar próprio para uma cilada, onde o lago Trasímeno se aproxima mais dos montes de Cortona.”, acampa num descampado, “...oculta...” a infantaria ligeira e a cavalaria.  Flamínio e as suas forças, “...sem ter explorado o terreno...”, dispõem-se para a batalha, sem saber “...da emboscada que estava na retaguarda e sobre a cabeça.”, a luta foi tão intensa que os combatentes nem sentiram um tremor de terra. O descalabro romano foi total, depois da seguinte acusação “Aqui está o que matou as nossas legiões...”, o cônsul C. Flamínio foi assassinado. Morreram 15000 romanos e 2500 mercenários púnicos. O horror que a notícia provocou em Roma, mais visível no comportamento das mulheres, aumentou com a perda de 4000 cavaleiros na Ombria face a Aníbal. Esta hecatombe de 217a.C., gerou uma crise política, obrigando a república a recorrer “...a um remédio que já à muito não era empregado nem desejado, a nomeação de um ditador...”, esse cargo coube a Q. Fábio Máximo. (Tito Lívio, XXII, 4 a 8).&lt;br /&gt;   Roma era já ali. Mas, na verdade, a cidade eterna era de difícil conquista, pois tinha uma forte “entourage” de colónias que a protegiam, estava bem fortificada (aos púnicos faltava material de cerco) e, apesar de terem sido destruídos o equivalente a dois exércitos consulares, restava ainda as forças da Hispânia e de  C. S. Gémino “...receando já pelas muralhas da sua pátria, para não deixara cidade em tão grande perigo, tomou o caminho da cidade.” (Tito Lívio, XXII, 9). Por isso, o exército cartaginês optou por deambular pelo norte e centro, entre as costas tirrena e adriática da península  em busca do mar e dos reforços que não chegavam – os romanos tentavam empurrá-los sempre para longe da sua cidade – a  fim de afastar as populações da área da causa romana, mas uma das estratégias de Q. Fábio Máximo era fortalecer a coesão da confederação romana, dificultando os objectivos púnicos. A conjuntura (exposta no relatório) militar, política e até religiosa que se seguiu (Tito Lívio, XXII, 9 a 43) serviu de preparação para a grande batalha de Canas, notabilizada “...com a derrota dos romanos.” (Tito Lívio, XXII, 43).&lt;br /&gt;  Na Hispânia, os dois primeiros anos de guerra (Tito Lívio, XXI, 59 a 61; XXII, 19 a 23), não tão negativos para os romanos como na Itália, foram passados a tentar impedir o abastecimento de Aníbal pela retaguarda, visto que directamente por mar era impossível dada a superioridade naval de Roma e o facto de Aníbal não ter um porto em seu domínio, como veremos esta estratégia iria trazer ao exército cartaginês na Itália consequências negativas irrecuperáveis. Os Cipiões dominavam a costa desde a foz do Ródano até à foz do Ebro. Mais uma nota referente à cultura e mentalidades da época: depois de tomarem uma praça hispânica, saquearam-na, mas os seus bens eram pobres, “...mobílias toscas e escravos baratos...” (Tito Lívio, XXI, 60).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;   Em Agosto de 216 a.C., junto da aldeia de Canas, teve lugar a maior derrota romana de toda a guerra, aquela pela qual Aníbal é ainda estudado nas academias militares. O relato da batalha (Tito Lívio, XXII, 44 a 50) e as consequências próximas (Tito Lívio, XXII, 50 a 61) é uma sucessão de catástrofes romanas, atingindo o auge do masoquismo aquando da contabilidade das perdas: “...morreram 45500 soldados de infantaria e uma porção aproximadamente igual de cidadãos e aliados (...) ficaram prisioneiros naquele combate 3000 soldados de infantaria e 1500 de cavalaria.” (Tito Lívio, XXII, 49). As contas actuais são mais contidas, cerca de 40000 soldados romanos e 6000 mercenários, maioritariamente gauleses, mortos e prisioneiros.&lt;br /&gt;   A batalha foi em terreno aberto, sem possibilidades de surpresas como no lago Trasímeno, a frente romana, bastante mais ampla, rodeou os cartagineses de uma tal forma que se chegou a pensar numa vitória de Roma, mas nos flancos a cavalaria púnica venceu a sua congénere oposta e, rodeou, por sua vez a infantaria romana viu-se encurralada entre a cavalaria e infantaria púnicas e dissolveu-se no caos. Este é um clássico exemplo da manobra de duplo envolvimento, forma de uma força inferior derrotar uma superior em terreno aberto. Ambos os cônsules morreram e Tito Lívio coloca na boca de um deles, L. Emílio, a prioridade que se seguia: “Vai, comunica oficialmente aos senadores, que fortifiquem a cidade de Roma e a reforcem de tropas antes do inimigo chegar (...) perseguiu-os (...) ao cônsul cobriram-no de dardos...” (XXII, 49).&lt;br /&gt;   A Aníbal restava fazer opções. Uma era atacar Roma – “...Maarbal, general de cavalaria, diz: (...) dentro de cinco dias banquetear-te-ás vencedor no Capitólio...” (Tito Lívio, XXII, 51) –, mas  ele achou o seu exército incapaz de fazê-lo, optou, então, mais uma vez, agora com mais sucesso, chegar a si os aliados de Roma. Na sequência de Canas algumas cidades, entre as quais Cápua, a segunda cidade da Itália e um centro industrial, desertaram da aliança de Roma, “...o tempo dos campanienses chegou, não apenas de tomar posse dos territórios tirados pelos romanos injustamente, mas para se tornarem mestres de toda a Itália...” (Tito Lívio, XXIII, 6). Todavia não era suficiente, Aníbal sabia que enquanto a cidade inimiga tivesse um sistema de alianças a apoiá-la nunca conseguiria, apesar dos êxitos militares, derrotá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;   O aspecto mais visível em Roma de desespero, mas, também de esperança, foi o contínuo trabalho do Senado, Tito Lívio dá um exemplo desta dicotomia: depois de um discurso inflamado, apologia das virtudes romanas, em plena Cúria Hostília, a audiência “...levantou-se logo uma gritaria de lágrimas da multidão que estava no comício, e estendidas as mãos para o Senado, pedindo que lhes restituíssem os filhos...” (XXII, 59 e 60). Q. Fábio Máximo foi eleito cônsul e chefe do reduzido exército romano. Levou a cabo a sua estratégia de fatigar o adversário, apoiando-se nas cidades aliadas que não haviam desertado para o lado de Aníbal, protegendo-as de possíveis ataques. Aníbal dificilmente levaria a cabo um cerco, pois o seu exército estava também debilitado e receava, que a meio de tal, surgisse Q. Fábio Máximo. Assim, Aníbal estava encurralado, apesar da sua superioridade militar aparente, no meio da Itália, sem conquistar a Campânia, sem acesso ao mar e sem reforços de África ou de Hispânia. Pode-se concluir desta situação que os púnicos perderam a guerra devido ao facto de Roma não ter entrado em colapso após Canas.&lt;br /&gt;   No plano diplomático, Aníbal foi mais feliz. Fez um acordo com Filipe V, rei da Macedónia. “A luta entre os dois povos mais poderosos da Terra concentraram a atenção de todos os reis, mas principalmente de Filipe, rei da Macedónia, vizinho da Itália, só o mar Jónico os separava.” (Tito Lívio, XXIII,33). A permanência romana na Ilíria, a aliança com Apolónia ou Epidamnos que aconteceram, como vimos, no intervalo entre as guerras cartaginesas, não eram da simpatia de Filipe que queria expulsar de lá os romanos, dominando ele essa zona, com o apoio cartaginês, que suponha prováveis vencedores da guerra, em troca dava o apoio de tropas terrestres em solo italiano, desde que transportadas por barcos púnicos. Este pacto top secret foi descoberto por Roma, pois uma armada romana surpreendeu os embaixadores do outro lado do Adriático. O Senado, um dos principais responsáveis pela vitória final, rapidamente soube deste pacto e entrou logo em acção enviando para a Ilíria uma armada, impossibilitando o transporte das tropas. Mais uma vez a marinha romana mostrava a sua inequívoca superioridade.&lt;br /&gt;   Segundo J. Cousin (pág. 60), o comportamento dos antagonistas em termos marítimos foi bastante desequilibrado entre eles. Os romanos começaram a guerra com 240 barcos (20 massaliotas), entre 214 / 209 a.C., varia entre os 215 e os 235. Segundo os números dúbios dos autores antigos, construíram em 218 / 217 a.C. 60 navios, em 214 a.C. 100 e em 208 a.C. 20. A supremacia naval de Roma não permite a Cartago abastecer Aníbal, mas permite, por seu lado, enviar uma armada a Hispânia, à Ilíria e abastecer-se a ela própria, por outro lado, o exagero de frentes de combate não permite, apesar da hegemonia, uma total vigilância, assim, a defesa de Lilibeu, da Calábria, de Siracusa, Tarento, Brundísio, Sardenha, Ligúria (desembarque de Magão em 205 a.C.) fica debilitada; a ofensiva de Cipião, o africano a Útica em 203 a.C. é feita com forças reduzidas; a vigilância das Baleares e Cartagena é deficitária, pois a armada fica-se por Tarragona; os chefes militares no mar são os mesmos que em terra e efémeros. Mas, mesmo com estas anomalias romanas, Cartago não tem a força para constituir uma forte força naval, ou por causa da desmobilização do fim do conflito anterior, ou devido à política comercial na Hispânia, ou à difícil recruta de uma população nómada (causa do mercenarismo). Eis, no fundo, as causas de as vitórias terrestres de Aníbal não terem correspondido a uma vitória final.&lt;br /&gt;   Antes de regressar a Itália vejamos a situação na Hispânia. Os romanos comandados pelos Cipiões consolidaram a sua situação em África, entre 215 / 213 a.C., tomando Sagunto, Urso, Cástulo e conquistando posições na zona argentífera da Sierra Morena, “Em Roma, onde essa novidade foi anunciada pelas cartas dos Cipiões, comemorou-se menos a vitória que a impossibilidade de Asdrúbal chegar a Itália. (Tito Lívio, XXIII, 29). Em 212 a.C. os púnicos respondem com três exércitos, comandados, cada um, por Asdrúbal, Magão e Giscão. Em 211 a.C. os Cipiões são isolados e, traídos pelas forças indígenas, são derrotados e mortos, uma pequena parte da Hispânia romana é salva por L. Márcio (Tito Lívio, XXV). C. Fabião refere menções contraditórias em  relação ao ocidente peninsular em Políbio (fragmento livro X) e em Tito Lívio (XXVI, 19), por motivos explanados no relatório só pode confirmar esta informação em Tito Lívio. Pelo que parece, Polibio refere que no Inverno de 210 a.C., Magão se instalou junto dos Cónios, o filho de Giscão, Asdrúbal na foz do Tejo e Asdrúbal Barca na Carpetânia, sul da Meseta Central – todos longe da área de combate, presença talvez devida a instabilidades regionais. Tito Lívio refere Magão a norte de Cástulo, Asdrúbal Barca perto de Sagunto (?? – era dominada pelos romanos) e  Asdrúbal, filho de Giscão, perto de Gades. Pelos motivos já referidos Políbio é mais fiável. O actual território português não foi directamente atingido pelo esforço de guerra, mas parece ter havido uma ruptura nas relações com o sul.&lt;br /&gt;   Após a morte de Hierão II, o governo popular que lhe sucede abandona a aliança com Roma, como o fez pouco tempo antes Cápua, “...a aliança com Roma tinha sido rompida...” (Tito Lívio, XXIV, 6). Roma não conseguiu renovar a aliança, faz, então, um bloqueio a Siracusa, que Cartago tentou impedir com uma força expedicionária comandada por Himílcone e uma armada de 55 barcos sob a ordem de Bomílcar, chegaram a ocupar Agrigento, mas face à superioridade romana regressaram a África. As esperanças de Aníbal puder contar com a Sicília terminaram.&lt;br /&gt;  De regresso a Itália. No Inverno de 212 / 213 a.C., Tarento, o maior porto da península, abre as portas aos púnicos, que ficam mesmo assim sem acesso ao mar, pois na cidadela ainda resiste a guarnição romana (Tito Lívio, XXV). Mas, toma outras cidades costeiras, como por exemplo Metaponto. Têm, finalmente, acesso ao mar, mas de pouco lhes serviria, pois, tirando a excepção de Locros em 215 a.C., nunca receberam reforços, e quando estiveram mais perto de receberem (Asdrúbal e Magão) foi via Alpes e não via Mediterrâneo. Em Tarento, sem apoio, pois as esquadras romanas, como vimos, estavam com excesso de trabalho (Ilíria, Hispânia, Sicília), cai a resistência, a armada  púnica mexe-se sem problemas no sul da Itália. Umas segunda e terceira tentativas de Bomílcar socorrer Siracusa, não surtiram efeito e Siracusa cai em 212 a.C., após três anos de cerco, às mãos de C. Marcelo.&lt;br /&gt;   A presença de Roma em demasiadas frentes fragilizam-na, boa ocasião para reforçar Aníbal, apesar do seu papel medíocre na Sicília a armada púnica podia agora transportar as forças macedónias do irrequieto Filipe V. Mas os romanos prevendo essa situação fazem um acordo com a Etólia (Tito Lívio, XXVI), que entrou logo em guerra com a Macedónia, ajudada por uma frota romana de 25 barcos. Filipe V foi obrigado a concentrar as suas forças na luta grega, prejudicando as ambições de Aníbal. Bomilcar podia facilmente destruir os 25 barcos e transportar os reforços, mas faltava ao almirante espírito de ofensiva, contentando-se em bloquear Tarento.&lt;br /&gt;   Em 212 /211 a.C., Aníbal estava em dificuldades por falta de apoio, ocupado no sul, perdeu Cápua (Tito Lívio, XXVI) e foi obrigado a lutar apenas para preservar os terrenos conquistados. Mas, até a sul ia perdendo terrenos, em 209 a.C., Fábio Máximo ocupa, graças a uma traição, Tarento (Tito Lívio, XXVII). A tentativa desesperada de Aníbal recuperar Cápua patenteiam bem as suas dificuldades, sem possibilidades de cercar a cidade, dirige-se para Roma na esperança que os romanos o seguissem, debilitando a defesa de Cápua. A manobra de diversão não resultou e Aníbal fixa-se no Brútio até 203 a.C.. A forte esforço romano de recruta estava a dar resultados, disponha de 25 legiões, o equivalente a 200000 soldados.&lt;br /&gt;   Quando abandonamos a Hispânia, esta era dominada pelos púnicos, esta situação podia libertar tropas para reforçar Aníbal. Todavia, o Senado, desejoso de uma política mais activa, entregara em 210 a.C., o comando procônsular de Hispânia a P. C. Cipião de apenas 25 anos, filho do anterior chefe que morrera lutando Asdrúbal (Tito Lívio, XXVI). Os romanos perceberam que só vencendo aqui derrotariam de vez Aníbal. Cipião em 206 a.C. com a rendição de Gades expulsara para sempre os púnicos da Hispânia e afirmava o domínio romano. logo em 209 a.C., num golpe de mestre, conquistava Cartagena, pouco depois dominava a Sierra Morena, sustento da guerra. Em três anos de campanhas ciclónicas o levante e sul da Ibéria era romano. Asdrúbal após uma disputa com Cipião, em Bécula, no ano de 208 a.C., conseguiu esgueirar-se para norte com três exércitos e elefantes (Tito Lívio, XXVII). Apesar dos sucessos não foi evitado o principal perigo para Roma – a possível ajuda a Aníbal. Asdrúbal em 207 a.C. já está no norte da Itália, auxiliado por gauleses, o objectivo é juntar os exércitos dos dois irmãos. A inquietação em Roma é grande, os emissários púnicos são capturados e Roma fica a par de tudo. Dois exércitos cônsulares são organizados, cada um para um dos dois inimigos. Ao exército de M. Lívio Salinator, o adversário de Asdrúbal, junta-se no rio Metauro, C. Cláudio Néro, o suposto adversário de Aníbal, que conseguiu ir com uma parte do exército dirigir-se para norte. Assim, os dois exércitos juntos, arrasam Asdrúbal na batalha do rio Metauro, a última grande batalha em Itália.&lt;br /&gt;   Aníbal inactivo no Brútio perdia a última esperança, Cipião derrota a resistência hispano-púnica na batalha de Ilipa, Magão é obrigado a sair da Hispânia. Assim, Cartago privada das minas e tropas hispânicas, perdia a iniciativa e a vantagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;   Cipião estava-se a tornar no herói da guerra. Partiu para a Macedónia, onde em 205 a.C. obrigou Filipe V a aceitar a Paz, Cartago perdia o seu principal apoio (Tito Lívio, XXVI). No mesmo ano foi candidato a cônsul, no seu programa previa um desembarque em África, esta hipótese de guerra ofensiva e uma provável vitória definitiva rápida, foi do agrado do povo. Cipião foi eleito. Mas, este programa não passou sem resistência, Fábio Máximo pretendia uma Paz de compromisso, deixando a Cartago as suas possessões africanas. Cipião com uma visão mais imperialista pretendia, além de expulsar Aníbal da Itália, eliminar Cartago como grande potência.&lt;br /&gt;   O Senado entregou-lhe a província da Sicília com autorização de passar a África, no entanto teve sérias dificuldades em organizar e pôr de pé a sua expedição (Tito Lívio, XXVII).&lt;br /&gt;   A perspectiva de uma invasão inquietou  Cartago, o seu Senado acaba por tomar algumas atitudes desesperadas: apoia Magão numa terceira invasão a Itália e apoia directamente Aníbal. Mas, os resultados são medíocres, Magão limitado à Ligúria acaba por ser derrotado e Aníbal não sai do Brútio, acaba derrotado pelo cônsul Semprónio em Crotona. Na conjuntura das alianças entre Cipião e os outros povos africanos (ver relatório), Roma perde um apoio importante, o de Syphax, o principal príncipe númida, mas conta ainda com Massinissa.&lt;br /&gt;   Em 204 a.C. Cipião desembarca em África. A missão correu mal e os romanos acabam encurralados numa pequena península rochosa (Castro Cornélio) pressionados por tropas púnicas e númidas (Syphax). Cartago podia ter destruído aqui esta força expedicionária, mas dada a conjuntura geral preferiu negociar. Esta atitude permitiu a Cipião viver a belle époque de 203 a.C., em Abril derrotou os africanos, em Junho aprisionou Syphax, era o fim do apoio númida a Cartago, Massinissa recuperou os territórios que Syphax lhe tinha tirado.&lt;br /&gt;   Aníbal prepara-se, 36 anos depois, para regressar a África, juntamente com os seus 20000 homens, no Outono de 203 a.C.. Ao chegar levanta o seu quartel de Inverno em Hadrumeto.&lt;br /&gt;   Dá-se, então lugar à diplomacia, em 202 a.C. Cartago aceita um tratado de Paz humilhante: devia entregar os prisioneiros e desertores romanos; evacuar a Itália, a Gália e as ilhas situadas entre a Itália e África; renunciar à Hispânia; reduzir a sua frota; pagar uma indemnização de 5000 talentos e abastecer o exército romano até à consolidação da Paz.&lt;br /&gt;   Cartago ao aceitar estas condições deixava de ser uma potência mediterrânica e passava a    sê-lo apenas em África. Entretanto, as intrigas senatoriais em Roma retardaram a ratificação do acordo,  isto deu tempo para o originar de um sentimento de desforra no espírito púnico: juntamente com o regresso de Aníbal que deu força ao partido da guerra em Cartago, o clima interno, de crescente escassez, era propício a uma revolta. O clima tenso de guerra, encontrou um pretexto para explodir num ataque a um comboio de reabastecimento romano. A guerra recomeça, “Já não é só a África ou a Itália, é o Universo inteiro que será a recompensa do vencedor.” (Tito Lívio), XXX, 32).&lt;br /&gt;   Aníbal reúne em pleno deserto a menos de 100 Kms de Cartago, um exército de 40000 / 50000 soldados de valor desigual, falta-lhe pela primeira vez a cavalaria, tenta substitui-la por 100 elefantes. A batalha começou em Zama, em Outubro de 202 a.C.. Os romanos tinham agora a primazia na cavalaria. Aníbal colocou os elefantes em linha em frente da infantaria e fê-los avançar como se trata-se de uma carga de cavalaria. Mas, Cipião ao saber isso já tinha premeditado um plano, os romanos mudaram instantaneamente de formação fazendo os elefantes passarem pelas suas fileiras. Aníbal dependia deste primeiro ataque, depois foi a debandada, Cipião usando muitas das tácticas de Aníbal, fez a tradicional manobra de flanqueamento da infantaria pela cavalaria, e venceu tão estrondosamente que fez lembrar as vitórias iniciais de Aníbal.&lt;br /&gt;   Cartago rendeu-se, o novo acordo de Paz muito semelhante ao anterior, foi agravado nalgumas questões, agora a ex-potência só podia fazer guerra em África, com um pequeno exército, e com autorização de Roma – era uma verdadeira cidade vassalo. O tratado foi ratificado em Roma no ano de 201 a.C..&lt;br /&gt;   A Itália estava destruída, nomeadamente o sul, mas, no entanto, Roma preparava-se para dominar o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As consequências&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Este exemplo diz muito: um fosso marcava os limites do território cartaginês, e se os púnicos o transpusessem era o mesmo que declarar guerra a Roma. a este estado de dependência terá tentado lutar Aníbal, mas uma denúncia obrigaram-no a ir para Oriente.&lt;br /&gt;   A Segunda Guerra Púnica foi um ponto de viragem na história romana, com profundas implicações para a República. A mais imediata foi a aquisição do Império, no espaço de cinquenta anos Roma adquiriu a maior parte do Mediterrâneo ocidental. A República tinha agora que ajustar as a administração, a política externa e sistema de alianças para governar esses novos territórios.&lt;br /&gt;   Para isso precisava de um exército em cada um desse pontos, assim o exército transformar-se--ia na chave do Império e teria um papel primordial na sociedade.&lt;br /&gt;   A única potência que restava era a Grécia, Roma já havia lutado a Macedónia, não tardaria iria subjugar o resto da zona. Outra ameaça a Roma era Aníbal, ou seja, a sua memória que nunca mais largaria Roma.&lt;br /&gt;   Os 14 anos que Aníbal passou em Itália foram o suficiente para a destruir. O sul da Itália ficaria para sempre empobrecida, as cidades destruídas, as colheitas perdidas, a quebra demográfica, o sofrimento das populações – todas as vicissitudes pelas quais passou o homem comum foram propositadamente esquecidas neste trabalho, mas são tão importantes como o resto.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111357992312815709?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111357992312815709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111357992312815709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/02/cartago-parte-iv.html' title='Cartago - Parte IV'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111357964043761954</id><published>2005-01-25T16:38:00.000Z</published><updated>2005-04-15T16:40:40.446+01:00</updated><title type='text'>Cartago - Parte III</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Parte III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Roma, nas vésperas da Primeira Guerra púnica, dominava toda a Itália. Submeteu todos os povos itálicos e as cidades gregas do sul. Um símbolo desta conquista foi a vitória sobre  a coligação de algumas das forças inimigas de Roma ( lucanos, etruscos, gauleses e cidades gregas). Sobrava apenas Tarento, que deu origem, como vimos, à campanha de Pirro mas, caindo em 272 a.C., na aliança romana. Assim, a cidade de Romúlo e Remo era a nova herdeira e protectora do helenismo e, apesar dos tratados entre Roma e Cartago de cooperação e  apoio mútuo contra Pirro, por exemplo o de 278 a.C., podia atacar as forças africanas caso elas pusessem em causa esse helenismo que Roma se dispôs a defender.&lt;br /&gt;   A Roma que começou o conflito com os poensi (daqui deriva a palavra púnico) estava numa fase de rápido amadurecimento, as instituições políticas bem enraizadas, o exército bem treinado (apesar da debilidade naval) depois de duzentos anos de guerras constantes, tudo polvilhado por um forte patriotismo. A Cartago do mesmo período, tinha o domínio do mar, a riqueza, logo os mercenários, cuja abundância iria trazer, como veremos, graves consequências, mais as vantagens de uma cultura oriental / semítica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Causas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   “ A Sicília é a mais bela de todas as ilhas, ela pode contribuir infinitamente para o poderio de um Império.” (Diodoro, XXIII, frags.) – esta citação parece ter sido ouvida por romanos e púnicos, pois a principal causa do conflito foram as ambições de ambas as potências em relação ao domínio da ilha. De facto, Cartago já dominava a Sicília ocidental e ameaçava a Siracusa de Hierão II e a Messina mamertina, ficando, deste modo, Roma alheada das potencialidades sicilianas, nomeadamente da navegação no estreito de Messina, estrategicamente importante para a entrada no mar Tirreno.&lt;br /&gt;   Tratados entre Roma e Cartago, 508,348,306 e o acima referido de 278 a.C., demarcavam bem o limite entre as duas áreas de influência – sul de Itália para Roma e a Sicília para Cartago: os romanos não cumpriram a sua parte. Isto acaba por ser normal, pois as duas forças estão demasiado próximas e com ambições demasiado grandes para não se chocarem. A guerra acaba por ser inevitável.&lt;br /&gt;   Messina e Siracusa estavam em guerra e cada uma das potências ocidentais vai apoiar lados opostos. Os púnicos conciliam as duas forças em guerra, aliando-se logo depois a Siracusa, bloqueiam o estreito e ocupam Messina, este acto de má fé cartaginesa vai levar os mamertinos, aliados dos romanos de Régio, a pedir auxílio a Roma “...em nome do sangue que os unia.” (Políbio, I, 10). Entretanto, uma frota cartaginesa impedira barcos romanos de passarem o estreito, logo depois forças romanas obrigaram os púnicos a retirarem-se apoderando-se de um seu almirante, Hanão, Cartago respondeu com uma força maior. Roma responde com tropas consulares (Ápio Cláudio). A guerra deixava de ser local para passar a ser global. Roma pela primeira vez enceta uma campanha militar fora de Itália, logo contra dois adversários.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;264 / 241 a.C. – em torno da questão sicíliana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A guerra tinha agora um carácter oficial. A ambição de dominar a Sicília provocou uma transformação da estratégia romana – parafraseando J. Cousin, pode-se analisar essa mudança como uma passagem da “aventura terrestre” para a “aventura marítima”, indispensável para quem quer lutar pela posse de uma ilha. Esta nova atitude exigia um cambio da própria mentalidade colectiva do povo romano, enraizado à terra, cujo terror do mar nos é transmitido pelos poetas líricos e épicos e para quem a glória só se adquire na guerra terrestre. Mas ao analisar as lendas mais ouvidas pelos romanos, conclui-se isto: o romano sentia uma espécie de atracção fatal pelo mar e  tempestades. A marinha de Roma desenvolveu-se, graças aos estaleiros do sul da Itália, depois das outras potências mediterrânicas. Esta situação contrasta de sobremaneira com a relação aberta, confiante e madura do povo cartaginês, descendentes dos comerciantes fenícios, com o mar. À primeira vista, Cartago, pelo menos no aspecto naval, parece ter grande vantagem, pois numa segunda fase a Primeira Guerra Púnica foi travada no mar e em África (aqui a travessia do mar surgia como inevitável). Como veremos a vitória romana deveu-se ao grande esforço do povo romano no sentido de colmatar essa falha, para frisar este ponto: quando Ápio Cláudio vai com uma armada para Messina só tinha ao seu dispor barcos aliados de Roma.&lt;br /&gt;   Para melhor compreender o primeiro conflito entre as potências ocidentais utilizaremos uma proposta de B. Combet-Farnoux que esquematiza os seus vinte e três de duração em quatro fases sucessivas, acompanharemos essa análise mais factual com um estudo da evolução das forças navais dos dois antagonistas, visto que ela foi fundamental para o desenlace da guerra.&lt;br /&gt;   Numa 1ª fase (264 / 241 a.C.), a Sicília foi o campo de batalha. Roma está instalada em Messina, indo, como vimos, contra os tratados antigos, principal causa da guerra, pretendendo que Cartago reconheça essa sua presença. Segundo Políbio, a totalidade das tropas romanas foram enviadas para a ilha, dois exércitos consulares, o equivalente a quatro legiões num total provável de 40000 soldados, à medida que prossegue a marcha os aliados de ontem dos púnicos viram-se para o lado romano, nomeadamente Hierão II de Siracusa, pois essa aliança nunca foi muito bem vista em Siracusa. De facto, os siracusanos em 263 a.C. fazem uma aliança com Roma, tornando-se “...amigos e fieis aliados.” (Políbio, I, 16), mas ficando encarregues de um tributo até 248 a.C.. O apoio de Siracusa contribuiu para a vitória romana, pois além da poderosa frota que possui era um importante ponto de reabastecimento possuía fortificações aperfeiçoadas pelo conselheiro militar de Hierão II, de seu nome Arquimedes, personagem que ocupa o nosso imaginário, protagonista da célebre expressão “Eureka! Eureka!” (“Achei! Achei!”). Esta aliança fez os púnicos perderem a sua base de apoio a leste da ilha, mas a sua instalação a poente estava bem segura, pois detinham o domínio do mar e Roma sem uma frota que pudesse rivalizar com a africana pouco podia fazer, além disso a armada púnica atacava as costas italianas. O cerco e consequente tomada de Agrigento (262 a.C.), cidade aliada de Cartago foi uma excepção de difícil concretização, compreendendo-se, assim, porque é que em Roma “...a alegria foi geral.” (Políbio, I, 20). De acordo com o estudo de J. Cousin, confirmado pela leitura de Políbio e Tito Lívio, Roma no início da guerra contava com 160 barcos, isto se aceitarmos a tradicional “precisão” dos números “livianos”: 100 quinquerremes e 20 trirremes (confirmado em Políbio) duunvirais construídos. “...decidiram construir navios de cinco filas de remos e vinte trirremes.” (Políbio, I, 20), mais alguns, como por exemplo, 25 navios italiotas entre outros, até se chegar à quantidade proposta pelos autores. Apesar de logo no início das hostilidades Roma ter perdido 17 unidades, este esforço de desenvolvimento naval, a primeira vez que os romanos equiparam uma frota, seria recompensado pelas sucessivas vitórias navais da 2ª etapa.&lt;br /&gt;   A 2ª fase ( 260 / 255-54 a.C.) foi marcada pela superioridade romana. O almirante romano Cornélio é aprisionado pelos púnicos, este facto acaba por ser importante, pois quem o vai substituir na liderança da armada de Roma, constituída por barcos “...mal construídos...” (Políbio, I, 22), é o general das tropas terrestres Duillio o vencedor em Milas (260 a.C.), onde Roma, de acordo com os autores antigos, possuía 140 navios, aprisionou 30 navios púnicos e afundou 17, desconhecem-se as perdas romanas. Esta vitória naval deu animo aos romanos que conquistaram rapidamente várias zonas da Sicília, apesar da armada púnica continuar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTA:&lt;br /&gt;   Políbio (210 / 128 a.C.) foi um político e historiador grego. Nasceu e morreu em Megalópolis (Arcádia). Por entre as suas obras destaca-se Historia, que relata, em quarenta livros, todo o período desde o início da Primeira Guerra Púnica até ao fim da Terceira. Esta obra marcou a evolução da ciência histórica. Os livros I e II tratam das ocorrências do espaço de tempo decorrido entre 264 / 221 a.C. (do início da Primeira ao começo da Segunda guerra entre Roma e Cartago). O III começa onde acabou o II e vai até à batalha de Canas. O IV e V não referem as Guerras Púnicas. Dos restantes livros só nos restam fragmentos. O método de Políbio é de cariz científico. Era um viajante, fala do que viu, nomeadamente da Hispânia, prima pela imparcialidade e está mais próximo dos acontecimentos. Não floreia a obra com passagens míticas ou anedóticas desnecessárias para o rigor histórico. A única lacuna da obra é a pobreza de estilo, na arte da escrita.  Concluindo: mais credível que Tito Lívio, mas menos agradável de ler.          &lt;br /&gt;perfeitamente operacional. Todavia a guerra arrasta-se até 256 a.C., a que não é alheio o desprezo da mentalidade rural dos italianos pelas campanhas navais, sendo de salientar apenas a vitória romana em Tíndaris, devido à superioridade numérica das suas forças, perdem apenas 8 barcos. Então surge no espírito romano o desejo de “...passar a África e transportar para lá o teatro da guerra...” (Políbio, I, 26), a missão é preparada com um ano de antecedência. Dessa missão é encarregue o cônsul M. A. Régulo. A guerra começa a ser travada em solo africano no ano de 256 a.C. Antes do desembarque, teve lugar a batalha naval de Ecnomo, perto de Aspis, saldando-se por uma vitória romana, na narração de Políbio, plena de incongruências, refere-se que de 330 barcos oriundos de Óstia 24 foram afundados e dos 350 púnicos, 30 foram ao fundo e 64 apresados. Esta derrota dificultou a defesa cartaginesa, assim, o desembarque em África foi realizado “...sem problemas e fizeram o cerco a Clipeia.” (Polibio, I, 29), transformada em centro de operações, pois a estação estava demasiado avançada. Os cartagineses deparavam-se com revoltas númidas e dificuldades de abastecer a metrópole. Entretanto, os soldados do Tibre haviam tomado dois pontos estratégicos importantes: Aléria e Ólbia, na Córsega e Sardenha, respectivamente. Régulo recusou a paz e acaba derrotado e feito prisioneiro pelos mercenários púnicos liderados pelo grego Xântipo, “...formado segundo a disciplina lacedemónia e que conhecia a fundo a arte da guerra...”, em 255 a.C.. O exército romano foi obrigado a reembarcar, durante a retirada teve, paradoxalmente, a maior vitória da guerra junto do cabo Hermeu, segundo o último autor citado, aquando desta batalha Roma tinha 350 navios, não menciona os navios perdidos, e Cartago de 200 perdeu 114. A vantagem conseguida foi perdida logo a seguir devido a uma tempestade ao largo de Camarino “... de 364 navios não sobraram mais que 24.” (Políbio, I, 37) – tudo isto também em 255 a.C., ambos os antagonistas estavam enfraquecidos. Vejamos algumas das incongruências contabilisticas dos autores clássicos, nomeadamente de Políbio: em relação aos romanos – em Hermeu tinham 350 barcos (não indicando os que foram afundados), logo a seguir, no regresso, perderam 364?? na tempestade, sobrando ainda 80 ou 24 (esta hesitação deve-se ao facto de  J. Cousin, baseado em Políbio, mencionar 80, enquanto que na bibliografia do mesmo autor clássico que consultei, indica o número 24, aliás como está citado acima), isto é estranho dado que na tempestade foram perdidos barcos que aparentemente não existiam. Em relação à contabilidade púnica – após Ecnomo possuíam 256 navios, devido às perdas, mas começaram a batalha de Hermeu com apenas 200, que terá acontecido aos outros 56? Claro que é muito subjectivo discutir estes pormenores, mas de qualquer forma tem-se de salientar o facto de trabalhar incidindo sobre os autores antigos sem recorrer a outras fontes dada a falibilidade dos mesmos, devido quiçá a má interpretação das fontes ou apenas a parcialidade patriótica, aliás como é perfeitamente visível em Tito Lívio.&lt;br /&gt;   A 3ª fase (255-54 / 247 a.C.), é passada na Sicília ou ao seu largo, Roma desiste de atacar África e opta pelas possessões púnicas no ocidente da ilha. Uma guerra terrestre de cercos e bloqueios, em que os impasses preponderaram – Cartago conquistou Drépano (esta vitória deu grande glória ao almirante cartaginês Aderbal e desonra a P. C. Pulcher) e Camarino, mas perdeu Panormo, resistindo em Lilibeu liderados por Himílcone. Este clima de impasse, provado pelos factos atrás referidos, foi quebrado por duas importantes vitórias navais púnicas, devida em grande parte à maior experiência dos seus almirantes face aos almirantes efémeros de Roma. ambas as derrotas, uma com o cônsul P. Claudio outra com J. Pullus, foram frente ao almirante Carthalão. Logo a seguir, mais uma tempestade na mesma zona da anterior, em Camarino, arrasava completamente com a frota romana, sobraram apenas dois barcos, acrescentando-se estas perdas aos cerca de 600 / 700 navios perdidos em vinte e três anos de conflito. Nesta fase aconteceu o pior período da guerra para Roma – 249 a.C., o annus ater. Cartago, agora com superioridade a todos os níveis, nomeadamente marítimo, mas com problemas internos, necessidades do Tesouro e preferência de uma parte do Senado pelos lucros do comércio ao prejuízo da guerra, foi incapaz de solucionar os problemas em duas frentes, preferindo deixar a situação externa a balançar. Esta atitude custou aos africanos a vitória e mudou o rumo da História. Roma usando de todas as suas virtudes recompôs-se.&lt;br /&gt;   A 4ª fase (247 / 241 a.C.) adivinhava um fim próximo para os antagonismos, ambas as potências davam provas de um total esgotamento, aliás, no fim, Cartago mais que derrotada estava exausta e  o facto de permanecer independente demonstram que Roma estava também ela de rastos. Na Sicília, entre o monte Heircté e o monte Érix, acontecia daquela espécie de guerrilha, propícias à estagnação das posições e à eternidade da guerra. Amílcar Barca (pai de Aníbal) líder púnico dessa luta pelo cansaço não tinha os apoios que desejava da metrópole devido aos motivos internos já referidos, por isso faltavam-lhe meios, nomeadamente da armada, na maior parte desarmada. Roma não podia fazer melhor, pois tinha uma grande lacuna a nível naval, isso impedia-lhe o domínio da ilha. Assim, tinham ambos pontos fracos. Roma foi a primeira a resolver os seus problemas, apoiada financeiramente nos cidadãos ricos, conseguiu uma nova frota em 243 / 242 a.C. e “...colocam de novo as suas esperanças nos seus barcos.” (Políbio, I, 59), Roma nunca tinha tido uma frota tão boa. O fim desta guerra extenuante chega em 241 a.C., quando a armada romana liderada por Lutácio Catulo, nas ilhas Égates consegue derrotar as forças púnicas, não sendo esta das piores catástrofes da guerra, foi-o devido ao esgotamento total de Cartago. O tratado de paz, um primeiro não foi ratificado pelo povo de Roma, elaborado de forma a pôr a ex-colónia de Tiro K.O. durante longos anos: renunciava às ilhas Lipari e a Sicília, não podia recrutar mercenários em Itália e aos aliados romanos e era obrigada a pagar 3 200 talentos em dez anos, acrescentados (devido a protestos púnicos devido a abusos romanos) mais tarde de 1200 talentos suplementares e a perda da Córsega e Sardenha em 238 a.C. (espécie de pagamento da neutralidade romana nos problemas internos de Cartago), Roma aproveitava, assim, as revoltas internas de Cartago não para a eliminar de vez, algo de que se viria a arrepender, mas sim para extorquir-lhes mais riquezas que, apesar de tudo, a sua frota mercante continuava a gerar. Cartago perdia ingloriamente, mas o desejo de desforra continuava bem presente. Desde Políbio que é normal atribuir a vitória romana à firmeza do Senado e às virtudes morais do seu povo, pois nenhum romano se salientou, de facto valeu a Roma a sua força colectiva e os erros e hesitações púnicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consequências&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A primeira ilação a retirar, e a que teria consequências mais longínquas, é sobre a experiência naval retirada por Roma destas maciças expedições navais conduzidas fora de Itália, preponderante para quem no futuro iria dominar toda a bacia do mar Mediterrâneo, um Império que ia, no século II d. C., desde a Arménia à Tingitânia, do Egipto à muralha de Adriano.&lt;br /&gt;   As consequências temporalmente mais próximas foram as guerras civis  despoletadas tanto em Itália como em África e que “...os romanos terminaram (...) com felicidade e rapidez...” (Políbio, I, 65), ao contrário, em Cartago a resolução foi muito mais difícil.&lt;br /&gt;   Roma saboreia alguns momentos de acalmia, aproveitando para submeter os piratas da Ilíria que atacavam frequentemente as costas adriáticas, desembarcar na Dalmácia em 229 e 220 a.C., formar alianças com colónias gregas como Epidamno, Apolónia (estava, assim, em contacto directo com o mundo helenístico) e para ocupar progressivamente a Córsega e Sardenha. Mas, estava para chegar um perigo ainda maior – o tumultos gallicus –, estava ainda bem presente o saque de Roma pelos gauleses em 390 a.C.. Uma primeira revolta é parada por uma trégua, mas rapidamente uma coligação de gauleses se prepara para atacar o norte da Itália, indo até onde fosse possível, acaba por ser derrotada na batalha de Telamone em 225 a.C., repelindo-os para os Alpes perseguidos pelas legiões os submetem, ocupam Milão em 222 a.C., por esta data toda a península era dirigida por ordens romanas.&lt;br /&gt;   Cartago ,no intervalo entre os dois conflitos com Roma, teve em mãos a “ guerra inexpiável”, conduzida por mercenários ociosos e sem pagamentos, e uma luta política, entre os partidos mercantil e o partido apologista da guerra, que já se haviam travado de razões durante o desenrolar da Primeira Guerra Púnica. A revolta mercenária, à qual se  juntaram algumas revoltas de povos indígenas, largou o caos em África durante três anos, liderados pelo campâniano Espêndio e por Matos, cercaram cidades tão importantes como Útica ou Hipona, chegando mesmo a por em causa a existência do Estado púnico, que apenas sobreviveu graças à compra da neutralidade romana e, também, à ajuda de Siracusa, Hierão II “...não queria que essa República (Roma) se tornasse única potência...” (Políbio, I, 83), a habilidade do seu líder em jogar nos dois lados deu a Siracusa, último reduto grego da Sicília, hipótese de sobreviver até 212 a.C. (pouco depois da morte de Hierão II), pois ao abandonar a aliança romana para se aliar a Aníbal, provocou a sua conquista por Marcelo. É o fim da pátria de Arquimedes, que morre durante essa conquista, cujas máquinas de resistência a tentaram impedir. A situação complicara-se ainda mais devido às falhas do general Hanão, por isso é nomeado Amílcar Barca general, este consegue derrotar os mercenários e matar os seus líderes – “...todas as partes de África reconheceram a autoridade de Cartago...” (Políbio, I, 88). Na luta política, o partido mercantil aparentemente parecia ter vencido a contenda, visto que desviou o partido do exército para a conquista de África e Hispânia, deixavam, assim, de ter obstáculos entre eles e o lucro. Mas esta solução foi um autêntico tiro no pé, pois foi a partir da Hispânia que começou a Segunda Guerra Púnica.&lt;br /&gt;   Concluímos, então, que os vinte e três anos de guerra externa provocaram um certo desleixo na resolução dos problemas internos, logo a Primeira Guerra Púnica teve directamente a ver, principalmente no caso cartaginês, com as convulsões internas, sendo estas, por isso, incluídas nas consequências do primeiro conflito em estudo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111357964043761954?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111357964043761954'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111357964043761954'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/01/cartago-parte-iii.html' title='Cartago - Parte III'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111334743025263966</id><published>2005-01-18T00:08:00.000Z</published><updated>2005-04-15T16:38:39.776+01:00</updated><title type='text'>Cartago - Partes I e II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Parte I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cartago era uma colónia fenícia, fundada por tírios no século IX a.C. Pouco depois acabaria por tomar o lugar da sua metrópole no Mediterrâneo Ocidental, pois esta via-se debilitada devido às circunstâncias políticas geradas pelos grandes Impérios Orientais.&lt;br /&gt;Até ao início das Guerras Púnicas, Cartago desenvolveu-se fortemente, atingindo o auge entre os séculos V e III a.C.. Para isso lutou em África (númidas e berberes), na Sicília ( colónias gregas), na Sardenha e Córsega (etruscos), na Hispânia e foz do Ródano, golfo de Leão (colonos gregos da Fócida). O poderio cartaginês era mercantil: matérias- primas da Hispânia e sul da Bretanha (Cornualha), incidindo principalmente no estanho, matéria primordial num mundo em que o bronze era ainda bastante importante, assim, adquirindo, directamente ou, como era talvez mais usual, de forma indirecta através dos povos proto-históricos peninsulares, produtos autóctones ou oriundos das respectivas relações atlânticas entre a Bretanha, Gália e Hispânia (*),não com o apoio do já desaparecido reino de Tartessos dos tempos fenícios, mas através das linhas milenares de intercâmbio interno ; produtos preciosos do Sudão (escravos, marfim, ouro), da África atlântica, do Saara, do rio Níger – de salientar a expedição, até ao coração da África negra, de Hanão em 525 a.C. (Guiné e Camarões). Esta vocação marítima e comercial não significa atraso agrícola, bem pelo contrário, as apuradas técnicas de cultivo foram posteriormente adoptadas pelos romanos – livros de Magão.&lt;br /&gt;Cartago era uma oligarquia, uma república aristocrática, governada por um Senado de mercadores, dirigido pelas grandes famílias que tiranicamente se apoia nas classes mais baixas para chegar ao poder (os Barcas).&lt;br /&gt;A religião, a cultura e a arte cartaginesa são uma síntese do fundamento fenício e de influências libícas, helénicas e egípcias (saítas e persas).&lt;br /&gt;Pode-se, então dizer que Cartago nas vésperas das hostilidades com Roma tinha uma civilização superior à dos seus inimigos, quanto ao bem-estar quotidiano, ao conhecimento científico e ao cosmopolitismo cultural.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(*) Barry Cunliffe, Atlantic Relations, Conferência realizada no Congresso de Proto-História Europeia, Guimarães, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parte II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O período entre a parte final do século IV a.C. e o início das Guerras Púnicas caracteriza-se por um movimento geo-político-militar entre o norte de África (Cartago) e o sul de Itália (Roma), cujo principal campo de manobras será a Sicília helenizada em decadência. Assim, este choque entre a cultura latina de Roma, a oriental de Cartago e a grega da Sicília servirá de preparação para a Primeira Guerra Púnica e de sentença de morte para as colónias gregas da ilha, cujo canto de cisne será o reinado de Hierão II de Siracusa, um dos protagonistas da guerra entre Roma e Cartago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agatocles, Pirro e Hierão II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As esferas de influência de Roma e Cartago, desde fins do século IV a.C., expandem-se em todo o ocidente mediterrânico a um ritmo vertiginoso, colocando em perigo a sobrevivência do Ocidente grego. Durante este período Roma domina toda a Campânia e ao mesmo tempo aumenta o seu interesse pela Magna Grécia, demonstrado inequivocamente apenas em 282 a.C.. A pressão dos povos itálicos sobre as colónias gregas do sul da Itália é cada vez maior, entre as quais se encontra Tarento que obrigada a chamar em seu auxilio, por esta ordem, Arquidamo (rei de Esparta), Alexandre-o-Molosso (tio de Pirro que forma um reino efémero no sul da península) e o lacedemónio Cleónimo. Por sua vez a Sicília grega é pressionada pelas ambições cartaginesas.&lt;br /&gt;Na Sicília surge-nos um personagem notável, mais propriamente em Siracusa – é Agatocles (319 / 289 a.C.). Este democrata sobrepôs-se ao poder oligarquico, afirma-se na ilha à custa de constantes purgas contra os aristocratas, a sua política externa tem dois momentos altos: o primeiro é a expedição que faz contra os púnicos em plena Líbia (cerca de cem anos antes de Cipião, o africano), apesar do fracasso conseguiu-se um equilíbrio tenso, tipo a Guerra Fria do nosso século; o segundo, a campanha na Itália em auxílio aos tarentinos contra os Brútios.&lt;br /&gt;Após a morte de Agatocles (sogro de Pirro) os siracusanos encontram três tipos de problemas: os conflitos internos, o perigo púnico e as ameaças dos mamertinos (mercenários campanienses trazidos por Agatocles que tomaram em 289 a.C. Messina, cidade sicíliana de enorme importância que dá o nome ao estreito que separa a ilha, do sul da Itália), estes últimos vão ter um papel importante na origem da Primeira Guerra Púnica.&lt;br /&gt;Como já foi mencionado os romanos em 282 a.C. demonstraram abertamente o seu interesse pelo sul grego da península, pois nesse ano quebrou um tratado que tinha com Tarento, cujo conteúdo proibia os barcos romanos de passarem o cabo Lacínio. Os tarentinos optam pela guerra, elegendo como chefe o rei do Épiro – Pirro (primo de Alexandre Magno) que já havia dado provas do seu génio militar, segundo Diodoro ele fez a guerra em Itália durante “...dois anos e quatro meses...”.&lt;br /&gt;O Épiro situado a norte da Grécia, vizinho da Macedónia, era um Estado federal constituído por três povos, tendo os Molossos predominância sobre Tesprotos e Caónios. O grande período de protagonismo deste reino dá-se exactamente no reinado de Pirro, a única vez que suplanta a Macedónia, pois além de expandir o território e helenizá-lo, tem uma participação activa na política externa. Até à sua integração na província romana da Macedónia em 148 a.C., a história epirota, que acaba com esta mesma integração, é de importância muito reduzida.&lt;br /&gt;A sua campanha (281 / 276 a.C.) tinha o objectivo de criar um Império grego do Ocidente, abrangendo o sul da Itália e a Sicília. Rapidamente consegue pôr ao seu lado as cidades da Magna Grécia, brútios e lucânios, para desespero dos tarentinos impõe-lhes uma rígida disciplina militar. Pirro “...o Alexandre do Ocidente...” (Pierre Lévêque), consegue duas grandes vitórias iniciais contra os romanos em Heracleia (280 a.C.) e Áusculo (279 a.C.), acampa com as suas tropas perto de Roma, em Preneste, não ataca a futura senhora do mundo antigo, pois pretende usá-la para a concretização do seu objectivo. Um pedido de auxilio chega da Sicília, Pirro hesitante abandona a Itália a caminho da ilha onde renovará os seus recursos para mais tarde continuar o ajuste de contas com Roma. Todavia havia chegado a altura de fazer o mesmo com Cartago, Pirro expulsa-os da Sicília, excepto de Lilibeu, cujo cerco e consequente oposição púnica está relatado em Diodoro. Pretende fazer o mesmo que o seu sogro e atacar os púnicos em África, mas a contestação sicíliana impedem-no. De salientar que tanto em Tarento como na Sicília ao regozijo inicial pela chegada de Pirro contrapõem-se as acusações finais de tirania. Desiludido com a Sicília regressa à Itália, lutando novamente com os romanos em Benevento, uma “...batalha duvidosa...” (P. Lévêque). Logo após regressa ao Épiro com o desejo de regressar para concluir o seu objectivo, mas a sua morte em Argos, no Peloponeso, no ano de 272 a.C. interrompeu a façanha.&lt;br /&gt;A historiografia actual contraria as análises dos historiadores antigos sobre esta figura histórica, assim da teoria grega do rei conquistador ou a teoria romana do rei gentleman surge- -nos a imagem de um organizador metódico praticando uma política monetária que visava unificar o Ocidente grego. A utopia de Pirro foi a derradeira tentativa de salvar o helenismo ocidental, sujeito ao desleixo dos próprios gregos ocidentais e ambições romanas e púnicas. Com o fim de Pirro a independência da Magna Grécia termina: Tarento cai em 272 a.C., “Vencida Tarento, quem é que podia ter ainda audácia?” (Floro I, 13, in P. Lévêque).&lt;br /&gt;Siracusa é uma excepção, os seus últimos tempos de livre arbítrio passam-se no reinado de Hierão II (275? / 215), diplomata culto e corajoso que vai ter um papel preponderante na Primeira Guerra Púnica e é ainda rei de Siracusa nos inícios da Segunda Guerra Púnica. Poucos anos após a sua morte extingui-se a Sicília grega.&lt;br /&gt;Concluindo, o descalabro do mundo grego do ocidente, que podia ter acontecido em fins do século IV a.C., é simplesmente atrasado por estes três homens: Agatocles, Pirro e Hierão II.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111334743025263966?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111334743025263966'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111334743025263966'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2005/01/cartago-partes-i-e-ii.html' title='Cartago - Partes I e II'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111317769943168551</id><published>2004-12-01T06:50:00.000Z</published><updated>2005-04-11T01:01:39.433+01:00</updated><title type='text'>Pacheco Pereira tem razão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;«Se fosse americano, votaria Bush. Fica dito, até porque é muito possível que ganhe Kerry. Não vale a pena somar muitas explicações ao que tenho vindo a dizer nos últimos anos. Kerry trará confusão e hesitação numa política de guerra que não sobrevive sem determinação. No dia seguinte, os assassinos da Al Qaida e do Baas começarão a retirar as lições e a jogar tudo por tudo no terror. Bush trará excessos e erros, como no passado, mas manterá o rumo numa política que é a única que hoje defronta o terrorismo apocalíptico na sua essência.»...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este “Fica dito” pertence ao amigo Pacheco Pereira e foi lançado no Abrupto, riquíssimo blog realizado durante as pausas no intenso trabalho que é escrever a biografia do comunista Cunhal. Tenho a dizer que ainda bem que o meu querido Pacheco, tal como o estimado João Pereira Coutinho, não são americanos, se tal assim fosse o nosso amado país seria bem mais pobre. Contudo, é evidente a pequenez da Pátria perante a grandeza intelectual de tais senhores. Felizmente, amigo Pacheco, Bush ganhou. Assim, a força de Cristo estará presente em todo o mundo infiel através do exército do nobre povo americano, tendo o fogo dos seus canhões a virtude de arrasar os que não seguem a lei de Nosso Senhor. Tem razão Pacheco, Kerry seria um presidente fraco, além de perigosamente esquerdista, e realmente esta guerra necessita de determinação. Os maometanos têm que aprender a lição: os cristãos não se deixam dominar. Os mártires de Nova Iorque serão vingados, nós, os seguidores da verdadeira religião vingaremos cada mártir nosso com a morte de mil cães islamitas. Bush é e continuará a ser o ferro em brasa da vingança ocidental. Só numa coisa tenho que contrariar o meu querido Pacheco Pereira, Bush nunca cometeu erros no passado, nem os cometerá no futuro, pois a sua mão justiceira é conduzida por Deus, pelo Deus autêntico, pai de Jesus Cristo. Fulminaremos da face da Terra os assassinos e terroristas muçulmanos em prol da Paz.      &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111317769943168551?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317769943168551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317769943168551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/12/pacheco-pereira-tem-razo.html' title='Pacheco Pereira tem razão'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-110112478439583091</id><published>2004-11-22T11:58:00.000Z</published><updated>2004-11-22T23:41:47.910Z</updated><title type='text'>As Muralhas - Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;... a românica e a gótica do Porto&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após a conquista sueva e, depois, visigótica, o Porto, que passara de castrum a civitas, encetou um período de retrocesso e estagnação urbana. Remetido à Pena Ventosa (actual Morro da Sé), o Porto era uma cidade de reduzida dimensão, mesmo para os parâmetros da época, submetida aos avanços e recuos das invasões bárbaras e, após 711, à conquista muçulmana. Apesar da Presúria por Vimara Peres (868), continuou a sofrer com o processo de Reconquista Peninsular. O perigo tornou-se mais ténue com a conquista de Coimbra por Fernando Magno (1064).&lt;br /&gt;O Porto era escassamente povoado, com casas de madeira e colmo, poucas de pedra, uma ermida visigótica no lugar da actual Sé românica e uma cerca de origem Baixo-Imperial (fins do século III), remodelada já depois da Presúria.&lt;br /&gt;Em 1114 a diocese foi definitivamente restaurada, começando uma fase de expansão, não só urbana, mas, também, económica e política. O agente a desencadear esse processo, lento, foi o bispo D. Hugo, senhor do Porto, principalmente após a concessão do Couto feita por D. Teresa à Diocese em 1120. O Foral de 1123 atribuído pelo bispo serviu, também, de incentivo ao povoamento e desenvolvimento.&lt;br /&gt;No século XII a muralha foi alvo de nova intervenção (construção de um cubelo). Esta muralha, dita românica, possuía quatro Portas – S. Sebastião, Sant’Ana, Verdade e Nossa Senhora de Vandoma – a primeira e a última das quais serviam a zona da actual Rua Chã. A Sé românica – concluída nos primeiros anos do reinado de D. Dinis (1279-1325), apesar da sua construção ter começado no século anterior – funcionou, a partir de então, como pólo aglutinador da cidade. Com o passar do tempo o Castelo (nome dado pelos portuenses medievais ao recinto amuralhado pela cerca velha) transformou-se numa verdadeira acrópole política, religiosa e militar. Omnipotente e omnipresente. Essa tendência esbateu-se (1) devido a uma série de factores: o crescimento da cidade para fora de muros; o aparecimento do clero regular, nomeadamente franciscanos e dominicanos; o maior protagonismo do poder régio; e um poderoso crescimento económico, promovido por uma paz duradoura, colocando o Porto à frente de um vasto hinterland regional, levando ao aparecimento de uma burguesia forte.&lt;br /&gt;Esta transformação ocorrida na cidade teve lugar, essencialmente, no século XIII, tornando-se o Porto, já no século XIV, numa «…cidade importante, maior em arrabalde do que em almedina, decididamente comercial e marítima, capital de vastíssima região económica.».&lt;br /&gt;Esta época de expansão urbana foi fruto do crescimento tentacular do burgo primitivo para fora do muro velho. Esses tentáculos, qual rosa-dos-ventos, atingiram todas as direcções, principalmente o vale do Rio da Vila e a Ribeira, tornando premente, essencialmente para a burguesia, a necessidade de uma nova muralha que abarcasse o novo Porto. O mundo de Trezentos foi pautado pelo medo e insegurança: as pestes (a Peste Negra de 1348) e as guerras originavam crises políticas, sociais e económicas quase constantes. No caso português e portuense, a sempre presente ameaça castelhana, o crime e mendicidade provocados pelas epidemias e, sobretudo, a guerra civil entre D. Afonso IV e o infante D. Pedro, com o último a cercar a cidade, tornam evidentes as lacunas na estrutura militar. A construção da nova muralha(2), iniciada no reinado de D. Afonso IV, abandonada nos dez de governo de D. Pedro I e concluída por D. Fernando, levou em consideração as novas estratégias na arte de fazer a guerra (ter um papel activo na defesa), transformando-se num dos melhores exemplos de engenharia militar da Europa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(1) Houve, contudo, tentativas por parte do status quo, no sentido de evitar o esvaziamento demográfico, logo do poderio simbólico, da “acrópole”: a permanência do mercado semanal na Sé e a instalação dos pesos e medidas na Rua Escura permitiram a manutenção constante de pessoas e bens.&lt;br /&gt;(2) A muralha gótica – que marginava a cidade desde a Ribeira, passando por Miragaia, Monte do Olival, Hortas, Cimo de Vila e fechando nos Guindais – era servida por uma série de portas e postigos que definiam dois eixos viários essenciais. Um ia da Porta do Olival (actual Cordoaria) à Reboleira. O outro partia da Praça da Ribeira em direcção à Porta de Cimo de Vila. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-110112478439583091?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/110112478439583091'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/110112478439583091'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/11/as-muralhas-parte-i.html' title='As Muralhas - Parte I'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-110047847300128770</id><published>2004-11-15T01:25:00.000Z</published><updated>2004-11-15T00:27:53.000Z</updated><title type='text'>A Doença do Paradoxo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Homenagem a todos os políticos e à sua, digamos, versatilidade…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na passagem do Século Treze para o Catorze, Diniz, Rei de Portugal, pretendeu fazer do seu reino uma Potência Marítima. Cansada das querelas peninsulares, a jovem Nação, que dizem herdeira dos montanheses Lusitanos, aspirava a senhorear o Atlântico, virando costas à Europa. Povoada por Cristãos rústicos dominadores e por Muçulmanos urbanos dominados, esse Pedaço de Fim de Continente não possuía seguidores de Jesus que soubessem promover e dinamizar o sonho régio, assim, recorreu-se a Bons Cristãos Estrangeiros, de preferência vizinhos do Papa. Os Buttiglione, família amiga do Santo Padre, aceitaram o desafio de transformar as galeras mediterrânicas em navios capazes de cortar as violentas vagas verticais do Mar Oceano, Por Portugal. O pequeno rectângulo Ibérico descobriu e conquistou Meio Mundo e a família italiana, repletas de Honra e Prestigio, fixaram-se nesse polígono, contudo sem nunca esquecer as suas raízes e mantendo a ligação à &lt;em&gt;Prima&lt;/em&gt; Pátria.&lt;br /&gt;Passaram Séculos e Revoluções e os Tradicionais e Conservadores Buttiglione sempre se mantiveram ligados ao &lt;em&gt;Status Quo&lt;/em&gt;, em Nome de Deus, do Papa e do Catolicismo, lutando contra a deturpação da noção de Família e do Matrimónio – a cada homem, uma mulher submissa e boa mãe! Os valores de mil setecentos e oitenta e nove e de mil novecentos e setenta quatro não demoveram os Buttiglione da sua Cruzada Moral, através da Oração e da Ancestral Amizade Papal afastaram os demónios do seio familiar. Com o tempo a sociedade contaminou-se, liberalizando-se e perdendo o pudor Cristão. A família afastou-se dos centros de Poder encerrando-se na sua Herdade de Sernancelhezinho, bastião da Moral e dos Bons Costumes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sernancelhezinho, aldeia do interior rural português, entrou para a História da Medicina ao registar-se o primeiro caso de uma enfermidade que passou a ser conhecida como a Doença do Paradoxo. Eis como se desenrolou o processo.&lt;br /&gt;O Pater Familias Buttiglione, desejoso de devolver o seu Apelido à ribalta politica e governativa concorreu às eleições pelo Partido Convervador. O seu discurso em prol dos tradicionais e patriotas valores cristãos da família e o feroz combate ao pecado da homossexualidade levaram o PC a uma brilhante campanha. Rocco Buttiglione à custa do tom enérgico e das polémicas suscitadas transformou-se numa vedeta mediatizada e de presença assídua na rádio, televisão e jornais. Imparável, o português mais italiano de Portugal, conduziu o populista PC à vitória em Sernancelhezinho e no país.&lt;br /&gt;As Revoluções passaram e os Buttiglione, além de terem sobrevivido, voltaram ao Poder. O filho pródigo tornara-se ministro. Ao tomar posse da Pasta pomposamente chamada de «Direitos Fundamentais e Garantias dos Cidadãos», Rocco salientou, e passo a citar: &lt;em&gt;“O que sobretudo dá importância maior à instituição do casamento heterossexual e monogâmico, e exige estabilidade e exclusividade, é a geração e a criação dos filhos…”&lt;/em&gt;. No ponto alto dos protestos e manifestações promovidos por grupos defensores dos direitos dos homossexuais e das mães solteiras, e durante a carga policial, surgiu a contaminação.&lt;br /&gt;Rocco Buttiglione desde então que não coordena o Cérebro e a Vontade. A Doença do Paradoxo inverte o desejo do paciente, obrigando-o a dizer o oposto do que pensa, mas só a nível abstracto, isto é, Rocco não troca os nomes dos objectos ou das pessoas, do concreto. As ideias e as orientações, invertidas, do ministro colidiam com as do Partido do Governo – o Partido Conservador – sintonizando-se com as directrizes da Oposição. Pela primeira vez em quatro milhões de anos de História da Humanidade, alguém, involuntariamente, dizia ou escrevia exactamente o oposto do proposto pelo seu Pensamento.&lt;br /&gt;Deposto do Governo e abandonado pela família, Rocco é agora Porta-voz – contrariado – de uma Associação promotora do direito à interrupção voluntária da gravidez.  &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-110047847300128770?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/110047847300128770'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/110047847300128770'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/11/doena-do-paradoxo.html' title='A Doença do Paradoxo'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109978683096321027</id><published>2004-11-07T01:15:00.000Z</published><updated>2004-11-07T00:20:30.963Z</updated><title type='text'>I.K. 5 - O Deserto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O Deserto&lt;br /&gt;…é Maalouf!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tunes acolheu-me impregnada com o seu melhor perfume, numa amena madrugada de Primavera. Toda a paixão começa com um odor que recordaremos para o resto da vida – diz o cliché – a isto acrescento, uma terra pode ter fragrância de mulher, semelhante à do cabelo dourado que me envolve nas noites frias de Inverno. O doce aroma noctívago envolvia a capital tunisina.&lt;br /&gt;Urbe de feição europeia, francesa e francófona, à excepção do seu souk de ruelas labirínticas desembocando na mesquita al-Zaytuna, onde ecoa a poderosa voz clamando pela presença dos fiéis – &lt;em&gt;Alah ua akbar, Alah ua akbar, Alah ua akbar!&lt;/em&gt; – Tunes surpreende por nos ser tão familiar e simultaneamente tão distinta. Visitei-a num raro dia de chuva intensa que alagou as tais vielas tortuosas, processando-se o escoamento por uma desajustada conduta correndo pelo centro das ruas, encharcando os transeuntes até à altura do joelho. Assim, cheguei encharcado ao belo Museu do Bardo, senhor de uma riquíssima colecção de mosaicos romanos.&lt;br /&gt;A cidade cresceu à sombra do antigo esplendor de Cartago, cujas ruínas, romanas, escondem os vestígios púnicos geneticamente fenícios. Os cartagineses, povo de origem semita, dominaram o Mediterrâneo Ocidental e amedrontaram a Roma Republicana com os elefantes de Aníbal Barca até à destruição total da sua civilização, num triste epilogo da terceira guerra púnica, corria o ano de 146 a.C. Depois da queda do Império Romano chegaram os Vândalos de Genserico quando Santo Agostinho era bispo de Hipona, mais tarde foi a vez dos bizantinos e por fim os árabes islamizaram toda a população berbere antes de partirem à conquista da Hispânia, nos últimos quinhentos anos otomanos, espanhóis, franceses e alemães sucederam-se continuamente no domínio deste país magrebino.&lt;br /&gt;A História da Tunísia e de todo o Magreb – o Poente da civilização islâmica – corre tão paralelamente à nossa que acaba por consistir numa parte do corpo ibérico votada ao ostracismo. Esta zona muito antes do aparecimento de cristãos ou muçulmanos tinha a mesma cultura mediterrânica que o território hoje dividido em Itália, Espanha, Portugal... Os dois lados do &lt;em&gt;mare nostrum&lt;/em&gt; eram um só. Foi com este espírito que aterrei em Tunes.&lt;br /&gt;A descida pela costa leste a caminho do deserto e do Grande Sul revela os contrastes tunisinos. Cidades turísticas como Hammamet e os seus hotéis de cinco estrelas, Sousse e a sua mesquita-fortaleza, El-Jem e o seu coliseu romano, contrastam com as industriais Sfax e Gabès e com as aldeolas berberes – algumas trogloditas – cercadas por milhões de faustosas oliveiras, milhares de maltrapilhas cabras e centenas de bandeiras vermelhas com o crescente hasteadas nos alpendres das habitações. A chegada ao Sul árido faz-se abruptamente, sem aviso prévio o clima mediterrânico desaparece juntamente com a vegetação… al-sahara… finalmente, o deserto.&lt;br /&gt;Sinto-me Hassan, filho de Mohamed… &lt;em&gt;não venho de nenhum país, de nenhuma cidade, de nenhuma tribo. Sou filho da estrada, a minha pátria é a caravana, e a minha vida a mais inesperada das travessias&lt;/em&gt;. A musa de Amin Maalouf foi, provavelmente, a areia escaldante do deserto, a minha seria a mulher que em &lt;em&gt;redor do seu pescoço desnudado&lt;/em&gt; expusesse &lt;em&gt;um colar de rubis, com a pedra central pendendo orgulhosamente entre os seios&lt;/em&gt;…&lt;br /&gt;O caminhar lento e bamboleante do dromedário, carregando com a sua única bossa magotes de turistas, marca o ritmo do deserto. Ao Sol do meio-dia tudo é dourado como o &lt;em&gt;cabelo que me envolve nas noites frias de Inverno&lt;/em&gt;, período ideal para pegar no cachimbo de água e baforar tabaco de maçã enquanto se beberica chá de menta ou vinho de palma, olhando o horizonte e aguardando a miragem que transforme a imensidão arenosa em oásis repletos de palmeiras e água relaxante. Nefta é um desses oásis – este melhorado pela mão do Homem – que se percorre no lombo de um burro ou puxado por um cavalo, perseguido por uma multidão de crianças vendendo rosas-do-deserto em troca de alguns dinares e pedindo um &lt;em&gt;souvenir&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;O deserto fica para trás e sobe-se pelo interior, paralelamente à fronteira argelina, em direcção ao Norte viçoso. A meio do país encontra-se o Shatt-al-Gharid, imenso lago salgado de brilho diamantífero e aspecto lunar, seco nesta altura do ano, mas transbordante nos meses chuvosos. Vizinha à grande salina tunisina encontra-se a cidade de Tozeur, colorida por tijolos vidrados profusamente decorados com motivos geométricos.&lt;br /&gt;A Norte, Kairouan, a quarta cidade sagrada do Islão, a seguir a Meca, Medina e Jerusalém, ostenta um aspecto medieval, não fosse rodeada por uma larga muralha castanha de entradas estreitas. A “cidade fortificada” ergue-se orgulhosa dos seus vetustos treze séculos de cultura islâmica. Denominada como a cidade dos cinquenta templos, Kairouan, a capital espiritual dos tunisinos, tem na sua Grande Mesquita de mil e duzentos anos o farol que ilumina toda a comunidade de crentes magrebina.&lt;br /&gt;De tudo isto permanecerá o cheiro adocicado da madrugada e a calidez amarela do deserto de areias finas, nem que seja escondido num livro de Maalouf…                 &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porto, Março de 2001&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109978683096321027?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109978683096321027'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109978683096321027'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/11/ik-5-o-deserto.html' title='I.K. 5 - O Deserto'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109952870491584972</id><published>2004-11-04T01:37:00.000Z</published><updated>2004-11-04T00:38:24.916Z</updated><title type='text'>O homem que repara sanitas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um bom amigo – ideologicamente na barricada oposta à minha – disse-me hoje que perdermos demasiado tempo a comentar ou discutir as eleições presidenciais americanas era o mesmo que assumirmo-nos como neo-colónias da actual hiper-potência. Deixou implícito que desde a II Guerra Mundial os europeus atribuem à política dos EUA uma importância que realmente tem, mas que, por orgulho eurocêntrico, hipocritamente, não devíamos dar. Salientei-lhe o seu óbvio exagero, mas intrínseca e irracionalmente queria concordar com ele… Fui hipócrita. É verdade, também, que não pretendia perder tempo a debater qual o melhor presidente para os EUA, se um que atira bombas com um sorriso na cara, ou outro que as atira carrancudo, pois é evidente que, seja quem for, elas vão continuar a ser arremessadas.&lt;br /&gt;Contudo, face a esta nova vitória da América retro – do Midwest, sulista, conservadora e rural – sobre a América metro – das costas (Oeste e Nordeste) e dos Grandes Lagos, cosmopolita, progressista e urbana – não pude evitar o comentário. Há pouco, ao ter a certeza que o texano foi reeleito recordei-me da frase de um sociólogo californiano: «Kerry é o homem político, formal e impassível; Bush é como o cidadão comum, comete gaffes e enrola-se no meio dos discursos. Os americanos gostam de Bush porque ele lhes faz recordar o regular guy que vai desentupir as nossas sanitas!». Com isto termino dando razão ao meu bom amigo – se agora gastarmos algum do escasso tempo das nossas vidas a porfiar qual o melhor desentupidor dos EUA, qualquer dia chegamos ao ponto de esbanjar preciosos segundos a altercar sobre o impacto na produtividade nacional das sestas do primeiro-ministro.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109952870491584972?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109952870491584972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109952870491584972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/11/o-homem-que-repara-sanitas.html' title='O homem que repara sanitas'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109941306585283816</id><published>2004-11-02T16:29:00.000Z</published><updated>2004-11-02T16:31:05.853Z</updated><title type='text'>Mel Verde</title><content type='html'>O Livro falou-me no Verde-Mel:&lt;br /&gt;Fruto do escuro Poente rosado,&lt;br /&gt;Panaceia e bálsamo perfumado,&lt;br /&gt;Essência esquecedora do fel…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorri o Grande Mundo desde Babel&lt;br /&gt;Ao sem fim Mar Ignoto, qual Cruzado&lt;br /&gt;Buscando o doce néctar cor de prado.&lt;br /&gt;E encontrei-o, divino, sob um dossel!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não um vaso de licor esmeraldino&lt;br /&gt;Mas o Amor, metamorfose de mulher&lt;br /&gt;Em concha de líquido posídino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desaparecem as cinzas de mim,&lt;br /&gt;A ilusão real leva-me onde quer…&lt;br /&gt;Para as delícias do teu jardim. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109941306585283816?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109941306585283816'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109941306585283816'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/11/mel-verde.html' title='Mel Verde'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109907131419626974</id><published>2004-10-29T18:33:00.000+01:00</published><updated>2004-10-29T18:35:14.196+01:00</updated><title type='text'>Pedras – Parte II</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O fascínio do Homem pelo sobrenatural é eterno. Faziam parte do Património Cultural da Humanidade as lendas, estórias, contos, anedotas de heróis com capacidades incomparáveis. A força de Héracles, a astúcia de Ulisses, a alquimia medieval, as bruxas da Inquisição, o Obélix, o Hulk... Mitos, fábulas, quimeras! O talento de petrificar as pessoas era pouco considerado. Seria uma arte menor transformar as pessoas em figuras pétreas?&lt;br /&gt;Pedra cinzenta normalmente. Naquele assento de ferro forjado pintado de verde metamorfoseei-me em granito, no frio, duro e impenetrável granito. Os conversadores encasacados e os caminhantes apressados e os clientes do café em frente e os condutores e passageiros dos carros em circulação e as crianças jogadoras de futebol e as beatas corredoras e os patos dorminhocos, todos ficaram boquiabertos olhando o bloco granítico talhado num instante sobre a forma de um homem a ler o jornal de anteontem. A multidão avolumou-se em meu redor. A minha percepção do envolvente tornou-se canina, em escandaloso contraste com os sentidos dormentes do começo do dia… Ouvia vozes distantes, numa Babel orgíaca de sons. Cheirava o mar estando a quilómetros dele. Via pessoas envoltas em cápsulas de luzes variadas e coloridas e sentia-lhe os pensamentos. O prazer foi substituindo o medo inicial. O estatismo atribuía-me potencialidades jamais sonhadas, a profundidade da alma deixara de ser segredo ou mistério. Passei longas horas humanas – curtos segundos para mim – no estado pétreo. Nos dias seguintes foram notícia as pessoas-granito, pessoas-calcário, pessoas-xisto e até pessoas-mármore, dependendo das características geológicas da zona que habitavam. Os iniciados na arte da petrificação desejavam a cada minuto que chegasse a metamorfose. Entretanto, descobriu-se a fórmula.       &lt;br /&gt;Este fenómeno desencadeia-se quando se ouve rádio, se vê televisão ou se lê jornais… As horas passadas estático servindo de pouso a abutres, têm origem no espanto e conduzem à suprema felicidade. Transformamo-nos em calhau, pasmados por sermos Homens da contemporaneidade. Tempo inolvidável o que vivíamos, a História não só decorria a uma velocidade vertiginosa como era totalmente original. Tudo era novidade, nada aconteceu antes, jamais Tempo algum foi tão único.&lt;br /&gt;A petrificação tornou-se um vício, a população consumia avidamente as noticias com o intuito de se transfigurar em pedra. O vício passou a doença que passou a pandemia, as famílias desagregaram-se, a sociedade alterou-se, ninguém trabalhava ou produzia, a fome e a doença grassavam pelos campos e cidades. A nossa civilização suicidou-se e eu afastei-me do seu corpo em putrefacção. Passaram-se anos, vivo só desde então, aguardando a morte.           &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109907131419626974?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109907131419626974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109907131419626974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/pedras-parte-ii.html' title='Pedras – Parte II'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109881477561408074</id><published>2004-10-26T19:17:00.000+01:00</published><updated>2004-10-26T23:48:07.060+01:00</updated><title type='text'>Humvee e Land Rover</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Homenagem ao perspicaz iraquiano que disse: «O Humvee é agressivo. O Land Rover é amigável.».&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas ventosas e inóspitas terras da Cornualha, num dia frio de Dezembro, Mary deu à luz dois filhos. Os gémeos, logo no instante do contacto com o mundo exterior, revelaram personalidades opostas. O primeiro, moreno, de olhos castanhos – idênticos aos do pai, Joseph – não soltou um gemido, apesar de as lágrimas lhe correrem em abundância pela face. O segundo, loiro, de olhos verdes – iguais aos da mãe, Mary – esperneou exasperado, todavia não lhe brotava dos olhos um pingo salgado. O melhor amigo de Joseph, também carpinteiro, sugeriu nomes bíblicos para os meninos, o moreno seria Abel, o loiro Cain. Mary rejeitou, pois Deus havia-lhe revelado em sonhos palavras mágicas. Perante esta epifania não se hesitou e foram-lhes atribuídos os nomes oníricos: Abel passaria a chamar-se Land Rover, e Cain seria doravante Humvee.&lt;br /&gt;Embora ambos tivessem a mesma educação, agiam de formas tão dissemelhantes que não pareciam irmãos nascidos quase simultaneamente, filhos da mesma mãe e do mesmo pai. O moreno seguiu a tradição ancestral da família, apascentando os rebanhos com tal carinho que os animais o seguiam para todo o lado, escalando rochedos e saltando riachos, como se Land Rover fosse um deles. Humvee detestava a vida campestre a que estava votado, por isso vingava-se na Natureza opressora, caçando animais indiscriminadamente, derrubando árvores milenares, cuspindo o Sol e praguejando contra o vento.&lt;br /&gt;O moreno passava o tempo conduzindo as ovelhas pelos prados… Deitava-se de bruços na erva verde inspirando-a, enchendo os pulmões e inebriando o cérebro com o odor da Cornualha, terra dos seus antepassados. Conhecia todos os caminhos e atalhos, dava alcunhas às montanhas, banhava-se nos ribeiros gelados e transparentes.&lt;br /&gt;O loiro, nas horas de angústia e solidão sentava-se sobre um penedo olhando a imensidão do mar, imaginando continentes longínquos onde pudesse ser feliz. A Pátria nada significava para ele, odiava a água, o céu, as pedras e, mais que tudo, desprezava o irmão, invejando-lhe a felicidade. Humvee um dia desapareceu. Uma carta colocada junto à fraga solitária, explicava o motivo pelo qual ia atravessar o mar. Ia em busca do tio, irmão de Joseph.&lt;br /&gt;Sam emigrou para o outro lado porque execrava a ponta da ilha, sentia repulsa pelo filho dos seus pais e amava Mary. Quando partiu, tinham os gémeos seis anos, sussurrou a Humvee «Espero ver-te em breve… Aguardarei por ti!». A Land Rover nada murmurou. No Continente Desconhecido, após treze anos, Sam tornou-se rico e poderoso graças à Guerra. Vendia armas, comprava-as, prometia auxilio a um antagonista enquanto ajudava o outro. Depois do conflito florescia a Paz, obrigando Sam a enriquecer com outros negócios até regressar a discórdia. O loiro iria encontrar a vida sonhada.&lt;br /&gt;Humvee pisou a Terra Prometida a tempo de ouvir os primeiros troares da Grande Conflagração. A vontade de chocar, embater, desordenar era tanta que deu um abraço ao tio Sam e alistou-se nos exércitos, partindo em direcção à matança.&lt;br /&gt;Land Rover apaixonara-se e casou com uma amiga de sempre, uma beleza da Cornualha de olhos faiscantes e cabelos cor de fogo. O filho moreno de Joseph e Mary conservava-se o homem mais afortunado do fim meridional da ilha. Contudo, a algezira verdejante interveio na Grande Conflagração e Land Rover, pacífico desde criança, amante do silêncio das colinas e das ondas do mar, vestiu o uniforme caqui, gritou adeus à beleza da Cornualha e ao filho que esta carregava, e afastou-se, penetrando a névoa ofuscante.&lt;br /&gt;No momento em que escrevo desenrola-se a guerra nas Terras do Sul. Os exércitos defrontam-se nas areias escaldantes pontilhadas de dourado. A banalização do sangue e da morte tudo muda – a um Humvee feliz, atropelando e ferindo o inimigo, contrapõe-se um Land Rover saudoso, vendo em cada filho do adversário o seu próprio… &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109881477561408074?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109881477561408074'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109881477561408074'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/humvee-e-land-rover.html' title='Humvee e Land Rover'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-111317757220507248</id><published>2004-10-23T05:58:00.000+01:00</published><updated>2005-04-11T01:04:20.650+01:00</updated><title type='text'>O perspicaz iraquiano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um intérprete iraquiano em Bassorá, conhecedor profundo da arte da guerra anglo-saxónica desde a “Tempestade no Deserto”, lançou uma frase caracterizadora das mentalidades dos americanos dos Estados Unidos e dos almost europeens brits… Apesar de a neo-colónia europeia dos EUA tudo fazer para agradar à metrópole, as diferenças estão patentes no seguinte dito do seguidor de Maomé: «O Humvee é sinistro e agressivo. O Land Rover é amigável, confortável e sábio.». Isto é dito poucos meses depois de nós, portugueses, termos assistido estupidificados aos rituais de violência de ingleses e soberbas, bêbadas e boazonas inglesas, tudo debaixo do luar cálido de Albufeira. Além disso, acostumamo-nos a ver os soldados dos EUA a perfurar por entre a massa popular iraquiana, armados até aos dentes e de capacete enterrado na cabeça, a vociferar «Hei, you, get out of my way!» e mais algumas pérolas da mesma estirpe literária, enquanto apontam as M-16 aos olhos assustados dos autóctones. Num contraste comportamental incrível, vi há pouco na televisão soldados ingleses que usavam, em vez do marcial capacete, o tradicional e algo ridículo chapéu com a apaneleirada pena vermelha a abanar ao vento, comprando Coca-Cola a vendedores de rua… tratando-os bem, sem berraria! E por favor não me digam que é pelos primeiros lidarem com sunitas e os segundos com xiitas, este último grupo religioso é um pouquinho, quase nada, mais radical – não andassem eles a auto-esquartejar-se aos magotes em plena procissão em homenagem a Ali. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-111317757220507248?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317757220507248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/111317757220507248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/o-perspicaz-iraquiano.html' title='O perspicaz iraquiano'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109848530929328903</id><published>2004-10-22T23:47:00.000+01:00</published><updated>2004-10-26T23:55:35.990+01:00</updated><title type='text'>Manoel, El Presidente de Tumba</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Numa madrugada quente de Agosto voltou a acontecer o milagre da vida… O choro estridente e prolongado estendeu-se por toda a Hacienda, estremecendo o corpo cansado dos peóns, fazendo as aves esvoaçarem assustadas e os bagos de café caírem desamparados na terra rubra de fertilidade. A notícia do nascimento correu de boca em boca, a população fazia extensas caminhadas, organizavam-se excursões para ver o “Berrador”. Os pulmões poderosos de Manoel soltavam berros ininterruptamente, poderosos silvos agudos semelhantes a orações fervorosas transformaram a curiosidade popular em peregrinações religiosas, em romarias… A voz do menino jamais deixaria de percorrer incessantemente as Sierras da Isla pátria.&lt;br /&gt;Manoel foi crescendo. Aos seis meses já falava e aos dois anos conseguia monologar durante horas seguidas. Os educadores jesuítas consideravam a criança um prodígio, uma dádiva de Deus para liderar a nação tão martirizada de Tumba. Manoel interiorizou essa crença, sabia que a sua voz retumbante iria esmagar a ditadura e conduzir os miseráveis conterrâneos à felicidade terrena. Aos quinze anos gritava tardes inteiras a imensas multidões, camponeses ou burgueses, ricos ou pobres, todos queriam ouvir as sábias palavras do borbulhento adolescente…&lt;br /&gt;Aos dezassete anos, Manoel foi para a Universidade de La Vanana, a capital, estudar Leis. Nada se adaptava melhor às suas capacidades oratórias que o Direito. A fama de Manoel, agora Manoel Gárton, há muito que tinha chegado a La Vanana. Os intelectuais e resistentes democratas aproximaram-se do rural estudante, desejando usar o seu dom para mobilizar as massas, pobres e vexadas por um governo corrupto, a lutar por si próprias, pelas famílias, pela nação. Manoel aceitou. Entrou em contacto com as correntes socialistas e progressistas e submergiu-se nelas. Os longos discursos de horas e horas, quase infinitos, deixavam a turba em transe, a mística que exalavam convencia-os a combater. Igualdade, Fraternidade e Liberdade!&lt;br /&gt;A fúria exultante do Povo assustou o governo. As baionetas em riste saíram à rua em busca de Libertadores. Durante a noite, Manoel fugiu para salvar o Movimento de Libertação dos seus irmãos. A Revolução não estava pronta para ser colhida. A batalha continuaria no exterior.&lt;br /&gt;O exílio, no País dos Techicanos, promoveu a luta fora de Tumba. As suas compridas e queridas comunicações arrastavam milhares de ouvintes estrangeiros. Manoel tornou-se um ícone da luta contra as criminosas autocracias.&lt;br /&gt;Manoel entrou em Tumba, atacou, combateu, matou… mas foi capturado e condenado. A História absolveu-o e amnistiou-o. Novamente fora de Tumba, Manoel voltou à luta com a voz. Na capital dos Techicanos, o filho de Tumba conheceu um filho de La Plata, de seu nome Cresto Tévara. As palavras de Manoel e a acção de Tévara, juntas, tornaram a Libertação de Tumba possível.&lt;br /&gt;Ambos, com um pequeno grupo de guerrilheiros, invadiram a ilha natal de Manoel e que Tévara considerava sua, tão grande era a amizade entre os dois. As pelejas nas sierras foram duras, os dias, os meses, os anos passaram e Tumba ia-se aproximando do filho pródigo.&lt;br /&gt;No dia mais esperado Manoel teve uma entrada triunfal em La Vanana, em pé sobre as máquinas de matar foi aclamado pelo povo que ensinara a nunca desistir e durante horas, que pareceram breves instantes, proferiu as mais belas palavras… pela última vez.&lt;br /&gt;O dom de Manoel foi-lhe retirado pel’O que, numa madrugada quente de Agosto, lhe havia dado. Desde o dia mais feliz que Manuel não suporta escutar o eco da sua voz projectada para o público. Quando o faz desmaia ou cai de bruços sobre a mesma amada terra rubra de fertilidade. O dom era um mero instrumento para alcançar um fim – a Libertação de Tumba. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109848530929328903?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109848530929328903'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109848530929328903'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/manoel-el-presidente-de-tumba.html' title='Manoel, El Presidente de Tumba'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109831357041080096</id><published>2004-10-21T01:03:00.000+01:00</published><updated>2004-11-06T00:36:08.660Z</updated><title type='text'>I. K. 4 - Alcântara</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;ALCÂNTARA&lt;br /&gt;…é Antero&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mil anos, e mais, que aqui estou morto,&lt;br /&gt;Posto sobre um rochedo, à chuva e ao vento:&lt;br /&gt;Não há como eu espectro macilento…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oriundos de algures, talvez nenhures, estes plúmbeos versos de Quental – de um soneto cujo nome não recordo – abateram-se sobre mim quando hoje em plena Baia de São Marcos contemplei Alcântara… Estranha sensação esta de uma travessia de um mar nada quimérico, num barco nada fabuloso despertar em mim memórias adolescentes de poesia de um tempo em que vivia para ela. Magnífico instante da recordação de dandinar para o meu próprio ego. Salvam-se as reminiscências porque o dandismo é morto pelos anos!&lt;br /&gt;Esta cidade está morta…Mas viva a cidade! Apagou-se ainda DÂNDI e não esclerosada. Alcântara – a arábica ponte de pedra – representa a passagem, o caminho direito para o Brasil Romântico. Aqui respira-se nobreza e altivez em decomposição. As paredes derrubadas, porém outrora imponentes, fazem viajar no Tempo até ao apogeu luso para, concomitantemente, darmos razão ao velho da praia do Restelo: o desejo de fama é vaidade mal disfarçada, acabando nisto… ruínas esfareladas, igrejas sem tecto, ladeiras esburacadas, vacas e burros pastando no capim da Praça da Matriz…&lt;br /&gt;Nunca tinha entrado numa sanzala. É difícil imaginar o que os Homens da minha cor fizeram aos Homens que não têm a minha cor mas que são meus iguais. Não é fácil tocar nestas pedras, sentir este calor húmido vindo do Inferno e pensar nos homens e mulheres cortando a cana, enriquecendo a Ponte de Pedra e recebendo em troca a desumanidade suprema… Eu estive num dos milhares de Auschwitz(s) existentes no antigo Brasil colonial! Esta beleza escura, nocturna de espectro macilento é fruto da ignomínia humana. Ambiguidade… Alcântara é ambígua! Os sentimentos dicotomizam-se: no lugar de Apolo encontrei Hefesto, em vez de luz, penumbra… E eu, horaciano militante quase troquei o carpe diem pela Nox… Noite, vão para ti meus pensamentos… De novo Antero de Quental! Alcântara é Antero…&lt;br /&gt;Este é o Brasil que vim procurar…&lt;br /&gt;Sentado no repouso do meu quarto “colonial” em S. Luís, aproveito para relembrar a mim próprio: nunca saias ou regresses a esta ilha de catamaran! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sobrevoando o Atlântico Sul a caminho da Europa&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Março de 2004 &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109831357041080096?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109831357041080096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109831357041080096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/i-k-4-alcntara.html' title='I. K. 4 - Alcântara'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109820296455414825</id><published>2004-10-19T17:20:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:00:50.373+01:00</updated><title type='text'>Pedras – Parte I</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Confesso, eu fui a génese… Estava um dia descolorido e frio, sem réstia de sol e nenhuma alma na rua, julguei-me enclausurado por uma espessa e oca esfera de vidro azulado. Os meus sentidos estavam adormecidos. Os ouvidos estalavam como se subitamente escalasse uma montanha de grande altitude, os olhos remelentos e entreabertos não suportavam a pouca luminosidade do quarto, o nariz havia-se tornado num apêndice inútil, a língua dilatada e seca como aquelas penduradas na montra do talho, só o tacto mantinha as suas totais faculdades. Olhei pela janela e deixei-me deslumbrar, hipnotizado pelo vácuo, por aquele Domingo matinal triste e desabitado, metálico e sem esperança. A solidão lançou os seus tentáculos pustulosos, apertando-me a garganta num choro convulsivo e asfixiante. Durante horas, vazias de tudo, assim permaneci, quieto, saboreando o sal vindo de mim mesmo, gemendo e tremendo com medo dos próprios ecos. Decidi levantar-me e viver. Rapei a barba de três dias, lavei o corpo de trinta anos e vesti o fato comprado na semana passada. Saí. O elevador lento e sujo encheu-me de alegria, não tinha mudado, estava como sempre esteve. As pilhas de publicidade nas caixas de correio, o choro das crianças e os latidos dos cães vindos do interior das casas provavam ainda existir vida. Os vinte e três pisos do prédio degradado projectavam a sua sombra aparentemente em direcção ao infinito, esmagando as pequenas moradias circunvizinhas. O azul vivo do traje chocava com cinzento silencioso da cidade, a tristeza do dia retinha as pessoas na cama. Ninguém à vista. Sentei-me no jardim vendo as árvores depenadas e os patos do lago dormindo enroscados com a asa sobre o bico. O vento seco e gelado vindo de Norte bateu-me na cara tal e qual uma bofetada, o corpo reagiu com um arrepio e senti-me vivo. Ao longe, vi duas pessoas encasacadas conversando, mais uma do lado direito andando apressada, o café em frente abriu… Inesperadamente os carros circularam, os meninos jogaram à bola, as velhas correram para a missa, os patos acordaram. Afinal era um Domingo normal. Respirei fundo e peguei um jornal esquecido em cima do banco, repleto de notícias antigas. Abri-o com o fervor de quem se interessa pelo mundo e li-o, até certo momento… &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109820296455414825?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109820296455414825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109820296455414825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/pedras-parte-i.html' title='Pedras – Parte I'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109803637496983022</id><published>2004-10-17T19:05:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:05:23.343+01:00</updated><title type='text'>A Invasão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Mensagem recebida por um Rádio Amador em Sernancelhezinho…&lt;br /&gt;«Os habitantes de Júpiter e das colónias acompanham com crescente interesse as questões terráqueas. Transformada em hiper-potência após o final da Guerra Tépida com Saturno, Júpiter, nomeadamente o seu governo, pressionado pelos senadores da sua principal colónia lunar, Europa, ambiciona expandir-se por todo o Sistema Solar. Após os ultimatos lançados sobre Vénus e Marte, aceites sem resistência pelos regimes monárquicos vigentes – contudo, mal recebido pela massa proletária marciana que desencadeou uma revolução republicana, pondo fim a uma dinastia régia milenar – Júpiter prepara-se para investir com os seus exércitos no Planeta Azul. Numa conferência de Imprensa o porta-voz governativo vestido com o seu traje tradicional dourado com uma enorme mancha negra, deu a conhecer a estratégia para vergar a Terra.&lt;br /&gt;Simples e eficaz, assim se pretende. A invasão militar deverá ser precedida por manobras propagandísticas que visam cindir a Humanidade. O modus operandi consiste em fomentar as desavenças religiosas, geo-políticas e económicas com o objectivo de promover a guerra entre Estados e Nações de forma a enfraquecê-los mutuamente e dispersar as forças. Segundo o Ministério das Questões Estelares a aposta será em duas antinomias e um produto fulcral para todos. Os pólos antagónicos serão Islamismo/Cristianismo e Oriente/Ocidente. O bem essencial o Petróleo. De salientar a intrusão de agentes extra-terrestres nos media terráqueos. Estes tomarão a forma de comentaristas políticos, cujas opiniões, difundidas maciçamente por todo o planeta, servirão de génese à Operação Tempestade Azul. Este ponto é fundamental para o sucesso da campanha militar.&lt;br /&gt;A tese preparada pelos Serviços de Informação Jupiterenses e a ser usados pelos analistas consta no seguinte: “O Ocidente – democrata, iluminado, esclarecido e cristão – chocou frontalmente com o Oriente – ditatorial, despótico, autocrata e muçulmano – de uma forma inaudita e aterradora. Ao ataque islâmico sem precedentes, pois as duas religiões sempre viveram em Paz, só a Guerra poderá servir de resposta!”. Tal deverá ser encarado como verdade incontestável.&lt;br /&gt;Informação emitida pelo Movimento Júpiter Pacifico (MJP).». &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109803637496983022?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109803637496983022'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109803637496983022'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/invaso.html' title='A Invasão'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109787549385589750</id><published>2004-10-15T22:23:00.000+01:00</published><updated>2004-11-06T00:34:55.066Z</updated><title type='text'>I. K. 3 - São Salvador</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;SÃO SALVADOR&lt;br /&gt;…onde tudo é “Amado”!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salvador cabe dentro de um quadro de Matisse: as casas são fauves coloridas contornadas a negro retinto, repletas de gente… não pessoas normais, mas GENTE mágica de calor e cor contente! Uma carnavalesca multidão desenfreada ocupa o burgo alto, esta gente simbiota vive em perfeita comunhão com a concha. A cidade opera como um búzio – não aquele molusco gastrópode que meu pai levava para casa e comia – o bicho é a gente, a concha é tudo o resto… tudo o resto eu já conhecia, Jorge Amado havia-me ensinado.&lt;br /&gt;«Agora eu quero contar as histórias da beira do cais da Bahia» junto ao Mercado Modelo, defronte ao Elevador Lacerda que une a Alta à Baixa. Tudo isto me faz lembrar meu pai, pescador robusto, homem de mar que não acreditava em Yemanjá, nazareno de Portugal… E Salvador tem uma Nazaré, e um elevador e um Sítio na alta e um oceano sem fim e um sotaque e uma alma como a minha vila paterna… Salvador faz de mim bipolar. A loucura da gente e a angústia apertada das reminiscências da concha, o achado e o perdido!&lt;br /&gt;Salvador é Amado e é meu pai, é meu pai e é Amado. É amarelo, verde, azul, todas as cores do mundo. É Mar Morto e é tempestade. É preto e é branco. É Igreja e é paganismo. É príncipio e é Bonfim. São Salvador representa o Homem, a gente – não é africano, português ou brasileiro – é como nós, infinito.&lt;br /&gt;Apesar do aparente, para mim São Salvador da Baía não é apenas um conjunto de antinomias em frases curtas, não consiste numa cidade-paradoxo… O verbo a aplicar é “rever”, eu revejo-me em Salvador. E sirva este diário kerouakiano para o que for, tem pelo menos a função de me recordar que não posso passar a vida sem aqui voltar. Entretanto, posso rever-me a percorrer o Pelourinho, a ver os ex-votos do Bonfim e a tocar nas bocas de fogo no Forte de Santa Maria ao ler as linhas do filho de Itabuna sobre a sua musa inspiradora. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A caminho de Maceió&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fevereiro de 2004&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109787549385589750?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109787549385589750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109787549385589750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/i-k-3-so-salvador.html' title='I. K. 3 - São Salvador'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109760827368446491</id><published>2004-10-12T20:10:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:09:55.913+01:00</updated><title type='text'>Viva o Estado Novo! </title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Domingo, 25 de Abril de 2004&lt;br /&gt;Querido Diário:&lt;br /&gt;Hoje foi um dia de festa… Comemoramos os trinta anos da vitória sobre o golpe de estado comunista, filhos do demo, que pretendia derrubar o nosso falecido Chefe Dr. Caetano – ESTÁ AO LADO DE DEUS! – e fazer de nós escravos dos soviéticos, filhos do demo! Foi muito bonito ver milhões de portugueses, brancos e pretos (a quem o nosso Chefe Dr. Santana – ESTÁ AO LADO DE DEUS! – trata como iguais, apesar de pretos retintos), a participar no desfile na Ponte Dr. Salazar – ESTÁ AO LADO DE DEUS! – com muitas bandeirinhas e papéizinhos atirados ao ar.&lt;br /&gt;Nos últimos dias não tive oportunidade de conversar contigo, querido diário, mas foram uns dias muitos cansativos, embora Gloriosos. Fomos a Fátima. Saímos de Sernancelhezinho há cinco dias, porém são duzentos quilómetros e um dos bois morreu pelo caminho, pobre Arriaga… As estradas principais passam por sítios lindos, foi pena a chuva dos últimos dias que as enlameou. Mas devemos agradecer o que temos, pois nas Conversas em Família o Dr. Santana – ESTÁ AO LADO DE DEUS! – disse que os nossos pretinhos nem casa têm! No Santuário orei muito… Pedi longa vida ao Dr. Santana – ESTÁ AO LADO DE DEUS! –, muita sorte para o meu irmão mais velho que está na guerra em Moçambique e que o Benfica bata o seu próprio recorde e ganhe o Campeonato pela trigésima terceira vez consecutiva. Mas falo já nisso! A Nossa Senhora estava bela como sempre toda vestida de branco e com a rica coroa de ouro.&lt;br /&gt;Hoje, no desfile da Ponte Dr. Salazar – ESTÁ AO LADO DE DEUS! –, fui porta-estandarte da Legião Portuguesa. Foi uma grande honra para mim e a minha família, mas consegui, com a ajuda de Deus, desempenhar este importante acto patriótico. Depois da missa campal ao meio-dia fomos para o piquenique oferecido pelo Partido. Como é um dia de festa podíamos escolher a comida: sardinhas assadas ou cozido à portuguesa. Eu e os meus irmãos comemos cozido, aliás toda a gente comeu carne… O mano José está muito contente porque passou o exame da quarta e agora já pode ir sempre trabalhar com o pai para o mar. À tarde fui ao futebol.&lt;br /&gt;Estivemos todo o jogo em pé, o pai só conseguiu comprar bilhetes para o peão, e apanhamos muita chuva. O pai comprou-me uma camisola encarnada. O Benfica ganhou e foi campeão outra vez. Dois golos de pénalti foram suficientes, mas o Porto tem um bom conjunto, apesar de nunca ganhar nada. É pena o Benfica não poder ir aos jogos europeus, pois tem uma grande equipa, mas o Dr. Santana – ESTÁ AO LADO DE DEUS! – disse que é melhor não termos contacto com os comunistas, filhos do demo, porque podemos perder a pureza! No fim do jogo a Amália cantou muitos e lindos fados, o pai fartou-se de chorar… O fado faz-lhe lembrar a juventude e as saudades que sente do tempo em que estava na Guerra do Ultramar. A Amália é uma velhinha muito amorosa.&lt;br /&gt;À noite comemos o farnel que a mãe trouxe às escondidas do piquenique. Ela contou-nos que vamos ter mais um mano, já somos uma dúzia como a pai queria. Falta um mês para o feriado do Vinte Oito de Maio, estou ansioso para vir outra vez à Capital! Agora vou dormir… Até amanhã querido diário. António. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109760827368446491?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109760827368446491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109760827368446491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/viva-o-estado-novo.html' title='Viva o Estado Novo! '/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109736095242731240</id><published>2004-10-09T23:28:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:13:57.613+01:00</updated><title type='text'>I. K. 2 - Santorini</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;SANTORINI&lt;br /&gt;… é onírica…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Artemisa, uma espécie de antigo cargueiro convertido em ferry-boat, conduziu-nos, numa viagem crepuscular, como só o Egeu pode oferecer, de Iraklion a Thera. Quatro horas sentados em cadeiras de esplanada sob uma cobertura abarracada, inseridos numa Babel de línguas. Comparando com todos os companheiros de viagem o nosso PIB era, definitivamente, una porca miséria! Enquanto o lusco-fusco não se transformou em noite podemos ver cardumes de golfinhos saltitantes sobre as ondas, fazendo recordar os murais proto-fauvistas de Cnossos… Com tanta fonte de inspiração este povo teria que ser artista!&lt;br /&gt;Num ano de histerismo milenarista, podia adjectivar a chegada nocturna à caldeira deste vulcão cicládico destruidor de civilizações de dantesca, mas como nunca li a Divina Comédia de fio a pavio, direi Aterradora! Duas linhas de luzes apresentaram-se diante de nós, na inferior adivinhávamos o porto, na superior a vila. Todavia, entre estas duas evidências de actividade humana situava-se um longo breu de centenas de metros… Compreendi mais tarde que se tratava do abismo gerado pelo afundamento de uma parte da ilha no segundo milénio a.C. Toda uma cultura de acrobatas morenos, de longos cabelos e corpos olímpicos carambolando sobre touros e pintando peixes e parisienses nas paredes, saiu fulminada por terramotos e maremotos descomedidamente mais arrasadores que o desastre setecentista de Lisboa. Pouco sabemos. Os Minóicos não tiveram um Cândido voltairesco como testemunha, nem sequer permaneceu uma réstia de optimismo…&lt;br /&gt;A ilha vive do turismo, totalmente massificado. A globalização transformou Santorini numa Big Apple estival pintada de azul e branco, repleta de pequenas cúpulas brilhantes e varandas e varandins viradas para as vistas vulcânicas de aspecto lunar, onde pululam as mesinhas dos Kafeneons, servindo ouzo ou retsina. O encanto humano da ilha fica por aqui. O remanescente é uma dádiva inaudita.&lt;br /&gt;A cidade exumada de Akrotiri, uma verdadeira Pompeia minóica, rivaliza com Cnossos. Em cada pedra, fresco ou muro derrubados experimenta-se a força da Natureza e o vácuo humano… É como se um glaciar instantâneo tivesse congelado o momento. Após este freeze temporal, bem pertinho das ruínas, entramos nas águas esverdeadas da praia de penhascos vermelhos e areias negras, bem na ponta meridional do crescente, virada a Creta. E debaixo do Sol Grego pensamos como é bela a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Egeu. A bordo do Poseidon, a caminho de Ios.&lt;br /&gt;Agosto de 2000 &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109736095242731240?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109736095242731240'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109736095242731240'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/i-k-2-santorini.html' title='I. K. 2 - Santorini'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109725937097604600</id><published>2004-10-08T19:14:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:16:56.036+01:00</updated><title type='text'>A censura começa na Suméria</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Mesh Raglu Sargon vivia em Lagash, uma pequena cidade entre o Tigre e o Eufrates. Escrevia epopeias e lia epopeias, as aventuras de Gilgamesh mantinham-no acordado noites a fio. A leitura, a escrita, em suma, a Cultura não deixavam MRS dormir, pouco tempo disponibilizava a Morfeu. A escola de escribas tinha nele o Professor e o amigo, os alunos devoravam avidamente as tabuinhas sugeridas que, posteriormente, debatiam não com o mestre, mas sim com o camarada. Nas horas vagas, incentivado pelo clima temperado e húmido da Terra do Meio dos Rios percorria grandes distâncias acompanhado, sempre, por um enorme séquito de discípulos e admiradores. Amava a sua Terra, os Rios, o Sol, as Árvores, o Mar, o Calor… MRS sentia a felicidade penetrar todos os poros do seu corpo cansado e quase vergado pelo peso de Tudo Saber. Todos procuravam as suas opiniões, os camponeses pretendiam conselhos sobre irrigação, os comerciantes sobre os melhores produtos a vender, até os sacerdotes ficavam impressionados com tamanha sagacidade. MRS era a consciência de Lagash e de toda a Suméria!&lt;br /&gt;Os anos passaram. A cidade alterou-se politicamente. Os Celebrantes do Templo tornaram-se os senhores da Terra do Meio dos Rios, o seu governo explorava impiedosamente a maioria secular da sociedade. A Antiga Liberdade parecia perdida, a Terra, os Rios, o Sol, as Árvores, o Mar, o Calor definhavam sob o poder sacerdotal. Os dias, as horas, os minutos passantes amadureciam a Revolução.&lt;br /&gt;Mesh Raglu Sargon começou a ser invejado, pressionado e perseguido. Acusavam-no de excessivo protagonismo, de as suas opiniões não serem seguidas de contra-resposta, de atacar o Templo sem dó nem piedade. MRS resistiu e resistiu até não poder mais, no fim desistiu da sua escola de escribas… O dia semanal de descanso arruinou o seu encanto, os camponeses, artificies, comerciantes, crianças, mulheres e velhos perderam o seu Educador! Que fazer sem as tabuinhas de lindos caracteres cuneiformes e sem os conselhos estruturantes de MRS?&lt;br /&gt;O Templo venceu, a Revolução nunca aconteceu e à consciência de Lagash e de toda a Suméria jamais foi permitido retomar as suas predicações. Assim, Mesh Raglu Sargon continuou a viver em Lagash, uma pequena cidade entre o Tigre e o Eufrates. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109725937097604600?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109725937097604600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109725937097604600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/censura-comea-na-sumria.html' title='A censura começa na Suméria'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109720913229828131</id><published>2004-10-08T05:17:00.000+01:00</published><updated>2004-11-06T00:33:12.436Z</updated><title type='text'>Instântaneos Kerouakianos 1 - São Luís do Maranhão</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;SÃO LUÍS&lt;br /&gt;…é uma casa alegre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São Luís é uma casa alegre… Os alicerces são franceses. Pouco resta das fundações originais. As paredes e o tecto são portugueses, pombalinos. O mobiliário é brasileiro, brasileiro de África. Aqui, pela primeira vez em mais de um mês sinto-me, indubitavelmente, em CASA. São Luís é uma máquina de habitar… é bom ser sedentário na capital do Maranhão! A simbiose entre todos os elementos é perfeita, é como um organismo bem calibrado, todos têm e sabem qual é a sua função. Esta cidade ainda é virgem, não foi descoberta pelo turismo massificado, daí ser tão familiar…&lt;br /&gt;Vistas do ar as cercanias da ilha informam-nos do fim do Nordeste e do começo do Norte Amazónico. Chegamos na época das chuvas… o calor lembra-nos o Verão. O meu carácter quase mediterrânico adaptado a um clima temperado de quatro estações sabe que chuva e Verão não combinam e dá o alarme. As poucas horas de sono, a respiração ofegante e o constante suor – quanto mais para o Setentrião fores mais calor faz (basta passar o equador para tudo ser invertido!) – deixou-me, admito, em estado de pré-coma… mas contudo… é óptimo estar a casa!&lt;br /&gt;A Rua Portugal, a Rua do Giz… o invólucro português com o seu recheio afro-brasileiro enche a cidade, podíamos estar em Luanda, Goa, Maputo, Dili, Bissau ou Lisboa! Em São Luís apercebo-me da completa Pandemia que foi e é a lusofonia. As ruas são livres, o estado de sítio e a guerrilha urbana dos outros aglomerados brasileiros aqui não existe.&lt;br /&gt;A alegria contagiante está de acordo com as cores garridas dos azulejos das fachadas. Eu adiro, contrariando ideias pré-concebidas. A ideia da melancolia e nostalgia portuguesas foram uma conclusão abusiva e difundida pela propaganda fascista do antigamente. Eu sou alegre, os portugueses são alegres… em São Luís são todos alegres! Viva o Brasil! &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Aeroporto de Barajas numa madrugada &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;fria de Março do ano de 2004&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109720913229828131?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109720913229828131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109720913229828131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/instntaneos-kerouakianos-1-so-lus-do.html' title='Instântaneos Kerouakianos 1 - São Luís do Maranhão'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109717412008684141</id><published>2004-10-07T19:30:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:21:40.136+01:00</updated><title type='text'>A Loucura e o Cinismo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Nesse dia chuvoso e escaldante insisti em ir trabalhar de autocarro… Sensível aos apelos ambientais e ao preço do combustível, fugi atrasado de casa por essas horas em que o invernal e o estival se passeavam de mãos dadas, pouco depois do nascer do sol. De guarda-chuva em riste, estupidamente vestido de branco, caminhei por entre as poças negras residentes em plena calçada de calcário, provocando um bizarro bailado de escorregadelas nos transeuntes. O vento frontal fazia-me entrar num feroz combate de florete… saí derrotado ao perder a arma num golpe baixo de Éolo! Cheguei à paragem. Havia saltado directamente da banheira para ali, eu e os restantes camaradas de viagem.&lt;br /&gt;Passou o primeiro. Demasiado cheio. Esperei pelo segundo. Demasiado cheio. Esperei pelo terceiro. Demasiado cheio. Entrei… “Um banho turco sem o cheiro a eucalipto!”, pensei, os passageiros assardinhavam-se uns de encontro aos outros, molhados pelo suor e pela chuva, asfixiados devido ao ar rarefeito. O topo de gama sueco movido a hidrogénio tinha o ar condicionado avariado. A música brasileira despejada aos berros por um rádio rouco ligado pelo motorista eslavo coberto de ouro, os abanões súbitos e os apertões que me faziam viajar quase sentado sobre as pernas do Boris aurífero fizeram lembrar-me as noites de romaria da minha infância. Esta letargia que se previa de cinquenta minutos acabou inesperadamente...&lt;br /&gt;Do fundo do autocarro provinham gritinhos histéricos e insultos despejados por pequenas mulheres e viris homens. O objecto de tamanha ira veio a voar em direcção à porta de saída, com a barba e o cabelo brancos e compridos, de sacola enrolada ao pescoço e o burel subido até à anca. O mendigo, sujo e molhado, ladrava incessantemente. Conhecia-o desde os tempos de escola, chamava-se Antístenes, diziam-no esquizofrénico (só mais tarde soube o significado disso), mas foi a principal vítima das nossas brincadeiras pueris. O homem era um onanista e fê-lo nos bancos traseiros do veículo em frente a vetustas operárias e nobres administrativas.&lt;br /&gt;A viagem continuou, agora muito mais animada. Ao ver Antístenes deitado de bruços sobre o alcatrão, ladrando, sempre ladrando e masturbando-se, sempre masturbando-se. Disse “O homem ou é doido ou é cínico?”…&lt;br /&gt;Viu-o mais tarde na Baixa, junto à Câmara Municipal, com os mesmos trajes musguentos e vociferando contra a ostentação, o luxo ocioso e os falsos moralismos. E, claro, ladrando, sempre ladrando… E viu-o no dia a seguir defendendo a autarcia e a auto-disciplina… E viu-o no outro dia, nu, gritando os seus direitos a fornicar onde quisesse, ladrando, sempre ladrando… Algum tempo depois, vendo-me constantemente presente, falou-me: “A felicidade humana reside na prática da virtude, entendida como desprezo de todos os bens exteriores e supressão de necessidades, o que conduz à autarcia ou governo de si mesmo.”.&lt;br /&gt;Desde esse dia que sou livre. Vivo de acordo com a natureza e não sou escravo do prazer. Chamo-me Diógenes e vivo num tonel com uns amigos, cães. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109717412008684141?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109717412008684141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109717412008684141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/loucura-e-o-cinismo.html' title='A Loucura e o Cinismo'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109715477494845518</id><published>2004-10-07T14:12:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:24:03.666+01:00</updated><title type='text'>Os mísseis e os Amigos de Olivença</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A globalização beneficia as actividades terroristas! Foi um U.S. Major que o disse. Filho de um exilado português em Château-sur-l’Arbre-de-le-Loire-Blanche-et-Noire, uma pequena village francesa, que após o lançamento do Bonjour Tristesse, em 1959, foi com o pai para Lincoln, no Texas. Seu pai não suportou a promiscuidade da sociedade francesa e re-exilou-se voluntariamente. Suicidou-se em Maio de 1968, poucos dias antes de regressar a Portugal, convencido pela promessa primaveril de Marcello Caetano.&lt;br /&gt;Encontrei-o em Sertanelhezinho, aldeia perdida nas Beiras, e dele fiquei amigo. Veio ver como viviam os seus antepassados antes de irem viver para a metrópole no ano do regicídio. O Major John Smith – outrora João Ferreira – nunca tinha vindo a Portugal e surpreendeu-se ao ver uma manifestação dos Amigos de Olivença, repleta de bigodes farfalhudos, bandeiras azuis e brancas e dezenas de “Muerte a Juan Carlos”… Compreendeu logo que Portugal tinha uma organização terrorista anti-castelhana. A partir desse momento o Pentágono e a CIA passaram a preocupar-se não apenas com a ETA e o terrorismo islâmico do Al-Andaluz. A A.D.O. foi pela primeira vez transformada num perigo real. Quando essa notícia abriu o bloco da CNN houve champagne e perna de porco assada em todos os lares monárquicos nacionais: “Viva Aljubarrota!” ouviu-se de Caminha à Vila Real pombalina, com principal incidência em São Pedro de Sintra!&lt;br /&gt;Subitamente a A.D.O. internacionalizou-se. Com o apoio do PPM e da Casa de Bragança, a Internacional Oliventina procedeu a raptos cirúrgicos de cidadãos provenientes de países coniventes com o status quo. As cidadãs italianas, curiosamente todas com o mesmo nome começado em S. e pertencentes a algumas ONG’s, foram as principais vitimas. Só um país e uma organização separatista apoiavam as pretensões da A.D.O.: o Irão e a ETA. A Khadafi a questão não interessava, Olivença não tinha nenhum clube de futebol importante.&lt;br /&gt;O maior objectivo da A.D.O. era até há pouco tempo possuir capacidade bélica, pois a concorrência na indústria dos raptos endureceu, algumas organizações islâmicas incutidas pelo espírito da Jihad chegam a fazer dumping. Os separatistas de Olivença pretendem levar a guerra à Praça das Cibeles e ao Santiago Barnabéu, numa homenagem à luta catalã.&lt;br /&gt;Porém, a luta da A.D.O. sofreu um forte revés. Os mísseis terra-ar de fabrico russo que a ETA havia gentilmente cedido aos Amigos de Olivença foram capturados pelos Gendarmes no Sudoeste de França quando estavam a ser embarcados para Leixões. Sabe-se, contudo, que este passo atrás não constitui um retrocesso grave, o Irão disponibilizou-se a ceder alguns dos seus novos mísseis terra-terra Shabab-3 com alcance de 2000 km. Segundo Al-malik Duarte (entretanto, convertido ao Islão) “…este novo fogo de Alá vai vingar a derrota de Poitiers, em 732, e finalmente vergar Carlos Martel…”. Os ginetas e os janizaros de Olivença, qual Doctor Strange Love, irão montados nos Shabab-3 e conquistar não só a Espanha infiel mas, também a França colaboracionista de Pétain, para isso vão pedir a ajuda de H. G. Wells, e o resto da Europa civilizada, sem esquecer a Albânia. É o começo da Grande Olivença Islâmica.&lt;br /&gt;Segundo fontes oficiais próximas do conselheiro iraniano para as questões oliventinas Hashemi Rafsanjani, Portugal não interessa ao Islão e será transladado com a ajuda de Saramago para o Atlântico Sul. Sertanelhezinho viverá em Paz, agora com coqueiros e com o petróleo de São Tomé. O Major John Smith irá com os seus amigos texanos promover a extracção petrolífera em homenagem à luta anti-fascista promovida por seu pai e passar os fins-de-semana no Nordeste brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109715477494845518?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109715477494845518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109715477494845518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/os-msseis-e-os-amigos-de-olivena.html' title='Os mísseis e os Amigos de Olivença'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8623503.post-109715471603374472</id><published>2004-10-07T14:10:00.000+01:00</published><updated>2004-10-27T00:26:47.660+01:00</updated><title type='text'>Questão Tchechena chega à Portela</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A prova irrefutável que a censura chegou à Mãe-Rússia é a edição de hoje do diário Kommersant. Refere que o novíssimo air force one de Putin sofreu, na semana passada, um problema técnico durante a descolagem em Lisboa… O «problema técnico» foi um pombo suicida que se fez explodir num dos reactores do avião! O Kommersant não explora esta vertente da noticia…&lt;br /&gt;O FUSTIGANTE não é visionário, mas usando o senso-comum e algumas fontes anónimas, chegou às seguintes interrogações: Não terão os Tchéchenos tradições columbófilas? Grozny não tem pombos nos seus parques? No Caúcaso não existe a modalidade de tiro aos pombos?&lt;br /&gt;Desde Beslan que é tacitamente aceite as ligações entre os separatistas Tchéchenos e a Al-Qaida, sabendo nós a tendência destes últimos para os atentados alados torna-se simples estabelecer a ligação. Eis como todo se processou!&lt;br /&gt;Em 2000, quatro anos após o assassinato de Dudaiev, estabeleceu-se uma célula terrorista em Tires que, juntamente com a célula de Hamburgo, se transformou num dos principais quebra-cabeças para a base da NATO em Oeiras. Esse núcleo composto por cerca de uma dezena de elementos inseriu-se perfeitamente na sociedade portuguesa, chegando mesmo alguns deles a formarem a La-Base (em árabe: Al-Qaida) em Madrid. Este núcleo madrileno, subsidiário da célula lusitana, deu origem ao 11 de Março e a um importante ponto de encontro do terrorismo islâmico na estufa nº 5 em El-Ejido, liderado por uma trupe de marroquinos, ao qual deram o nome de Grupo dos Budas, em homenagem aos resistentes anti-fascistas portugueses que viviam em Madrid nos anos 40.&lt;br /&gt;A célula de Tires, composta maioritariamente por muçulmanos guineenses, trabalha na manutenção de edifícios públicos e estatuária, com especial predilecção pelas estátuas equestres, usando para isso um novo componente, o guano. Os seus tempos livres são passados no Parque Eduardo VII e em Monsanto. Todavia, após o sequestro da escola na Ossétia do Norte e das medidas democratas tomadas por Putin (como se sabe a luta Tchéchena visa a destruição da grande democracia russa), os treinos da célula de Tires incrementaram o seu ritmo e desenvolveram-se na zona da Portela e da Ota – a escolha deste último local deveu-se a uma deficiente informação proveniente das montanhas afegãs.&lt;br /&gt;O D-day foi a chegada do avião de Putin a Portugal. Logo pela manhã, todos os elementos da célula se aglomeraram na pista comendo milho e restos de pneus, esperando o melhor momento para o ataque. Antes, contudo, procederam à lavagem ritual das penas e colocaram o cinto explosivo sob as mesmas. Como vimos o ataque falhou… A ausência de Oliveira Estaline Pot, perdão de Vladimir Putin, deveu-se ao alerta dado pelo(a) ministro(a) da defesa português(a) que havia sido, por sua vez alertado, pela agente Fátima. A única informação que o FUSTIGANTE conseguiu sobre esta agente é que é mãe de uma pessoa muito importante, tendo por algum tempo mudado de camisola e entrado na família de Maomé… Segundo a própria “…coisas do passado. Poderia ter sido maoista, mas não gosto de Bruxelas!”.&lt;br /&gt;De salientar a existência de dois terroristas sobreviventes que se encontram incomunicáveis em Cuba… &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8623503-109715471603374472?l=fustigante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109715471603374472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8623503/posts/default/109715471603374472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://fustigante.blogspot.com/2004/10/questo-tchechena-chega-portela.html' title='Questão Tchechena chega à Portela'/><author><name>JG</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08127982014233113436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry></feed>
